O que sobra do churrasco agora pode parar no tanque de caminhões e virar combustível

O sebo bovino deixou de ser apenas um resíduo da indústria de carnes e passou a ser utilizado na produção de biodiesel para abastecer veículos pesados.

O sebo bovino, um dos resíduos gerados pela indústria de carnes, está ganhando uma função que pode surpreender muitos brasileiros: virar combustível para veículos pesados.

A matéria prima está sendo utilizada na produção de biodiesel e já abastece caminhões em operações reais no Brasil. Uma das experiências já acumulou mais de 500 mil quilômetros rodados com veículos abastecidos exclusivamente com B100, o biodiesel puro.

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Como o sebo bovino vira combustível

O processo faz parte de uma estratégia para aproveitar resíduos da cadeia produtiva de alimentos na produção de energia.

Além do sebo bovino, a matéria prima utilizada também pode incluir óleo de cozinha usado e outros materiais orgânicos. Esses produtos passam por controle de qualidade antes de entrarem no processo industrial.

No caso do óleo usado, são verificadas características como umidade e presença de impurezas. Depois, o material é preparado para seguir para a etapa de processamento.

Uma das fases principais é a transesterificação, processo em que ocorre a separação do glicerol e a formação do biodiesel. O combustível passa ainda por etapas de purificação e filtragem antes de chegar aos tanques de armazenamento.

Caminhões já rodam com biodiesel puro

A tecnologia não está apenas em fase experimental.

Caminhões extrapesados das marcas DAF e Volkswagen já percorreram mais de 500 mil quilômetros utilizando B100 em operações da JBS.

O abastecimento acontece em Lins, no interior de São Paulo, onde a empresa mantém um ponto próprio homologado pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis.

A estrutura possui duas bombas e capacidade para armazenar até 46 mil litros de combustível.

Produção de biodiesel deve crescer

A utilização de resíduos para produzir combustível ocorre em meio à expansão do mercado brasileiro de biodiesel.

A Biopower, subsidiária da JBS responsável pela produção, recebeu mais de R$ 140 milhões em investimentos no ano passado para modernizar e ampliar usinas localizadas em Lins, Mafra, em Santa Catarina, e Campo Verde, em Mato Grosso.

A expectativa da empresa é encerrar 2026 com capacidade para produzir 650 milhões de litros de biodiesel.

B100 é diferente do biodiesel misturado ao diesel

No abastecimento convencional, o biodiesel produzido no Brasil é utilizado principalmente na mistura obrigatória com o diesel de petróleo.

O B100, por outro lado, possui concentração de 100% de biodiesel. Para utilizá-lo, é necessário que o veículo esteja preparado e autorizado para esse tipo de combustível.

A experiência com caminhões pesados permite avaliar o comportamento do combustível em operações que exigem longas distâncias e grande volume de abastecimento.

Brasil ainda pode ampliar produção

O mercado possui espaço para crescer. O país produziu aproximadamente 9 bilhões de litros de biodiesel no último ano, enquanto a capacidade instalada das fábricas é estimada em cerca de 16 bilhões de litros anuais.

A diferença entre a capacidade disponível e o volume produzido mostra que existe margem para aumentar a produção utilizando estruturas industriais já existentes.

A expansão também ocorre em um cenário de incentivo aos biocombustíveis. A Lei do Combustível do Futuro prevê condições para ampliar a participação do biodiesel na matriz energética brasileira, com possibilidade de a mistura com o diesel convencional chegar a 25% até 2030.

O que antes poderia ser visto apenas como resíduo da indústria de carnes, portanto, começa a ganhar espaço em uma cadeia que vai muito além do churrasco: pode sair do frigorífico, passar pela indústria e terminar abastecendo caminhões nas estradas brasileiras.

Vinicius Ficher
Vinicius Ficher
Redator, escrevediariamente sobre economia, serviços e cotidiano de cidades.
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