É fã demais de famosos? Estudo encontra relação entre fanatismo por influencers e baixa capacidade de raciocínio

Estudo com 1.763 adultos encontrou associação entre adoração excessiva por famosos e desempenho menor em testes de habilidades cognitivas.

Se você acompanha cada detalhe da vida de um famoso, sabe o nome de pessoas da família, não perde uma publicação e passa horas discutindo sobre seu ídolo nas redes sociais, talvez esta pesquisa chame sua atenção.

Um estudo publicado na revista BMC Psychology encontrou uma associação entre níveis mais altos de adoração a famosos e desempenho menor em testes que avaliaram determinadas habilidades cognitivas.

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Mas calma: isso não significa que gostar muito de um famoso deixe alguém menos inteligente.

A pesquisa encontrou uma relação entre os dois fatores, mas não conseguiu determinar se a adoração excessiva prejudica o desempenho cognitivo, se pessoas com determinadas características cognitivas são mais propensas a desenvolver esse tipo de comportamento ou se existe outro fator envolvido.

O que os pesquisadores fizeram?

A pesquisa contou com 1.763 adultos húngaros, com idades entre 18 e 79 anos. Os participantes responderam a um questionário online e realizaram dois testes destinados a avaliar diferentes habilidades cognitivas.

Um deles avaliava conhecimento de vocabulário, relacionado à chamada inteligência cristalizada. O outro, conhecido como Short Digit Symbol Test, avaliava habilidades associadas à inteligência fluida, como raciocínio e identificação de padrões.

Os participantes também responderam à Celebrity Attitude Scale, uma escala criada para medir diferentes níveis de envolvimento com famosos.

Ela vai desde uma relação mais leve, em que a pessoa gosta de conversar sobre seu famoso favorito, até níveis mais intensos, caracterizados por pensamentos frequentes e sentimentos muito fortes em relação à celebridade.

Além disso, os pesquisadores coletaram informações sobre autoestima, renda familiar, riqueza percebida, idade, gênero e escolaridade.

O que o estudo descobriu?

Os pesquisadores encontraram uma associação entre maior nível de adoração por famosos e desempenho menor nos testes cognitivos.

Essa relação continuou aparecendo mesmo depois que os pesquisadores levaram em conta fatores demográficos, situação financeira e autoestima.

Mas existe uma informação importante: o poder explicativo dessa associação foi limitado. Ou seja, o fato de alguém apresentar maior adoração por um famoso não permite prever, sozinho, como será seu desempenho cognitivo.

O resultado também não significa que qualquer pessoa que acompanhe celebridades ou seja fã de um artista esteja apresentando algum problema.

Os próprios pesquisadores diferenciam uma admiração mais comum de formas mais intensas de envolvimento. A escala utilizada na pesquisa considera diferentes níveis de comportamento, e o interesse casual por um famoso não é equivalente às formas mais extremas de adoração.

Por que gostar demais de um famoso poderia ter relação com isso?

Os pesquisadores levantam algumas possibilidades, mas não apresentam uma delas como resposta definitiva.

Uma hipótese é que o envolvimento excessivo com a vida de uma celebridade possa consumir atenção e energia mental que poderiam ser direcionadas para outras atividades. Essa possibilidade já havia sido levantada por pesquisas anteriores citadas no estudo.

Outra possibilidade é justamente o caminho contrário.

Pessoas com determinadas habilidades cognitivas podem ser menos propensas a se envolver intensamente com celebridades porque conseguem identificar com mais facilidade estratégias de marketing e outros mecanismos usados para estimular o interesse do público.

O problema é que o estudo analisou os participantes em um determinado momento. Por isso, ele consegue mostrar uma associação, mas não estabelecer sozinho qual fator vem primeiro.

Então ser fã de famoso significa ter menor capacidade cognitiva?

Não.

Essa é provavelmente a principal conclusão que precisa ser preservada para não interpretar a pesquisa de maneira exagerada.

O estudo não diz que uma pessoa que gosta de música, acompanha novelas, torce por um artista ou segue a vida de uma celebridade possui menor inteligência.

A pesquisa encontrou uma associação entre maior intensidade de adoração por famosos e desempenho menor em determinados testes cognitivos.

Além disso, os autores destacam que pesquisas anteriores sobre o tema chegaram a resultados mistos: algumas encontraram relações semelhantes, enquanto outras não encontraram associação.

Portanto, não dá para pegar o resultado e transformar a frase em uma regra do tipo “quanto mais fã, menos inteligente”.

E por que esse estudo chama tanta atenção?

Porque a relação entre fãs e celebridades é muito mais complexa do que simplesmente acompanhar o trabalho de alguém.

A própria pesquisa explica que a chamada celebrity worship pode envolver diferentes níveis de comportamento. Em uma forma mais leve, existe apenas o interesse social pelo famoso. Em níveis mais intensos, aparecem pensamentos compulsivos e um envolvimento muito maior com a vida da celebridade.

Por isso, acompanhar uma cantora favorita, saber tudo sobre uma novela ou ficar animado com o lançamento de um filme está muito longe, por si só, de demonstrar o tipo de comportamento analisado no estudo.

O resultado mais interessante da pesquisa está justamente nessa diferença: não é simplesmente gostar de famosos, mas o grau de envolvimento com eles que foi relacionado aos resultados dos testes.

E ainda existe uma pergunta sem resposta definitiva: essa relação acontece porque o excesso de atenção aos famosos interfere no funcionamento cognitivo ou porque determinadas características cognitivas tornam algumas pessoas mais suscetíveis a esse tipo de envolvimento?

Com os dados disponíveis, os pesquisadores encontraram uma associação, mas a causa ainda não está definida.

Guilherme Galhardo
Guilherme Galhardo
Redator, apaixonado pela cultura POP, luta-livre, games, séries e filmes, escreve sobre economia, serviços e cotidiano de cidades. Entusiasta de meteorologia e punk rocker nas horas vagas.
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