Sempre chegar atrasado pode parecer apenas uma questão de falta de organização, mas a psicologia aponta que a relação com o tempo pode ser mais complexa.
Um dos fenômenos estudados é a chamada falácia do planejamento, que ocorre quando uma pessoa prevê que conseguirá terminar uma tarefa mais rapidamente do que realmente consegue.
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Pesquisas de Roger Buehler, Dale Griffin e Michael Ross mostraram que as pessoas podem fazer previsões excessivamente otimistas sobre o próprio tempo de execução, concentrando-se no cenário planejado e dando menos peso às experiências anteriores.
Na prática, isso pode fazer alguém pensar: “Dá tempo de fazer isso antes de sair”.
O problema aparece quando aquela tarefa leva mais alguns minutos do que o esperado.
O erro pode estar em esquecer pequenas etapas
Muitas vezes, o cálculo considera apenas a parte principal do compromisso.
Se uma pessoa precisa estar em determinado local às 15h e sabe que o trajeto leva 20 minutos, pode imaginar que sair às 14h40 será suficiente.
Mas esse cálculo pode ignorar várias etapas:
• guardar o que estava fazendo;
• procurar carteira, chaves ou documentos;
• trocar de roupa;
• esperar o elevador;
• caminhar até o carro ou transporte;
• encontrar uma vaga;
• caminhar até o local do compromisso;
• fazer cadastro ou passar pela recepção.
Cada etapa parece pequena isoladamente. Somadas, porém, elas podem fazer uma diferença considerável.
Ser otimista demais com o tempo pode contribuir para o atraso
A falácia do planejamento não significa necessariamente que uma pessoa seja otimista em todos os aspectos da vida.
O conceito se refere especificamente à tendência de subestimar quanto tempo uma determinada atividade vai levar.
Estudos sobre o fenômeno mostram que, ao fazer uma previsão, as pessoas podem se concentrar no plano ideal para aquela tarefa e deixar experiências anteriores em segundo plano.
É como calcular um trajeto pensando no melhor cenário possível: trânsito livre, nenhuma parada e tudo acontecendo exatamente como planejado.
Se esse cenário não acontece, o horário começa a escapar.
E quando a pessoa tenta terminar tudo antes de sair?
Existe ainda outra situação bastante comum.
A pessoa sabe que precisa sair, mas decide responder uma última mensagem, terminar uma tarefa, guardar alguma coisa ou resolver um pequeno problema antes de deixar a atividade.
O raciocínio costuma ser simples: “É rapidinho”.
Quando percebe, alguns minutos foram embora.
Nesse caso, o problema não está necessariamente no cálculo inicial do deslocamento. O horário reservado para sair é que acabou sendo ocupado por uma nova atividade.
Isso também não significa, por si só, que a pessoa seja “controladora”. Um comportamento isolado ou mesmo frequente não é suficiente para determinar um traço de personalidade.
Por que experiências anteriores nem sempre ajudam?
Um dos pontos interessantes da pesquisa sobre a falácia do planejamento é justamente esse.
Mesmo depois de experiências anteriores mostrarem que determinada tarefa costuma demorar mais, a pessoa pode continuar fazendo previsões baseadas no cenário que gostaria que acontecesse.
Por exemplo, alguém pode saber que normalmente precisa de 40 minutos para se arrumar e sair de casa, mas continuar acreditando que, naquele dia, conseguirá fazer tudo em 25.
A previsão acaba sendo baseada no plano ideal, e não necessariamente no histórico real.
Pesquisas indicam que fazer a pessoa relacionar experiências passadas à nova previsão pode reduzir esse tipo de viés.
Como parar de chegar atrasado?
Uma das maneiras mais práticas de melhorar a pontualidade é descobrir onde o cálculo costuma falhar.
Durante alguns dias, vale registrar três horários: quando começou a se preparar, quando saiu e quando chegou ao destino.
Isso permite descobrir se o problema está no tempo de preparação, no deslocamento ou nas tarefas feitas antes de sair.
Também ajuda:
• considerar o tempo real que o percurso costuma levar;
• incluir preparação e deslocamento até a entrada do local;
• estabelecer um horário limite para interromper a atividade anterior;
• evitar começar novas tarefas quando já estiver no período de preparação;
• deixar uma margem para trânsito, espera e imprevistos;
• evitar marcar compromissos muito próximos quando existe deslocamento entre eles.
Chegar atrasado não define a personalidade de ninguém
Sempre chegar atrasado pode ter diferentes explicações, e não é possível identificar a personalidade de alguém apenas por esse comportamento.
Excesso de compromissos, transporte imprevisível, responsabilidades familiares, dificuldades de planejamento e estimativas equivocadas de tempo podem estar envolvidos.
Por isso, mais importante do que colocar um rótulo é identificar em qual etapa o atraso começa.
Se o problema está na estimativa, o planejamento pode ser ajustado. Se aparece na hora de interromper uma atividade, estabelecer um horário rígido para parar pode ajudar.
E quando o atraso for inevitável, avisar com antecedência também faz diferença. Afinal, pontualidade não envolve apenas administrar o próprio tempo, mas também respeitar o horário de quem está esperando.

