João Michelon. Foto: divulgação.

João Michelon | ginecologista do Fertilitat

Neste momento, ainda sob efeito da pandemia, nenhum conceito ou afirmação pode ser tachado como verdade categórica. O tempo, as investigações e os estudos bem conduzidos revelarão verdades, hoje, duvidosas, questionáveis ou inimagináveis. Em tempos de pandemia, de “cientistas” todos temos um pouco, porém a ignorância no assunto pode levar a conclusões ou afirmações equivocadas e até maldosas. A divulgação de notícias fictícias gera dúvidas, medos, ansiedade e comportamentos inapropriados.

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A recente circulação de suposto comprometimento da fertilidade humana, especialmente a masculina, após a aplicação de vacinas do Sars-CoV-2 é daquelas notícias que são um desserviço para a sociedade.

Não há nenhum mecanismo biológico aceitável ou evidência científica de que as vacinas, hoje disponíveis, possam induzir a perda da fertilidade humana. Os estudos clínicos das vacinas não contemplaram avaliar a fertilidade dos participantes, mas nenhuma alteração na fertilidade foi mencionada por qualquer dos ensaios clínicos. Da mesma forma, na fase IV dos estudos, quando a vacina já está disponibilizada à população, até o momento, não há menção a qualquer dano ao potencial reprodutivo, tanto de homens quanto de mulheres.

As sociedades médicas internacionais de reprodução assistida se posicionam de forma contumaz para adoção da vacinação em pessoas com idade fértil ou que estejam tentando engravidar. Ao contrário do suposto receio da perda da fertilidade, as vacinas são a melhor opção para preservar a competência reprodutiva. Os casais que estão em tratamento para fertilidade devem ser estimulados a receber a vacina, para que possam começar o período gestacional protegidos.

As vacinas, por não difundirem vírus vivo no organismo e impulsionarem o sistema imunológico para uma defesa eficaz, nos confere uma suntuosa proteção ao adoecimento. Num raciocínio lógico, a ausência de proteção vacinal expõe os indivíduos à enfermidade pelo Covid-19 e suas sequelas, incluindo aquelas possíveis do aparelho reprodutivo. A proteína spike é a grande facilitadora para que o Sars-CoV-2 entre e se instale na célula humana; ela tem como alvo uma enzima chamada “Enzima Conversora de Angiotensina 2” que facilitará sua entrada no compartimento celular.

As células espermáticas, dos testículos, dos ovários e óvulos possuem esta enzima em abundância, o que pode conferir passaporte ao vírus para penetrar nestes ambientes e ocasionar danos reprodutivos em homens e mulheres. Pelo pouco tempo de evolução da doença, os possíveis danos ainda são especulativos, diferentemente de outras infecções virais conhecidas de longa data como o HPV, Herpes, Hepatites ou Caxumba que repercutem negativamente na fertilidade humana.

“A verdade hoje proferida, pode enunciar uma mentira amanhã”. Essa frase, sempre atual, é um alerta para que tenhamos cuidado em pré-julgamentos sobre causa e efeito do Sars-CoV-2. O volume de conhecimento atual sobre o vírus não nos confere expertise para opiniões; precisamos embasamento científico consistente e não Fake News soltas aos “quatro ventos” causando sustos, amedrontamentos ou fobias. Como especialistas em saúde reprodutiva, neste momento, recomendamos a proteção vacinal ampla como forma de proteção da fertilidade.