Gastar o 13º salário logo após receber não significa falta de controle; entenda o que explica esse comportamento

Gastar o 13º salário nos primeiros dias pode estar ligado à forma como o cérebro interpreta o dinheiro extra. Psicologia explica

Receber o décimo terceiro salário costuma trazer uma sensação de alívio e a possibilidade de realizar planos adiados durante o ano. Para algumas pessoas, porém, o dinheiro desaparece rapidamente, sendo utilizado em compras, presentes, passeios e outras despesas logo nos primeiros dias.

Esse comportamento nem sempre significa falta de responsabilidade ou ausência de controle financeiro. Pesquisas em psicologia econômica indicam que as pessoas podem atribuir significados diferentes ao dinheiro dependendo de sua origem. Assim, uma quantia recebida além do salário habitual pode parecer mais disponível para gastar, mesmo quando deveria ajudar a pagar contas ou reforçar a reserva financeira.

LEIA TAMBÉM:

Um dos conceitos que ajudam a explicar esse fenômeno é a chamada contabilidade mental, mecanismo pelo qual as pessoas organizam o dinheiro em categorias psicológicas, como salário, economia, bônus e dinheiro para lazer.

Por que o 13º salário parece dinheiro extra?

Do ponto de vista financeiro, o décimo terceiro faz parte da remuneração anual do trabalhador. Na prática, entretanto, muitas pessoas não o percebem da mesma maneira que o salário mensal.

O pagamento separado cria a sensação de que surgiu um recurso novo, destinado a recompensas ou compras especiais. Essa interpretação pode tornar mais fácil gastar o valor com algo desejado, em vez de direcioná-lo a compromissos financeiros de longo prazo.

O mesmo fenômeno pode acontecer com restituições de impostos, bônus profissionais, presentes em dinheiro e prêmios inesperados.

Uma análise publicada em 2025 na revista científica Frontiers in Psychology, que reuniu resultados de 36 estudos sobre o chamado efeito do dinheiro inesperado, identificou uma tendência geral de maior disposição para gastar ou assumir riscos quando os recursos são percebidos como ganhos extras. Os pesquisadores também destacaram que o efeito varia bastante conforme o contexto e não se manifesta da mesma forma em todas as situações.

Isso significa que a psicologia ajuda a compreender o comportamento, mas não permite concluir que todas as pessoas que gastam rapidamente o décimo terceiro seguem o mesmo padrão.

O que é contabilidade mental?

A contabilidade mental ocorre quando alguém separa o dinheiro em diferentes categorias, mesmo que todos os valores tenham o mesmo poder de compra.

Uma pessoa pode considerar o salário mensal como dinheiro destinado a despesas obrigatórias, enquanto enxerga o décimo terceiro como uma oportunidade para comprar algo especial. Embora essa divisão possa facilitar a organização do orçamento, também pode levar a decisões pouco vantajosas.

Imagine alguém que recebe R$ 2.000 de salário e utiliza esse valor para pagar aluguel, alimentação e contas domésticas. Ao receber mais R$ 2.000 de décimo terceiro, essa pessoa pode sentir que o segundo valor está livre para compras, apesar de ainda ter dívidas ou despesas futuras.

O dinheiro, economicamente, tem o mesmo valor. O que muda é a maneira como ele é interpretado.

Gastar o dinheiro rapidamente significa ser descontrolado?

Não necessariamente. Uma compra feita logo após o recebimento de um valor extra, isoladamente, não permite avaliar a saúde financeira de alguém.

É importante considerar se a pessoa consegue pagar suas despesas essenciais, se possui dívidas em atraso, se planeja os gastos e se consegue guardar dinheiro para necessidades futuras.

Também existe uma diferença entre realizar uma compra planejada e gastar por impulso. Comprar algo que estava previsto no orçamento pode ser uma decisão consciente, mesmo que aconteça no primeiro dia após o pagamento.

O problema aparece quando o consumo compromete despesas essenciais, leva ao uso recorrente de crédito caro ou impede a formação de uma reserva para imprevistos.

Como evitar que o décimo terceiro desapareça em poucos dias?

Uma maneira prática de reduzir as compras impulsivas é decidir antecipadamente o destino do dinheiro. Em vez de esperar o pagamento chegar para definir o que fazer, o trabalhador pode organizar uma divisão de acordo com sua realidade financeira.

Algumas prioridades possíveis são:

  • Quitar dívidas caras: especialmente aquelas com juros elevados, como rotativo do cartão de crédito e cheque especial.
  • Reservar dinheiro para despesas próximas: impostos, material escolar, seguros e contas previstas para o início do ano.
  • Formar uma reserva de emergência: caso ainda não exista uma quantia guardada para imprevistos.
  • Separar uma parte para lazer: desde que os gastos não comprometam as necessidades essenciais e os compromissos financeiros.

Não existe uma porcentagem única que funcione para todos. Quem está endividado pode precisar destinar uma parcela maior ao pagamento das dívidas, enquanto alguém com as contas organizadas pode ter mais liberdade para poupar ou consumir.

Uma estratégia simples para controlar os gastos

Antes de utilizar o décimo terceiro, vale anotar as dívidas, as despesas previstas e os objetivos financeiros para os próximos meses.

Depois, separar o dinheiro conforme essas prioridades ajuda a reduzir a sensação de que todo o valor está disponível para compras imediatas. Deixar a quantia destinada às contas em uma conta separada também pode facilitar o controle.

Outra medida é esperar um ou dois dias antes de fazer compras não planejadas de maior valor. Esse intervalo permite comparar preços, avaliar a necessidade do produto e evitar decisões motivadas apenas pela empolgação de receber o pagamento.

O objetivo não é impedir qualquer recompensa pessoal. É permitir que o dinheiro extra seja utilizado de maneira consciente, sem comprometer a tranquilidade financeira dos meses seguintes.

O décimo terceiro pode ser uma oportunidade de reorganizar as finanças

O pagamento adicional de fim de ano pode ajudar tanto a resolver pendências quanto a realizar planos pessoais. O resultado depende menos da rapidez com que o dinheiro é gasto e mais das consequências dessa decisão para o orçamento.

Compreender como a mente classifica os recursos financeiros pode ajudar a identificar hábitos e fazer escolhas mais conscientes. Em vez de tratar o décimo terceiro automaticamente como um prêmio para consumo, o trabalhador pode enxergá-lo como parte de sua remuneração anual e decidir como utilizá-lo de acordo com suas necessidades.

Vinicius Ficher
Vinicius Ficher
Redator, escrevediariamente sobre economia, serviços e cotidiano de cidades.
MATÉRIAS RELACIONADAS

MAIS LIDAS