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09 de janeiro de 2026

Com dívida bilionária, grupo do agronegócio entra em recuperação judicial

Grupo do agronegócio entra em recuperação judicial com dívida bilionária após crise de crédito e impacto no setor de sementes.

A crise que atinge o agronegócio brasileiro, especialmente o setor de sementes, voltou a gerar impacto no mercado financeiro e entre produtores rurais. Nos últimos meses, dificuldades de crédito, excesso de estoques e aumento das recuperações judiciais no campo têm pressionado empresas de diferentes portes.

O cenário adverso levou grupos tradicionais a buscar proteção judicial para evitar execuções, renegociar dívidas e tentar reorganizar o fluxo de caixa. Casos semelhantes vêm se multiplicando, principalmente entre companhias ligadas à cadeia da soja.

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Nesse contexto, um grupo do agronegócio pediu recuperação judicial em dezembro, com um passivo que gira em torno de R$ 1,3 bilhão, segundo apuração do mercado. O pedido foi protocolado pouco antes do recesso do Judiciário e o processo tramita em segredo de justiça.

Quem é o grupo que pediu recuperação judicial

Trata-se do Grupo Formoso, controlador da Uniggel, uma das principais sementeiras do país. De origem goiana, o grupo atua há mais de três décadas no Cerrado, reunindo operações de produção agrícola, sementes, esmagamento de soja e algodão.

No auge das atividades, o conglomerado chegou a faturar quase R$ 1,5 bilhão por ano, sendo cerca de R$ 550 milhões provenientes apenas da área de sementes, conforme os dados financeiros mais recentes disponíveis no mercado.

Falta de crédito agravou crise de liquidez

Nos últimos meses, a combinação entre escassez de crédito e excesso de estoques no setor de sementes expôs os problemas de liquidez do grupo. A dificuldade para renovar linhas de financiamento junto a bancos públicos, como Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal, e também com instituições privadas, acelerou o processo de deterioração financeira.

Em novembro, a situação ganhou repercussão após a circulação de uma carta enviada aos fornecedores por Luiz Fernando Sampaio, gerente de compras da Uniggel. No documento, ele reconhecia a impossibilidade de recompor linhas de crédito que haviam sido amortizadas ao longo do ano.

Segundo o relato, apenas em 2025 o grupo teria pago mais de R$ 120 milhões a bancos como Banco do Brasil, Caixa e Banco da Amazônia, contando com a expectativa de renovação dessas linhas — o que não ocorreu.

Impacto de calotes e recebíveis pressionou caixa

Além da restrição de crédito, a empresa também foi afetada por recuperações judiciais de clientes, o que gerou um impacto negativo estimado em R$ 20 milhões. Soma-se a isso a renegociação de cerca de R$ 10 milhões em recebíveis da safra anterior.

Diante desse cenário, o grupo tentou postergar pagamentos a fornecedores para fevereiro de 2026, mas, segundo informações do mercado, não obteve sucesso. A alternativa encontrada foi recorrer à recuperação judicial para reorganizar as obrigações financeiras.

Dívidas com bancos e mercado de capitais

Atualmente, a maior parte do passivo está concentrada no sistema bancário, mas o grupo também possui credores no mercado de capitais. Em 2023, a Uniggel captou R$ 130 milhões em Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs), em operação coordenada pelo Rabobank.

Hoje, o saldo dessas dívidas é de aproximadamente R$ 117 milhões, com vencimento em 2029 e remuneração de CDI + 4,15% ao ano. As garantias envolvem fazendas dos sócios localizadas em Mato Grosso do Sul e Tocantins, dadas em alienação fiduciária.

Entre os investidores desses títulos estão fundos ligados a gestoras como Riza e Kijani. Embora, em tese, as garantias afastem os CRAs da recuperação judicial, na prática, esse tipo de situação costuma gerar disputas e insegurança jurídica.

Representação jurídica

No processo de recuperação judicial, a Uniggel é representada pelo advogado Alan Rogério Mincache, do escritório paranaense Federiche Mincache.

Nota oficial do Grupo Formoso (íntegra)

“O Grupo Formoso, com mais de 35 anos de atuação no agronegócio brasileiro,
informa que protocolou, no dia 18/12, pedido de recuperação judicial. A companhia
segue em plena atividade, mantendo o funcionamento regular de suas operações e
contribuindo para o fortalecimento e desenvolvimento da produção agrícola nacional,
preservando a confiança que sempre marcou sua trajetória no mercado.

O processo tramita atualmente sob segredo de justiça, conforme previsto na legislação
vigente, e encontra-se em análise pelo Poder Judiciário, o que, neste momento, impede a
divulgação de informações adicionais.

O Grupo Formoso reafirma o seu compromisso com colaboradores, clientes e
fornecedores, sempre com respeito às relações cultivadas ao longo desses anos, ações
reforçadas sempre pela transparência e pautadas pela ética.”

Guilherme Galhardo
Guilherme Galhardo
Redator, apaixonado pela cultura POP, luta-livre, games, séries e filmes, escreve sobre economia, serviços e cotidiano de cidades. Entusiasta de meteorologia e punk rocker nas horas vagas.
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