Uma articulação que reúne rivais históricos do futebol brasileiro colocou Inter, Grêmio e Corinthians no mesmo movimento: os clubes defendem a criação de uma linha de crédito de até R$ 20 bilhões para ajudar as equipes a reorganizar suas dívidas.
A proposta vem sendo discutida com o governo federal e deve avançar em uma reunião marcada para a próxima terça-feira (29), em Brasília, com representantes dos clubes e integrantes dos ministérios do Esporte e da Fazenda, entre outras pastas.
LEIA TAMBÉM:
- Supermercado recebe carga refrigerada durante a madrugada, funcionários descobrem pela manhã que caminhão chegou acima da temperatura prevista e centenas de produtos acabam descartados
- INSS terá nova exigência para aposentados e pensionistas; veja quando a CIN passa a ser necessária
- Casas Bahia vende televisões, geladeiras e máquinas de lavar a partir de R$ 160, com descontos de até 82%
O projeto prevê que os recursos sejam utilizados para substituir dívidas mais caras por financiamentos com prazos maiores e juros menores. A ideia, portanto, não seria perdoar os débitos dos clubes, mas criar condições diferentes para que eles consigam pagá-los.
E o número envolvido chama atenção: até R$ 20 bilhões.
Uma união que atravessa a rivalidade
A articulação é liderada por Internacional e Corinthians e conta com a adesão do Grêmio.
A discussão não começou agora. Segundo as informações apuradas por Zero Hora, dirigentes já vinham conversando sobre um programa de reestruturação financeira desde 2025. Em agosto deste ano, 25 presidentes de clubes das Séries A e B apresentaram a proposta ao ministro do Esporte, Paulo Henrique Cordeiro.
Agora, depois das recentes mudanças envolvendo as casas de apostas esportivas, o assunto ganhou ainda mais força.
A ideia que está sendo discutida prevê uma linha de crédito federal que poderia chegar a R$ 20 bilhões para clubes e SAFs. O modelo ainda não foi formalizado definitivamente.
De onde viria o dinheiro?
Uma das possibilidades discutidas é que o financiamento seja disponibilizado por meio do BNDES, enquanto a Caixa Econômica Federal também aparece entre as alternativas mencionadas pelos clubes.
O formato em negociação prevê condições diferentes das encontradas normalmente no mercado bancário, com juros menores e prazo mais longo.
Segundo as informações mais recentes sobre o plano, os pagamentos poderiam se estender por até 20 anos, com período de carência antes do início da quitação.
A proposta não seria um perdão de dívidas.
Na prática, o clube pegaria um novo financiamento para substituir compromissos financeiros mais caros ou de prazo mais curto.
Dinheiro não poderia ser usado para qualquer coisa
Outro ponto importante é a destinação dos recursos.
A proposta em discussão estabelece que o dinheiro deverá ser utilizado para determinadas obrigações financeiras, e não para bancar despesas do dia a dia dos clubes.
Entre os destinos discutidos estão dívidas trabalhistas, direitos de imagem, débitos tributários e previdenciários, empréstimos bancários e outras obrigações financeiras. Também há previsão de utilização em determinadas obras de infraestrutura.
O dinheiro não seria destinado, por exemplo, ao pagamento de despesas correntes, contratação de jogadores ou distribuição de lucros e dividendos por SAFs.
E se o clube não pagar?
A proposta também prevê mecanismos de controle.
De acordo com o desenho apresentado pelos clubes, a CBF teria participação no acompanhamento do programa, com punições esportivas para quem descumprir as regras de pagamento.
Entre as possibilidades mencionadas estão perda de pontos e até rebaixamento em caso de inadimplência.
O modelo discutido também prevê que o uso irregular dos recursos ou o atraso das parcelas possa provocar o vencimento antecipado da dívida e a exclusão do programa.
A lógica é criar uma linha de financiamento com condições melhores, mas acompanhada de mecanismos para evitar que os clubes simplesmente acumulem uma nova dívida sem cumprir os pagamentos.
Por que os clubes querem uma linha de crédito desse tamanho?
A situação financeira dos clubes ajuda a explicar o tamanho da proposta.
Segundo os balanços citados na reportagem de Zero Hora, as dívidas dos clubes das Séries A e B chegaram a R$ 17 bilhões em 2025. O valor ainda pode aumentar quando forem considerados os balanços de 2026 e os passivos das equipes das Séries C e D.
A ideia defendida pelos dirigentes é trocar dívidas de curto prazo e juros elevados por compromissos mais longos e com menor custo financeiro.
Assim, os clubes teriam mais tempo para organizar o caixa sem necessariamente precisar desembolsar grandes valores de uma só vez.
O que as bets têm a ver com a história?
A discussão sobre a linha de crédito para clubes ganhou força justamente em um momento de grande mudança no mercado de apostas esportivas.
Após a Medida Provisória que restringiu a operação das bets, clubes passaram a enfrentar o risco de perder receitas provenientes de contratos de patrocínio.
Reportagens recentes apontam que 14 dos 20 clubes da Série A tinham marcas de empresas de apostas em espaços de destaque de suas camisas, e o setor representava uma fonte importante de receita comercial para as equipes.
Os clubes argumentam que uma linha de financiamento ajudaria a enfrentar a crise financeira em meio a esse novo cenário.
É importante separar as duas coisas: o programa de renegociação de dívidas já vinha sendo discutido antes da medida envolvendo as bets, embora a mudança tenha acelerado as conversas.
Quando os clubes podem receber o dinheiro?
Por enquanto, não existe uma liberação de R$ 20 bilhões.
O valor é o limite defendido na proposta em negociação. O governo federal e representantes dos clubes ainda discutem o formato do programa e suas regras.
Uma reunião está prevista para esta terça-feira (29), em Brasília, com participação de representantes dos clubes e dos ministérios envolvidos.
Caso o programa seja criado por Medida Provisória, ainda haverá a tramitação necessária no Congresso Nacional para que suas regras sejam mantidas.
Por isso, o cenário ainda pode mudar: o valor final, as condições dos empréstimos, os clubes que poderão participar e as regras de pagamento ainda dependem das negociações.
Inter, Grêmio e Corinthians no mesmo movimento
A imagem de clubes que normalmente estão em lados opostos do futebol brasileiro defendendo uma mesma medida ajuda a explicar a repercussão da proposta.
Inter e Corinthians estão à frente da articulação, enquanto o Grêmio aderiu à iniciativa. A discussão, porém, envolve outros clubes das principais divisões do futebol brasileiro e busca criar um programa de alcance mais amplo.
O que está sobre a mesa, neste momento, não é um perdão das dívidas, mas uma tentativa de criar uma nova forma de financiamento para que os clubes possam reorganizar seus passivos.
E o número que está no centro da negociação é daqueles que chamam atenção: até R$ 20 bilhões.

