Estudo diz que pessoas com olhos claros tem maior risco de desenvolver dependência alcoólica

Estudo encontrou associação entre olhos claros e dependência alcoólica, mas pesquisadores alertam que o resultado não significa que a aparência determine o risco.

Imagine uma conversa entre amigos em que alguém solta uma afirmação curiosa: “Pessoas de olhos azuis têm mais chance de desenvolver dependência alcoólica.”

A frase provavelmente provocaria surpresa. Afinal, o que a cor dos olhos poderia ter a ver com a relação de uma pessoa com o álcool?

Por mais estranha que pareça, essa associação já foi investigada por cientistas. Um estudo publicado em 2015 encontrou uma relação estatística entre olhos claros, especialmente azuis, e dependência alcoólica em uma amostra de americanos de ascendência europeia.

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Mas existe uma diferença importante entre encontrar uma associação e provar que uma característica física provoca determinado problema.

A pesquisa não demonstrou que ter olhos azuis causa dependência alcoólica e também não permite olhar para alguém e prever se essa pessoa desenvolverá um transtorno relacionado ao álcool.

O que o estudo descobriu sobre olhos claros e dependência alcoólica?

O trabalho foi publicado no American Journal of Medical Genetics Part B: Neuropsychiatric Genetics e contou com pesquisadores ligados a instituições como a Universidade de Vermont, a Universidade da Pensilvânia e a Universidade Yale.

Os pesquisadores analisaram uma amostra de 1.263 americanos de ascendência europeia e fizeram ajustes estatísticos considerando fatores como idade, sexo e ancestralidade genética.

O resultado chamou atenção: na comparação entre pessoas de olhos azuis e castanhos, os pesquisadores encontraram uma razão de chances de 1,83 para dependência alcoólica. O resultado apresentou significância estatística.

Isso, porém, não significa que uma pessoa de olhos azuis tenha 83% de chance de desenvolver dependência alcoólica.

A razão de chances é uma medida estatística utilizada para comparar grupos. Ela não pode ser transformada diretamente em uma probabilidade individual sem considerar o risco de base e as características do estudo.

Além disso, os próprios pesquisadores apontaram limitações e destacaram a necessidade de replicar os resultados em outras pesquisas. Eles também afirmaram que não poderiam excluir completamente a possibilidade de diferenças de ancestralidade não captadas pela análise terem contribuído para a associação encontrada.

Ter olhos azuis causa dependência alcoólica?

Não.

Esse é provavelmente o ponto mais importante para interpretar corretamente a descoberta.

O estudo encontrou uma associação entre a cor dos olhos e a dependência alcoólica naquela população analisada. Isso é diferente de demonstrar uma relação de causa e efeito.

Para entender a diferença, imagine que uma pesquisa descubra que pessoas que usam mais protetor solar também passam mais tempo na praia. Seria possível observar as duas características juntas sem concluir que o protetor solar faz alguém querer ir à praia.

No caso dos olhos claros, os pesquisadores levantaram justamente a possibilidade de que a associação pudesse estar relacionada a fatores genéticos compartilhados ou a outras características da população estudada. O trabalho encontrou inclusive relações entre regiões genéticas ligadas à pigmentação dos olhos e genes previamente associados à dependência alcoólica, mas isso não transforma a cor dos olhos em causa do transtorno.

Por isso, olhar no espelho não é uma forma de avaliar o risco de dependência alcoólica.

O que realmente influencia o risco de dependência alcoólica?

A relação de uma pessoa com o álcool é muito mais complexa do que uma característica física.

Segundo o National Institute on Alcohol Abuse and Alcoholism (NIAAA), o risco de desenvolver transtorno por uso de álcool resulta da combinação de fatores genéticos e ambientais. A quantidade, a frequência e a velocidade do consumo também influenciam esse risco.

Histórico familiar de problemas relacionados ao álcool, início precoce do consumo, determinadas condições de saúde mental e experiências traumáticas também podem contribuir para uma maior vulnerabilidade.

A genética tem participação importante, mas não funciona como um destino inevitável. O NIAAA estima que cerca de metade da vulnerabilidade ao transtorno por uso de álcool seja herdada, resultado da atuação conjunta de muitas variantes genéticas, geralmente com efeitos individuais pequenos.

Isso ajuda a colocar o estudo dos olhos claros em perspectiva.

Uma característica relacionada à pigmentação pode ser interessante para pesquisadores que procuram compreender mecanismos biológicos, mas não substitui os fatores que realmente precisam ser avaliados quando existe preocupação com o consumo de álcool.

Quais sinais podem indicar um problema com o álcool?

Em vez de observar a cor dos olhos, existem sinais relacionados ao próprio comportamento que merecem muito mais atenção.

Entre eles estão:

  • beber quantidades maiores ou por mais tempo do que pretendia;
  • tentar diminuir ou controlar o consumo e não conseguir;
  • sentir uma forte vontade de beber;
  • passar muito tempo obtendo, consumindo ou se recuperando dos efeitos do álcool;
  • continuar bebendo apesar de problemas provocados ou agravados pela bebida;
  • abandonar ou reduzir atividades importantes por causa do álcool;
  • ter dificuldades no trabalho, nos estudos ou nos relacionamentos relacionadas ao consumo.

Esses são alguns dos critérios usados para avaliar o transtorno por uso de álcool, que pode apresentar diferentes níveis de gravidade.

Portanto, uma pessoa de olhos castanhos pode desenvolver o transtorno, assim como alguém de olhos azuis pode nunca apresentar problemas relacionados ao álcool.

Existe tratamento para dependência alcoólica?

Sim. E reconhecer o problema não significa que a pessoa esteja sem saída.

O transtorno por uso de álcool é uma condição de saúde que pode ser tratada. Existem diferentes abordagens baseadas em evidências, incluindo tratamentos comportamentais, medicamentos e grupos de apoio. A escolha depende das características e necessidades de cada pessoa.

Outro cuidado importante envolve a interrupção do consumo.

Pessoas que bebem de forma intensa e prolongada podem apresentar síndrome de abstinência potencialmente perigosa se interromperem o álcool de maneira abrupta. Tremores, suor, alterações do sono, ansiedade, náuseas, aumento da frequência cardíaca, convulsões e delirium podem ocorrer em casos de abstinência, sendo necessária avaliação médica para situações de maior risco.

Por isso, quem percebe sinais de perda de controle sobre a bebida pode procurar ajuda profissional em vez de tentar enfrentar sozinho uma possível dependência.

Afinal, pessoas de olhos claros correm mais risco?

O estudo de 2015 encontrou uma associação estatística entre olhos azuis e dependência alcoólica em uma amostra específica de americanos de ascendência europeia.

Isso é uma descoberta científica interessante, mas está longe de significar que a cor dos olhos determine o futuro de alguém.

Os próprios pesquisadores apontaram que o resultado precisava ser replicado e que outras explicações ainda deveriam ser investigadas.

Na prática, a pergunta mais importante não está no espelho.

O que realmente importa é como o álcool participa da vida daquela pessoa, quanto ela bebe, com que frequência, se consegue controlar o consumo e quais consequências a bebida está provocando.

A cor dos olhos pode ter ajudado os pesquisadores a formular uma pergunta curiosa. Mas não é ela que determina se alguém desenvolverá dependência alcoólica.

Guilherme Galhardo
Guilherme Galhardo
Redator, apaixonado pela cultura POP, luta-livre, games, séries e filmes, escreve sobre economia, serviços e cotidiano de cidades. Entusiasta de meteorologia e punk rocker nas horas vagas.
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