A polilaminina tornou-se o centro de um dos avanços mais promissores da ciência brasileira nos últimos anos. Essa molécula inovadora atua reorganizando o tecido nervoso lesionado, criando um ambiente biológico que estimula os neurônios a reconectarem os circuitos interrompidos após uma lesão na medula espinhal.
Estudos preliminares em humanos já indicam que pacientes com perda de movimentos conseguiram recuperar funções motoras depois do tratamento experimental. A substância foi criada pela bióloga Tatiana Sampaio, pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), após mais de duas décadas de pesquisa nas áreas de biologia regenerativa e matriz extracelular
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Ela desenvolveu a polilaminina a partir da proteína laminina, encontrada na placenta humana, e cuja forma polimerizada favorece a regeneração neural em áreas lesionadas.
Como a polilaminina age na regeneração neural
A polilaminina age como um “andaime biológico” no local da lesão. Ao ser aplicada diretamente na medula espinhal, a estrutura tridimensional da molécula fornece suporte físico e químico que favorece o crescimento axonal e a reconexão entre neurônios que perderam contato após o trauma. Essa capacidade de criar um microambiente regenerativo contrasta com tratamentos convencionais, que até então não conseguiam estimular a reconexão nervosa depois de lesões completas.
Além disso, a polilaminina reduz a morte celular e controla processos inflamatórios que dificultam a recuperação natural do tecido nervoso, uma vez que as cicatrizes gliais formadas após o trauma normalmente bloqueiam tentativas de regeneração. Essa combinação de efeitos tornou a molécula objeto de intensa pesquisa e esperança para pacientes com paralisia.
Resultados iniciais e evolução dos testes clínicos
Os primeiros ensaios com polilaminina indicam resultados animadores. Em protocolos experimentais realizados em humanos, pacientes com lesões medulares completas receberam a substância nos primeiros dias após o trauma e apresentaram melhora significativa dos movimentos voluntários e sensibilidade. Testes em animais, como em cães paraplégicos, também mostraram recuperação funcional sem efeitos adversos graves.
Em janeiro de 2026, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou a fase 1 de testes clínicos, voltada à avaliação da segurança da polilaminina em humanos. Essa etapa é fundamental para ampliar as pesquisas, com aplicação cirúrgica intramedular em voluntários selecionados, e representa um passo essencial para transformar os achados iniciais em terapias acessíveis.
Desafios, parcerias e impacto científico
Apesar dos resultados promissores, a trajetória da polilaminina enfrentou desafios significativos. Cortes nos orçamentos das universidades públicas impediram o Brasil de manter a patente internacional da tecnologia, abrindo caminho para que outros países ou empresas explorem comercialmente a descoberta. Ainda assim, a parceria entre a UFRJ, a FAPERJ e o laboratório farmacêutico Cristália tem sido crucial para padronizar e industrializar a molécula.
O impacto científico e social dessa pesquisa já rendeu reconhecimento institucional e trouxe visibilidade à neurociência brasileira. Caso os testes clínicos avancem com sucesso nas próximas fases, a polilaminina poderá redefinir o tratamento de lesões medulares em âmbito global, oferecendo novas possibilidades de recuperação para milhões de pessoas que hoje vivem com sequelas permanentes.

