Uma equipe médica brasileira realizou, em 6 de agosto, uma cirurgia inédita em Goiânia para tratar uma paciente jovem com depressão resistente associada à dor crônica. O método, conhecido como estimulação cerebral profunda (DBS – Deep Brain Stimulation), marca um avanço promissor na interface entre neurocirurgia e psiquiatria.
O que é estimulação cerebral profunda?
A DBS consiste na implantação de eletrodos em regiões específicas do cérebro, conectados a um neuroestimulador semelhante a um marca-passo, instalado no tórax. Esse dispositivo envia impulsos elétricos contínuos, com o objetivo de regular a atividade de circuitos cerebrais relacionados ao humor, motivação e percepção da dor.
“Os médicos utilizam a técnica há décadas para tratar doenças neurológicas como Parkinson, distonias e tremores essenciais, mas aplicá-la na depressão crônica resistente é relativamente novo e ainda considerado experimental.”
No caso brasileiro, os eletrodos foram posicionados em dois alvos:
- Substância cinzenta periaquedutal: envolvida no controle da dor.
- Feixe prosencefálico medial: ligado às respostas emocionais ao sofrimento.
O objetivo é modular tanto a experiência física da dor quanto os sintomas depressivos, oferecendo qualidade de vida onde terapias tradicionais falharam.
Primeiro caso foi registrado na Colômbia
Antes da cirurgia no Brasil, a Colômbia realizou o primeiro procedimento do tipo em abril deste ano, em Bogotá. A paciente colombiana, segundo os médicos, relatou melhora progressiva após ajustes no dispositivo implantado.
Especialistas indicam o DBS apenas para casos graves, quando o paciente já testou medicamentos (como antidepressivos, lítio ou quetamina), psicoterapia e terapias neuromodulatórias menos invasivas, como a estimulação magnética transcraniana, sem obter sucesso.
Como é feita a cirurgia para depressão?
O procedimento requer planejamento minucioso e tecnologia avançada de neuroimagem para atingir os circuitos corretos sem comprometer áreas críticas, como memória e linguagem. A precisão é milimétrica, pois qualquer erro pode trazer riscos neurológicos significativos.
A recuperação é gradual:
- Os efeitos terapêuticos podem levar meses para aparecer.
- O neuroestimulador precisa de ajustes contínuos para encontrar os parâmetros ideais.
- O acompanhamento psiquiátrico permanece obrigatório mesmo após a cirurgia.
Resultados e desafios
Estudos apontam que apenas 20% a 30% dos pacientes alcançam remissão sustentada da depressão com DBS. Por isso, a técnica não substitui os tratamentos tradicionais – que incluem medicamentos, eletroconvulsoterapia, mudanças no estilo de vida e psicoterapia.
“Apesar dos resultados iniciais animadores, a estimulação cerebral profunda ainda é experimental e precisa de mais pesquisas para garantir eficácia e segurança”, ressalta Cassiano Teixeira, professor de psiquiatria da Afya Educação Médica.
Além disso, questões éticas são cruciais. Como se trata de um procedimento invasivo, o paciente deve fornecer consentimento livre e esclarecido, entendendo todos os riscos e benefícios antes da cirurgia.
O futuro do tratamento
A expectativa é que, com avanços tecnológicos e novos estudos, a DBS se torne uma alternativa para casos extremos de depressão resistente. Até lá, ela continua sendo uma última opção, aplicada apenas em contextos muito específicos e sob rigoroso acompanhamento médico.