Passar alguns minutos rolando o feed parece uma maneira inofensiva de distrair a cabeça depois de um término amoroso, de um conflito no trabalho ou de um dia difícil. Mas o que começa como uma tentativa de aliviar a tristeza pode se transformar em um ciclo de conteúdos que reforçam o sofrimento emocional.
Uma análise conduzida por pesquisadores da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA) investigou como os algoritmos das redes sociais reagem ao comportamento dos usuários e identificou um cenário preocupante: interações aparentemente pequenas podem influenciar as recomendações e ampliar a exposição a publicações relacionadas à vulnerabilidade emocional.
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O problema é que a plataforma não precisa necessariamente saber o que está acontecendo na vida de alguém. O tempo que a pessoa passa assistindo a um vídeo, por exemplo, já pode funcionar como um sinal de interesse.
Como o algoritmo pode alimentar a tristeza
Imagine alguém que acabou de terminar um relacionamento e abre o TikTok em busca de distração. No feed, aparece um vídeo com conselhos sobre como lidar com o fim de uma relação. A pessoa assiste até o final e, pouco depois, recebe outro conteúdo sobre erros que levam ao término.
Em seguida, surge uma publicação sobre como recuperar o ex-parceiro. Mesmo que não tenha pesquisado diretamente por esses assuntos, o usuário pode continuar recebendo vídeos semelhantes porque seu comportamento indicou interesse naquele tipo de material.
A sequência pode alimentar dúvidas, arrependimentos e pensamentos repetitivos. Em vez de ajudar a pessoa a seguir em frente, o consumo contínuo de publicações sobre o término pode mantê-la presa ao mesmo assunto.
Segundo os pesquisadores, a recomendação de conteúdos pode ser influenciada por poucas interações. A análise citada no estudo aponta que 45% das recomendações diárias avaliadas ocorreram após um nível reduzido de interação.
Isso significa que permanecer assistindo a um conteúdo pode ter consequências para o que aparece depois no feed, mesmo quando o usuário não procura deliberadamente por aquele tema.
O que acontece quando o feed reforça o sofrimento
Um dos fenômenos associados a esse comportamento é a ruminação psicológica: quando alguém permanece pensando repetidamente em uma situação dolorosa, revivendo acontecimentos e buscando explicações sem conseguir avançar.
Renato Gallo, pesquisador e colaborador do Programa Ambulatorial dos Transtornos do Impulso do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP), explica que o estado emocional pode influenciar os conteúdos que a pessoa consome.
Nesse processo, o usuário encontra publicações que parecem confirmar seus sentimentos e continua pensando no problema. A sensação de estar aprendendo ou tentando resolver a situação pode acabar prolongando o sofrimento.
O psicólogo Vagner Rocha também alerta que esse consumo pode criar uma falsa impressão de autoconhecimento ou de resolução emocional. A pessoa acredita estar encontrando respostas, mas pode continuar presa à tristeza.
O efeito não se limita a relacionamentos amorosos. Conteúdos sobre ansiedade, autoestima, conflitos pessoais e saúde mental também podem se multiplicar no feed a partir dos sinais deixados durante a navegação.
Estudo identificou exposição a vídeos potencialmente nocivos
A análise da UCLA examinou mais de 8 mil vídeos do TikTok e avaliou a exposição de contas a conteúdos considerados potencialmente prejudiciais.
De acordo com os números apresentados no estudo, menos de 29% das contas engajadas continuavam sem exposição a esse tipo de material até o décimo vídeo exibido. Ao chegar ao quadragésimo vídeo da sessão, entre 98,5% e 100% das contas analisadas já haviam recebido pelo menos um vídeo com potencial de dano.
Entre os conteúdos identificados estavam publicações de positividade tóxica, autodiagnósticos sem base científica, desinformação sobre tratamentos e materiais explícitos relacionados a suicídio e automutilação.
Os pesquisadores também apontaram uma dificuldade importante: o sistema de recomendação não distingue adequadamente quem procura apoio de quem está expressando desespero. Mesmo quando aparecem vídeos de acolhimento e orientação, publicações potencialmente nocivas podem surgir na mesma sequência.
Os resultados indicam um risco associado à forma como as recomendações são organizadas. Eles não significam, porém, que toda pessoa triste terá piora emocional ao usar redes sociais ou que o algoritmo, isoladamente, seja responsável por um quadro psicológico.
Conteúdos sobre saúde mental também podem desinformar
O consumo de vídeos que apresentam diagnósticos sem respaldo científico pode levar alguém a interpretar experiências comuns como sinais de um transtorno ou a buscar tratamentos inadequados.
Rodrigo Menezes Machado, psiquiatra e coordenador do Grupo de Dependências Tecnológicas do Instituto de Psiquiatria da USP, alerta que esse tipo de publicação pode gerar preocupações desnecessárias e afastar usuários de intervenções apropriadas.
Outro risco citado pelo especialista é o chamado efeito Werther, também conhecido como efeito contágio. O termo descreve a possibilidade de que a exposição a determinadas representações ou relatos de suicídio influencie pessoas vulneráveis.
Por isso, conteúdos sobre sofrimento emocional exigem responsabilidade, especialmente quando abordam temas delicados sem contexto, orientação profissional ou informações confiáveis.
Por que é tão difícil sair desse ciclo
As redes sociais são desenvolvidas para manter a atenção dos usuários. Quanto mais tempo alguém permanece na plataforma, mais oportunidades o sistema tem de apresentar novos conteúdos e coletar sinais sobre os interesses daquela pessoa.
Gallo explica que esse funcionamento pode contribuir para o aumento do tempo de tela sem que o usuário perceba. Para a plataforma, o objetivo central é manter a pessoa no ambiente digital, independentemente de seu estado emocional.
A estimulação do sistema de recompensa do cérebro também ajuda a explicar por que é tão fácil continuar rolando o feed. Novidades e estímulos frequentes podem incentivar a repetição do comportamento, mesmo quando a experiência já não parece tão prazerosa.
Com o tempo, o uso prolongado pode estar associado a ansiedade, cansaço e sensação de esgotamento. A pessoa termina o dia depois de horas diante da tela e percebe que está com menos disposição para outras atividades.
Como evitar que as redes sociais piorem um momento difícil
Não é necessário abandonar completamente as redes sociais para adotar hábitos mais saudáveis. Especialistas recomendam prestar atenção ao efeito que os conteúdos provocam e reconhecer quando a navegação deixa de ser uma distração e passa a alimentar pensamentos dolorosos.
O psicólogo Vagner Rocha destaca a importância de olhar criticamente para as publicações. Vídeos curtos não conseguem representar toda a complexidade de uma situação pessoal, e conselhos que parecem fazer sentido para uma pessoa podem não servir para outra.
Algumas medidas podem ajudar:
- Interrompa o ciclo: se perceber que os vídeos estão aumentando sua tristeza ou ansiedade, feche o aplicativo por um tempo.
- Reduza o tempo de tela: estabeleça limites diários ou programe bloqueios de aplicativos em determinados horários.
- Crie barreiras ao acesso automático: ferramentas que exigem uma etapa adicional antes de abrir a rede podem ajudar a interromper o impulso.
- Busque atividades fora da internet: exercícios físicos, mesmo leves, e encontros com amigos podem oferecer outras formas de lidar com momentos difíceis.
- Tenha cuidado com diagnósticos nas redes: vídeos não substituem avaliação profissional, e informações sobre saúde mental precisam ser verificadas.
O principal é perceber como o uso afeta o próprio bem-estar. Se o feed aumenta a angústia, reforça pensamentos negativos ou dificulta a retomada da rotina, fazer uma pausa pode ser uma maneira de recuperar o controle.
Como resume Machado, vale questionar se o tempo gasto nas redes sociais realmente oferece conforto ou se o hábito está se tornando difícil de controlar.

