Uma das maiores empresas do setor têxtil do país decidiu levar parte de sua produção para fora do Brasil e o motivo, segundo a própria direção, vai muito além de estratégia internacional. A mudança acendeu um alerta no setor industrial e reacendeu o debate sobre carga tributária, competitividade e fuga de investimentos.
A decisão partiu da Lupo, tradicional gigante de roupas com mais de um século de história no Brasil. Em junho, a empresa inaugurou uma fábrica em Ciudad del Este, no Paraguai, marcando uma virada importante na sua estratégia de produção.
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Segundo a CEO da companhia, Liliana Aufiero, a saída não foi uma escolha espontânea. “Não é que a Lupo foi para o Paraguai, o Brasil empurrou a gente para o Paraguai”, afirmou em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, publicada em novembro de 2025.
Impostos pesaram na decisão
De acordo com a executiva, a decisão veio após a sanção da Lei nº 14.789/2023, que alterou as regras de tributação sobre incentivos fiscais do ICMS. O impacto foi direto no caixa da empresa, reduzindo margens e comprometendo a competitividade da operação brasileira.
“Os impostos estão comendo a operação de forma violenta”, afirmou Liliana. Segundo a Lupo, os custos no Paraguai são ao menos 28% menores do que no Brasil, o que torna a produção no país vizinho muito mais atrativa.
Fábrica no Paraguai já tem alta capacidade
A nova planta industrial tem capacidade para produzir até 20 milhões de pares de meias por ano. O investimento inicial foi de aproximadamente R$ 30 milhões, com a geração de cerca de 110 empregos diretos na região.
Além da carga tributária, a empresa também citou a concorrência internacional como fator decisivo. No Paraguai, uma fábrica administrada por um empresário chinês consegue produzir a custos menores e vender no mercado brasileiro com grande competitividade.
“Se ele consegue vender no Brasil sem investir em marca e oferecer um bom produto a um custo menor, eu tenho que ter as mesmas vantagens”, explicou a CEO.
Gigante de roupas lidera mercado nacional
Mesmo com a mudança, a Lupo segue como líder nacional na venda de meias e cuecas. O grupo também atua fortemente nos segmentos de lingerie, pijamas e meia-calça, com marcas conhecidas como Lupo, Trifil e Scala.
Hoje, a empresa conta com cerca de 9 mil funcionários, mantém 911 franquias, nove lojas próprias, cinco fábricas e três centros de distribuição espalhados pelo país. O faturamento em 2024 chegou a R$ 1,85 bilhão.
Expansão e reestruturações no Brasil
Nos últimos anos, a companhia também passou por mudanças importantes dentro do território nacional. A Lupo fechou a fábrica de Guarulhos (SP) e concentrou parte da produção em Itabuna (BA).
Em 2022, adquiriu uma unidade da fabricante Marisol, em Pacatuba (CE). No ano seguinte, comprou a malharia Cotece, em Maracanaú (CE), reforçando sua presença no Nordeste.
A linha esportiva também ganhou destaque. A Lupo Sports, lançada em 2011, já responde por 22% das vendas e cresceu 28% no primeiro semestre, enquanto a marca principal avançou 2% no mesmo período.
Sucessão definida, mas CEO segue no comando
Liliana Aufiero, formada em engenharia civil em 1967, assumiu a direção comercial da empresa em 1986. Apesar de o fundador Henrique Lupo ter tentado impedir a participação da família a partir da terceira geração, disputas acionárias acabaram surgindo ao longo dos anos.
A CEO já definiu seu sucessor: Carlos Alberto Mazzeu, atual vice-presidente da companhia. Ainda assim, ela afirma não ter planos de deixar o comando tão cedo. “Se eu me aposentar, será o dia da minha morte”, declarou.
Enquanto isso, a decisão do gigante de roupas de levar parte da produção para fora do país segue repercutindo e levanta um questionamento que preocupa o setor industrial: até que ponto o Brasil continuará perdendo empresas para países com custos mais baixos?


