Foto: Vinicius Thormann/Prefeitura de Canoas

Da redação* | No colo da mãe, a pequena Maria Clara, de apenas um ano, parece não ter muita consciência do que está acontecendo, mas, desde muito nova, já carrega a devoção a Nossa Senhora dos Navegantes. A Janaína Dias, moradora do Loteamento Prata, em Canoas, vestiu a filha de azul, cor da homenageada do dia, e se dirigiu a procissão pelas ruas do Rio Branco a fim de pagar as promessas feitas em nome da santa. Aos 43 anos, sustentava a família vendendo doces e salgados nas ruas da cidade. O esposo, desempregado há quatro anos, já estava sem esperança. Para piorar a situação, apareceram muitas manchas no rosto de Maria Clara. “Diante dos problemas, vim até a paróquia rezar e pedir ajuda espiritual. Entreguei tudo nas mãos de Deus e de Nossa Senhora. Hoje a Maria Clara está bem de saúde e o meu marido está empregado”, revelou Janaína.

No caminho entre a paróquia Imaculada Conceição, no bairro Rio Branco, e o embarque para a procissão fluvial, nas margens do Rio Gravataí, centenas de outras histórias se misturaram a da doceira na manhã deste sábado, 2 de fevereiro. São agradecimentos, pedidos e orações, movidos pela devoção a uma das santas mais populares, Nossa Senhora dos Navegantes, para os católicos, e Iemanjá para as religiões de matriz africana. Essa é a 30ª edição do evento na cidade, este ano organizado pelas paróquias Nossa Senhora Imaculada Conceição, Sagrado Coração de Jesus e São Pio X, em conjunto com a Federação Afro Umbandista e Espiritualista do Rio Grande do Sul (Fauers). O objetivo da união de esforços foi contemplar todos os canoenses em suas mais variadas crenças.

As procissões foram realizadas por água e terra (Foto: Vinicius Thromann/Prefeitura de Canoas)

Duas imagens de Nossa Senhora dos Navegantes percorreram o caminho da procissão até a praia do Paquetá. Uma chegou pelas águas do Rio dos Sinos, acompanhada da procissão fluvial que contou com dezenas de embarcações. A outra guiou os fiéis das comunidades do Mato Grande, Mathias Velho e Harmonia, na procissão terrestre. Na chegada ao Paquetá, um ato inter-religioso contou com momentos de reflexão sobre a preservação ao meio ambiente, tema central da 30ª Procissão de Nossa Senhora dos Navegantes e Iemanjá. “Juntos com os nossos irmãos, reverenciamos a mãe das águas, e usamos este ato para pedir perdão por todas as vezes que não preservamos o nosso bem maior, a natureza. Ao homenagear Nossa Senhora e Iemanjá, acolhemos e saudamos a natureza, construindo uma maior sintonia com Deus”, destacou o Frei Vilson Dallagnol, da paróquia Sagrado Coração de Jesus.

Ao término do ato, em alusão aos 80 anos de Canoas, 80 pequenas embarcações foram largadas no Rio dos Sinos, em oferenda a Iemanjá. A ação foi uma iniciativa da Fauers, que realiza um trabalho de consciëncia ambiental onde homens e mulheres, dentro dos presídios do estado, constroem pequenos barcos biodegradáveis para a realização das oferendas, evitando a poluição do meio ambiente. São barcos feitos de farinha de trigo, água e vinagre, que levam as orações dos devotos da Mãe Iemanjá para mais perto do seu reino. “O nosso sagrado é a natureza. Por ser sagrado, devemos sempre preservar. Esses 80 barcos são pedidos de proteção para a nossa cidade, um ato de respeito ao meio ambiente e também a fé dos canoenses”, explicou o presidente da Fauers, Everton Alfonsin, também conhecido como Caco.


Gisele pediu proteção para o município (Foto: Vinicius Thormann/Prefeitura de Canoas)

A vice-prefeita de Canoas, Gisele Uequed, além de acompanhar o ato inter-religioso, fez questão de participar de todos os momentos inseridos na celebração. Emocionada, carregou o andor de Nossa Senhora dos Navegantes até o palco principal e levou até as água do Paquetá os seus pedidos de proteção ao município, simbolizados no barco biodegradável de oferenda a Iemanjá. “Cada um na sua crença, dentro dos seus ritos religiosos, busca na fé do outro exercitar aquilo que é essencial para que todos possam viver em harmonia: a tolerância. Não podemos nos deixar levar pelo medo do desconhecido, rejeitando o que é diferente. A religião, seja qual for, serve para nos transformar em pessoas melhores, tolerantes com os nossos irmãos”, finalizou Gisele.

*Com informações da Prefeitura de Canoas