A aprovação da proposta que prevê o fim da escala de trabalho 6×1 pelo Senado Federal abriu uma nova etapa do debate sobre a jornada dos brasileiros. No Rio Grande do Sul, a Federação das Indústrias do Estado (Fiergs) manifestou preocupação com os possíveis efeitos da mudança sobre a produção, os custos operacionais e a capacidade das empresas de manter e ampliar postos de trabalho.
A votação ocorreu na quarta-feira, 14 de outubro de 2026, quando a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 221/2019 recebeu 75 votos favoráveis e um contrário em cada um dos dois turnos. O texto prevê a redução gradual da jornada semanal máxima, de 44 para 40 horas, e a garantia de dois dias de descanso remunerado, sem redução salarial.
LEIA TAMBÉM:
- Trensurb fechará mais de 10 estações entre Canoas e Novo Hamburgo; Veja lista
- Cristiano Ronaldo escolhe cidade de apenas 34 mil habitantes para investir R$ 112 milhões em fábrica de água que promete produzir até 600 milhões de litros por ano
- Morador gasta R$ 18 mil para abrir oficina na garagem de casa, mas denúncia dos vizinhos leva prefeitura a investigar o negócio
Embora reconheça a importância de melhorar o bem-estar dos trabalhadores, a Fiergs defende que alterações dessa dimensão sejam acompanhadas de estudos técnicos e diálogo com os setores produtivos.
Por que a Fiergs vê a mudança com preocupação?
A principal preocupação da entidade é o efeito de uma redução da jornada sobre empresas que precisam manter a produção em funcionamento contínuo ou operar em vários turnos.
Na avaliação da federação, se os trabalhadores passarem a cumprir menos horas sem que haja ganhos equivalentes de produtividade, algumas empresas poderão precisar contratar mais funcionários ou reorganizar as equipes para manter o mesmo nível de operação.
Entre os possíveis efeitos apontados estão:
- aumento das despesas com pessoal;
- necessidade de ampliar equipes em determinados setores;
- reorganização de turnos e escalas;
- possíveis reflexos nos preços dos produtos;
- impactos sobre investimentos e competitividade internacional.
Esses pontos representam riscos levantados pela entidade empresarial, e não resultados já confirmados. Os efeitos concretos dependerão da aplicação das novas regras, das características de cada atividade econômica e da capacidade de adaptação das empresas.
O que disse o presidente da Fiergs?
O presidente da federação, Claudio Bier, afirmou que mudanças na legislação trabalhista precisam conciliar a valorização dos profissionais com a preservação da competitividade das empresas.
A entidade defende que a transição seja conduzida com responsabilidade, diálogo e avaliação técnica dos impactos sobre a produtividade, os custos de operação e a geração de empregos.
Representantes da Fiergs estiveram em Brasília para acompanhar a votação e apresentar aos senadores as preocupações da indústria gaúcha. A federação também defende que eventuais ajustes na jornada sejam discutidos por meio de negociações coletivas, levando em conta as diferenças entre setores e regiões.
O que muda com o fim da escala 6×1?
A escala 6×1 é o modelo em que o trabalhador cumpre seis dias de trabalho e tem um dia de descanso. A proposta aprovada pelo Senado prevê a transição para uma jornada com cinco dias de trabalho e dois dias de repouso remunerado por semana, sem corte salarial.
A mudança na jornada máxima semanal está prevista em duas etapas:
- Primeira etapa: 60 dias após a publicação da emenda, o limite semanal passa de 44 para 42 horas.
- Segunda etapa: depois de mais 12 meses, o limite chega a 40 horas semanais.
O texto prevê jornada de até oito horas por dia, dois dias de descanso remunerado — um deles preferencialmente aos domingos — e manutenção dos salários. Também contempla regras específicas para determinadas categorias e condições de negociação coletiva.
A aprovação no Senado, entretanto, não significa que as novas regras já estejam valendo. O início da transição depende da promulgação e publicação da emenda constitucional.
A mudança pode provocar demissões ou aumento de preços?
Esse é um dos pontos de divergência entre representantes empresariais e defensores da redução da jornada.
Na avaliação da Fiergs, empresas que precisarem contratar trabalhadores adicionais ou reorganizar turnos poderão enfrentar aumento de despesas. Dependendo da atividade e da capacidade de absorver esses custos, podem surgir pressões sobre preços, investimentos e decisões de contratação.
Por outro lado, a proposta tem como objetivo ampliar o tempo de descanso e melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores, mantendo os salários. Defensores da medida argumentam que a mudança pode favorecer o convívio familiar e o bem-estar, além de abrir espaço para ganhos de produtividade.
Ainda não é possível afirmar que o fim da escala 6×1 provocará necessariamente demissões ou aumento generalizado de preços. Esses resultados dependerão de fatores como produtividade, demanda, disponibilidade de mão de obra e adaptação de cada setor.
Qual é o próximo passo para o fim da escala 6×1?
Com a aprovação nos dois turnos do Senado, a PEC seguiu para promulgação. A data de publicação da emenda é importante porque dará início à contagem dos prazos previstos para a implementação gradual das novas regras.
Até que a mudança entre em vigor, trabalhadores e empregadores devem observar a legislação atualmente aplicável e acompanhar os comunicados oficiais sobre a transição.
A discussão também deve continuar entre entidades empresariais, sindicatos e representantes dos trabalhadores. Para a indústria gaúcha, o desafio será conciliar melhores condições de trabalho com a continuidade das operações, a competitividade e a manutenção de empregos de qualidade.

