Um estudo científico analisou as causas e as circunstâncias que levaram às enchentes históricas que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024. A pesquisa aponta que o desastre foi resultado da combinação entre chuvas extremamente intensas e fragilidades ambientais e urbanas acumuladas ao longo de décadas.
Na época, o evento climático afetou cerca de 2,3 milhões de pessoas em 471 municípios gaúchos. Além disso, quase 200 pessoas morreram. As enchentes também produziram imagens que marcaram o país, como o Aeroporto Salgado Filho parcialmente inundado e o resgate do cavalo Caramelo, que permaneceu ilhado sobre um telhado aguardando socorro.
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Agora, pesquisadores identificaram que a tragédia foi potencializada não apenas pelas condições climáticas extremas, mas também por fatores relacionados à ocupação do território e à redução de áreas naturais capazes de absorver grandes volumes de água.
Pesquisa analisa causas da tragédia ambiental
O estudo sobre a enchente no RS foi conduzido por pesquisadores do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) e do Instituto de Ciência e Tecnologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp), no campus de São José dos Campos.
Ao todo, 17 cientistas participaram da pesquisa, publicada antecipadamente na revista científica Journal of South American Earth Sciences.
Segundo os autores, o levantamento analisou fatores naturais e humanos que, ao se combinarem, ampliaram os impactos das chuvas extremas registradas naquele período.
Comparação com a enchente histórica de 1941
Para dimensionar a magnitude do evento, os pesquisadores compararam os dados de 2024 com a grande enchente registrada em 1941, até então considerada a pior tragédia ambiental da história do estado.
Naquela ocasião, cerca de 15 mil residências foram inundadas em Porto Alegre e aproximadamente 70 mil pessoas tiveram que deixar suas casas. A capital gaúcha tinha cerca de 272 mil habitantes naquele período.
Mesmo assim, os dados indicam que a enchente de 2024 superou o evento histórico.
De acordo com Enner Alcântara, pesquisador da Unesp e um dos autores do estudo, o nível da água no lago Guaíba atingiu 535 centímetros no Cais Mauá. O valor superou em 59 centímetros o registrado na cheia de 1941.
Além disso, diferentemente do evento histórico, a inundação recente ocorreu simultaneamente em várias bacias hidrográficas.
“Enquanto a enchente de 1941 foi concentrada na bacia do Jacuí, a de 2024 envolveu simultaneamente as bacias do Jacuí, Taquari e Caí, o que ampliou a área afetada e dificultou uma resposta coordenada”, explicou Alcântara.
Volume de chuva foi excepcional
Os pesquisadores também analisaram os volumes de precipitação registrados na região metropolitana de Porto Alegre.
Em abril de 2024, o acumulado de chuva variou entre 50 milímetros e 250 milímetros. Em alguns locais, as anomalias — quando o volume supera a média histórica — chegaram a 200 milímetros.
Em maio, os volumes foram ainda maiores. A precipitação acumulada ficou entre 200 milímetros e 400 milímetros, com desvios que alcançaram até 450 milímetros acima da média histórica.
No limite norte da região metropolitana, alguns pontos registraram mais de 500 milímetros de chuva apenas no mês de maio.
Urbanização e perda de vegetação ampliaram impactos
A pesquisa também analisou mudanças no uso e ocupação do solo nas últimas décadas. Os dados mostram que diversas cidades da região metropolitana perderam áreas de vegetação natural entre 1985 e 2020.
Em alguns municípios, a redução de áreas florestais chegou a 85 quilômetros quadrados. Entre as cidades com perdas mais significativas estão Arroio dos Ratos, Eldorado do Sul, Montenegro, São Jerônimo e Triunfo.
Além disso, áreas naturais não florestais, como campos, restingas e zonas alagáveis, também sofreram redução expressiva ao longo do período analisado.
Enquanto isso, as áreas impermeáveis cresceram com o avanço da urbanização. Municípios como Alvorada, Canoas, Gravataí, Novo Hamburgo, São Leopoldo e Viamão registraram aumento dessas superfícies.
Porto Alegre lidera o ranking regional de substituição de solos naturais por áreas asfaltadas. Segundo os pesquisadores, mais de 14 quilômetros quadrados de superfícies impermeáveis surgiram ao longo do período analisado.
Áreas de risco estão ocupadas
O estudo também utilizou modelos hidrodinâmicos para simular o comportamento das inundações.
A análise mostrou que quase 18% da região metropolitana de Porto Alegre está localizada em áreas classificadas como de risco extremo para enchentes. Muitas dessas regiões são densamente povoadas.
Para os pesquisadores, essa combinação entre eventos climáticos extremos e vulnerabilidades urbanas ampliou significativamente os impactos do desastre.
“Um dos pontos que mais chamou nossa atenção foi justamente a conjunção entre extremos climáticos e fragilidades locais”, afirmou Alcântara.
Segundo ele, fatores como crescimento urbano desordenado, redução de áreas naturais e ocupação de regiões de baixa altitude contribuíram para agravar a tragédia.
Eventos extremos podem se tornar mais frequentes
O estudo também aponta que eventos climáticos extremos podem se tornar mais frequentes nas próximas décadas.
De acordo com o climatologista José Marengo, pesquisador do Cemaden e coautor da pesquisa, análises climáticas indicam aumento na intensidade de chuvas fortes em diferentes regiões do Brasil.
As projeções apontam que esse cenário pode se intensificar principalmente na região Sudeste ao longo do século.
Segundo Marengo, o impacto dessas tempestades depende diretamente das condições das áreas afetadas.
“Tempestades em si não são uma tragédia. O problema ocorre quando a chuva intensa atinge regiões onde as populações estão vulneráveis”, afirmou.
Diante desse cenário, os pesquisadores defendem a adoção de estratégias de adaptação. Entre elas estão o planejamento urbano baseado em mapas de risco, a recuperação de áreas naturais que ajudam a absorver a água e a modernização dos sistemas de drenagem e alerta.

