FOTO: Djalma Correa Pacheco/Prefeitura de Esteio

Da redação* | Quando entrou no salão da Igreja Apostólica do Brasil (IAB), no Parque Tamandaré, na noite desta quarta-feira (5), o venezuelano Carlo Rojas, 35 anos, beijou o distintivo da camiseta da Seleção Brasileira que havia ganho de presente de um brasileiro, ainda em Roraima, onde estava refugiado há mais de três meses. Garçom e bartender em hotéis da cidade de Isla Margarita, um paraíso turístico ao Norte da Venezuela que viu o número de turistas despencar com a crise institucional, política e econômica, Carlo atravessou o país para buscar oportunidade no Brasil. Como milhares de conterrâneos, chegou ao solo brasileiro pela fronteira com a cidade de Pacaraima. De lá, foi para Boa Vista, onde estava num abrigo coordenado pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiado (ACNUR), órgão ligado à Organização das Nações Unidas (ONU). Quando recebeu a proposta de vir para Esteio, onde ganharia abrigo e alimentação por seis meses e poderia procurar emprego, pensou um pouco e decidiu aceitar a oferta. “Vim para cá em busca de trabalho, pois quero ajudar meus pais, irmã e sobrinho que ficaram lá. Depois, quero trazer minha família para cá”, contou Carlo, fã do futebol brasileiro que, na Venezuela, dedicava parte do dia para ensinar crianças a jogar futsal e basquete em escolinhas esportivas.

20180905_DjalmaCorreaPacheco_ChegadaVenezuelanos_028
Carlo Rojas chegou beijando o distintivo da camiseta da Seleção Brasileira que havia ganho de presente de um brasileiro, ainda em Roraima – FOTO: Djalma Correa Pacheco/Prefeitura de Esteio

Carlo foi um dos 125 refugiados do primeiro grupo de venezuelanos que serão abrigados em Esteio. O voo, que partiu pela manhã de Boa Vista e fez escalas em São Paulo e Brasília, pousou no aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, às 20h15min. De lá, os refugiados entraram em ônibus do Exército Brasileiro e vieram para Esteio. Foram recepcionados com aplausos na igreja, onde foi servida uma janta preparada por religiosos voluntários da IAB.

Enquanto os venezuelanos eram recebidos e ganhavam roupas arrecadadas durante a Campanha do Agasalho e doadas pela empresa Ruder, o prefeito Leonardo Pascoal, e o ministro do Desenvolvimento Social, Alberto Beltrame, davam uma coletiva para a imprensa em outra sala. Entre as perguntas, quais serão os próximos passos dos refugiados na cidade. “Desde que essas pessoas tomaram a triste decisão de sair de suas casas, de suas cidades e de seu país, a vida delas é uma montanha-russa de incertezas. A primeira coisa que temos que fazer é oportunizar que tenham a segurança necessária para projetar suas vidas. Elas serão inseridas na rede de atendimento social do Município, receberão oficinas de Língua Portuguesa para que o idioma não seja uma barreira, terão assessoria para organizarem seus currículos e receberão formação para que, a partir daí, possam buscar oportunidades no mercado de trabalho”, disse Pascoal.

O prefeito, que foi para Roraima na última segunda-feira (3) e conheceu, ao lado da secretária municipal de Cidadania, Trabalho e Empreendedorismo, Tatiana Tanara, abrigos de refugiados montados em Boa Vista, também falou sobre a experiência impactante. “Tivemos contato com muitas histórias de vidas surpreendentes, de pessoas que tinham na Venezuela um bom padrão social, um bom nível salarial e tiveram que largar tudo para se sujeitar, aqui no Brasil, a um padrão bem inferior. Quem tem contato com a realidade que aquelas pessoas estão vivendo nos abrigos e na própria Venezuela, onde faltam itens básicos para se manter, se for contra a vinda dos venezuelanos para nosso país, com certeza, muda de ideia”, afirmou.

Após a janta, os venezuelanos foram para o alojamento, a poucos metros da igreja. O primeiro a se estabelecer em uma das camas foi José Marcano, um jovem de 18 anos, também de Isla Margarita, que perdeu o emprego como recepcionista em um hotel da cidade. Apaixonado pelo Brasil, pela música e dança brasileiras, José encarou o desafio de trocar o clima quente do seu país pelo frio do Rio Grande do Sul para reconstruir a vida. “Tenho três objetivos aqui: trabalhar, trazer minha família para cá e concluir meus estudos”, enumerou o jovem que cursava Enfermagem na Venezuela e tinha como sonho estudar Medicina.

Outro grupo chega dia 13

Outros 96 venezuelanos devem chegar a Esteio no dia 13 deste mês. Neste grupo, devem conter famílias, que serão abrigadas no alojamento da Rua Liberato Salzano Vieira, na Vila Osório.

Para acolher os imigrantes, Esteio vai receber R$ 530,4 mil, recursos que serão investidos em ações para dar melhor acolhida aos refugiados, nas áreas de assistência social, saúde e educação, principalmente, ao longo de seis meses. Para organizar o atendimento, o prefeito emitiu uma portaria nesta segunda-feira (3), criando o Comitê Articulador do Processo de Interiorização de Refugiados Venezuelanos em Esteio. Pascoal será o coordenador, tendo a titular da SMCTE como subcoordenadora, enquanto o diretor de Cidadania e Desenvolvimento Social da SMCTE, Cristiano Coutinho, e a coordenadora de Direitos Humanos, Maria Izabel Teixeira, serão os coordenadores dos dois abrigos que receberão os venezuelanos.

20180905_DjalmaCorreaPacheco_ChegadaVenezuelanos_038
Os venezuelanos foram instalados em 20 apartamentos no Parque Tamandaré – FOTO: Djalma Correa Pacheco/Prefeitura de Esteio

Os alojamentos, cujos alugueis serão pagos pela ONU, ficam na Rua Senador Salgado Filho, no Parque Tamandaré, onde foram acomodados venezuelanos em 20 apartamentos com seis a oito camas cada, e na Rua Liberato Salzano Vieira, na Vila Osório, que tem 27 apartamentos e para onde irão grupos familiares. Ambos os espaços contam com cozinhas compartilhadas, onde os refugiados poderão preparar as refeições com os alimentos doados pelo Exército.

*Com informações da Prefeitura de Esteio