Mário Sérgio Cortella, filósofo brasileiro: “Faça o teu melhor na condição que você tem, enquanto você não tem condições melhores para fazer melhor ainda”, a reflexão que fala com quem sente que poderia estar fazendo mais

Mário Sérgio Cortella propõe fazer o melhor com as condições disponíveis enquanto não chegam recursos melhores. Entenda a reflexão.

Tem dias em que parece impossível entregar o melhor porque faltam tempo, dinheiro, estrutura, experiência ou até confiança. É justamente nesse tipo de situação que uma reflexão de Mário Sérgio Cortella ganha força: “Faça o teu melhor na condição que você tem, enquanto você não tem condições melhores para fazer melhor ainda”.

A ideia não trata de aceitar limitações para sempre nem de fingir que as condições são ideais. O ponto está em não transformar a falta de recursos em uma justificativa permanente para permanecer parado.

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A frase atribuída ao filósofo, escritor e educador brasileiro coloca a atenção sobre aquilo que está disponível no presente. Em vez de esperar que todas as circunstâncias mudem primeiro, a proposta é agir dentro das possibilidades existentes e continuar aprimorando o que pode ser feito.

Por que esperar as condições perfeitas pode impedir uma mudança?

A busca pelo momento ideal parece prudente, mas pode acabar adiando indefinidamente aquilo que poderia começar agora.

Quem acredita que só poderá fazer um bom trabalho depois de conseguir mais recursos, mais tempo ou melhores oportunidades corre o risco de transformar essas condições futuras em um requisito para qualquer iniciativa.

A reflexão de Mário Sérgio Cortella aponta para outra direção. O melhor não precisa ser comparado com aquilo que seria possível em um cenário completamente diferente. Ele precisa ser avaliado considerando a condição real que existe naquele momento.

Isso não significa trabalhar sem limites ou ignorar problemas estruturais. Significa distinguir entre aquilo que está fora do controle e aquilo que ainda pode ser feito.

O que a autoeficácia de Bandura tem a ver com essa ideia?

A psicologia oferece um conceito que ajuda a contextualizar essa discussão: a autoeficácia.

O psicólogo Albert Bandura apresentou o conceito em seu artigo de 1977, publicado na Psychological Review. O trabalho trata das crenças que as pessoas têm sobre sua própria capacidade de executar determinados comportamentos e alcançar resultados.

A autoeficácia não é simplesmente pensar positivamente. Ela está relacionada à percepção de que alguém é capaz de realizar uma determinada tarefa.

Essa distinção é importante porque a reflexão de Cortella pode ser colocada ao lado desse conceito sem que um seja apresentado como prova científica do outro.

De um lado, Cortella propõe uma atitude diante das limitações presentes. De outro, Bandura oferece uma estrutura psicológica para compreender como as crenças sobre a própria capacidade se relacionam com comportamento, esforço e persistência.

O que acontece quando alguém começa mesmo sem ter tudo?

Começar permite transformar uma situação abstrata em uma experiência concreta.

Uma pessoa que acredita não saber realizar determinada tarefa pode adquirir informação, testar uma estratégia, cometer erros e descobrir o que precisa melhorar. Cada uma dessas experiências produz conhecimento sobre a própria capacidade.

A literatura posterior sobre autoeficácia também trata das chamadas experiências de domínio, isto é, experiências em que a própria pessoa realiza uma tarefa e passa a ter uma referência concreta sobre sua capacidade.

É nesse ponto que a reflexão fica especialmente interessante.

Fazer o melhor possível nas condições atuais não significa considerar o resultado definitivo. Uma entrega pode ser boa para o momento e, ao mesmo tempo, servir de base para uma entrega melhor no futuro.

Como aplicar a reflexão de Cortella no trabalho?

A ideia pode sair do campo das frases motivacionais e chegar a situações bastante comuns da vida profissional.

Imagine alguém que recebeu uma tarefa sem ter todos os recursos que gostaria. Pode faltar experiência, equipamento, tempo ou conhecimento. Antes de simplesmente concluir que não é possível fazer nada, a pessoa pode identificar quais recursos já estão disponíveis e qual é a melhor utilização deles.

Algumas perguntas ajudam nesse processo:

  1. O que eu tenho disponível agora?
  2. O que realmente impede a realização da tarefa?
  3. O que está sob meu controle?
  4. Qual é a melhor entrega que consigo fazer nas condições atuais?
  5. O que aprendi que pode melhorar a próxima tentativa?

Essa lógica evita duas armadilhas opostas: a cobrança por uma perfeição impossível e a acomodação diante das limitações.

Fazer o melhor significa aceitar qualquer condição?

Não.

Essa talvez seja uma das principais diferenças entre fazer o melhor possível e simplesmente se conformar.

A frase de Mário Sérgio Cortella não precisa ser interpretada como um convite para aceitar estruturas inadequadas indefinidamente. Fazer o melhor com aquilo que existe hoje pode justamente ajudar a identificar o que precisa mudar amanhã.

Se faltam ferramentas, por exemplo, utilizar corretamente os recursos disponíveis não elimina a necessidade de buscar ferramentas melhores. Se falta conhecimento, estudar o que está ao alcance não significa abandonar a busca por formação mais completa.

O “enquanto” presente na reflexão é importante porque indica uma condição temporária: fazer o melhor agora enquanto não existem condições melhores para fazer melhor ainda. A formulação aparece atribuída a Cortella em diferentes registros da frase.

E onde entra a influência de Paulo Freire?

A trajetória intelectual de Mário Sérgio Cortella também ajuda a entender por que educação e transformação aparecem com tanta frequência em suas reflexões.

Cortella realizou seu doutorado em Educação na PUC-SP sob orientação de Paulo Freire, referência central da educação brasileira. A relação com o pensamento freireano faz parte da trajetória acadêmica do filósofo e continua aparecendo em sua produção e em suas referências públicas. O próprio site de Cortella mantém diversos conteúdos relacionados à obra e ao legado de Freire.

Nesse contexto, conhecimento não precisa ser entendido apenas como acúmulo de informação. Ele também pode funcionar como instrumento para compreender a realidade e atuar sobre ela.

A reflexão sobre fazer o melhor dentro das condições disponíveis conversa com essa perspectiva porque coloca a ação no presente sem transformar o presente em destino permanente.

Por que essa mensagem fala tanto com quem sente que nunca faz o suficiente?

Existe uma diferença entre querer melhorar e acreditar que nada vale a pena enquanto não for perfeito.

A primeira postura permite evolução. A segunda pode produzir paralisia.

A frase de Cortella se tornou popular justamente porque aborda uma situação reconhecível: pessoas que possuem objetivos, mas acreditam que ainda não têm as condições necessárias para começar.

Nesse cenário, fazer o melhor não significa fazer tudo. Significa identificar o que é possível, realizar aquilo com responsabilidade e utilizar a experiência para avançar.

É uma mudança pequena de perspectiva, mas que altera a pergunta.

Em vez de “por que ainda não consigo fazer como gostaria?”, pode surgir outra: “o que consigo fazer bem com aquilo que tenho hoje?”

O melhor de hoje pode ser diferente do melhor de amanhã

O ponto mais interessante da reflexão de Mário Sérgio Cortella está justamente na ideia de continuidade.

O melhor que alguém consegue entregar hoje não precisa ser igual ao melhor que conseguirá entregar depois de adquirir mais experiência, conhecimento ou recursos.

As condições mudam. As pessoas aprendem. As ferramentas melhoram. A capacidade também pode se desenvolver.

Por isso, fazer o melhor possível no presente não precisa significar encerrar a busca por algo melhor. Pelo contrário: a experiência adquirida agora pode servir de base para uma atuação diferente no futuro.

A mensagem, portanto, não é sobre se contentar com pouco.

É sobre não deixar que a ausência das condições ideais impeça aquilo que já pode ser feito.

E talvez seja justamente aí que a reflexão de Cortella encontre sua força: o cenário perfeito pode nunca chegar, mas ainda assim existe algo que pode ser feito hoje, e esse primeiro passo pode ser o começo das condições melhores que ainda não existem.

Guilherme Galhardo
Guilherme Galhardo
Redator, apaixonado pela cultura POP, luta-livre, games, séries e filmes, escreve sobre economia, serviços e cotidiano de cidades. Entusiasta de meteorologia e punk rocker nas horas vagas.
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