As terras raras estão presentes em tecnologias que fazem parte do cotidiano, de celulares e computadores a carros elétricos, turbinas eólicas e equipamentos militares. Embora muita gente nunca tenha ouvido falar desses minerais, eles se tornaram peças importantes na disputa internacional por tecnologia, energia e segurança econômica.
O Brasil está no centro dessa corrida. O país possui grandes reservas desses elementos químicos e vem atraindo empresas estrangeiras interessadas em explorar depósitos e desenvolver projetos de mineração. Entre os interessados estão grupos dos Estados Unidos, que buscam reduzir sua dependência da China, principal potência mundial no processamento desses materiais.
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O interesse americano não é apenas geológico ou comercial. Quem consegue extrair, separar e transformar as terras raras em componentes industriais ganha espaço em cadeias produtivas estratégicas. Por isso, ter grandes reservas no subsolo é uma vantagem, mas não garante, por si só, o controle da tecnologia nem os maiores ganhos econômicos.
O que são terras raras?
As terras raras são um grupo de 17 elementos químicos: os 15 lantanídeos da tabela periódica, além do escândio e do ítrio. Apesar do nome, eles não são necessariamente raros na natureza.
A denominação está relacionada principalmente à dificuldade de encontrar concentrações economicamente aproveitáveis e de separar esses elementos dos minerais em que aparecem. Como suas propriedades químicas são muito semelhantes, o processamento pode exigir etapas industriais complexas e caras.
Entre os elementos mais importantes para a indústria estão:
- Neodímio: utilizado na fabricação de ímãs permanentes potentes, presentes em motores elétricos e geradores.
- Praseodímio: empregado em ímãs de alto desempenho e em algumas ligas metálicas.
- Disprósio: ajuda a manter o desempenho de determinados ímãs em temperaturas elevadas.
- Térbio: utilizado em materiais magnéticos e em aplicações eletrônicas específicas.
- Lantânio: empregado em catalisadores, vidros especiais e outras aplicações industriais.
- Cério: utilizado, entre outras finalidades, no polimento de vidros e em catalisadores.
- Ítrio: aplicado em materiais cerâmicos, fósforos e tecnologias ópticas.
Nem todos esses elementos têm a mesma importância para cada indústria. O neodímio, o praseodímio, o disprósio e o térbio, por exemplo, são especialmente relevantes para a produção de ímãs permanentes de alto desempenho.
Para que servem as terras raras?
As terras raras são importantes porque suas propriedades magnéticas, ópticas e químicas permitem fabricar componentes que seriam difíceis de substituir por materiais convencionais sem perda de desempenho.
Elas aparecem em diferentes setores da economia.
Carros elétricos: determinados motores utilizam ímãs permanentes feitos com terras raras para combinar potência, eficiência e tamanho reduzido.
Energia eólica: alguns geradores de turbinas utilizam ímãs de alto desempenho que dependem desses elementos.
Celulares e computadores: componentes eletrônicos, alto-falantes, sistemas de vibração e telas podem utilizar terras raras em diferentes aplicações.
Indústria médica: determinados equipamentos de diagnóstico por imagem e tecnologias ópticas utilizam materiais que contêm esses elementos.
Defesa e indústria aeroespacial: sistemas de orientação, sensores, radares, motores e equipamentos de comunicação podem depender de componentes produzidos com terras raras.
Isso não significa que todo aparelho eletrônico ou todo carro elétrico utilize exatamente os mesmos elementos. A composição depende da tecnologia e do fabricante. O ponto central é que as terras raras são fundamentais para diversas aplicações nas quais desempenho, eficiência e miniaturização fazem diferença.
Onde estão as terras raras no Brasil?
O Brasil possui depósitos e ocorrências de terras raras em diferentes regiões. Entre os locais de destaque estão áreas de Minas Gerais, Goiás, Bahia, Amazonas, São Paulo, Rio de Janeiro e Rondônia.
O tipo de depósito varia conforme a formação geológica. Em algumas regiões, os elementos estão associados a rochas específicas; em outras, aparecem em argilas ou em depósitos de minerais pesados. Essa diferença influencia o custo, a complexidade e a viabilidade da extração.
Veja alguns dos principais locais mencionados em levantamentos minerais:
Minas Gerais
Minas Gerais concentra ocorrências importantes em regiões como Araxá, Poços de Caldas e Tapira. Esses depósitos estão associados a formações geológicas que podem concentrar terras raras e outros minerais de interesse industrial.
Poços de Caldas também ganhou destaque por projetos de pesquisa e processamento. Em setembro de 2026, o BNDES aprovou financiamento de R$ 77,5 milhões para apoiar a implantação de um centro de pesquisa e processamento ligado à empresa Viridis. O projeto ainda depende de etapas para avançar até a produção comercial.
Goiás
Goiás é especialmente importante porque abriga a operação de Minaçu, onde está a Serra Verde. A empresa iniciou a produção comercial em 2024 e se tornou a principal referência da mineração comercial de terras raras no Brasil.
A região possui depósitos em argilas iônicas, um tipo de ocorrência no qual os elementos ficam associados às argilas formadas pelo intemperismo das rochas. Em determinadas condições, esse tipo de depósito pode facilitar algumas etapas de extração, embora o processamento continue exigindo tecnologia e controle ambiental.
O estado também abriga projetos de pesquisa e desenvolvimento em municípios como Catalão e Nova Roma. No entanto, é importante distinguir uma área com potencial mineral de uma mina efetivamente em operação: muitas iniciativas ainda estão em fases de pesquisa, licenciamento ou preparação industrial.
Bahia
A Bahia se tornou uma região de destaque na pesquisa de terras raras. Estudos do Serviço Geológico do Brasil identificam ocorrências em diferentes contextos geológicos, incluindo áreas associadas ao Complexo Jequié e ao Complexo Lagoa Real.
O estado também reúne projetos que buscam avançar da pesquisa mineral para o processamento. Um exemplo é o empreendimento Monte Alto-Camaçari, que prevê etapas industriais para produzir concentrados e, posteriormente, óxidos de terras raras. O cronograma e a viabilidade dependem do avanço do projeto.
Amazonas
No Amazonas, uma das referências é Pitinga, região com depósitos associados a granitos e pegmatitos. O local é conhecido pela ocorrência de minerais como a cassiterita, e levantamentos geológicos também registram potencial relacionado às terras raras.
Isso não significa que todos esses depósitos estejam em produção comercial. A exploração depende de estudos, viabilidade econômica, licenciamento e avaliação dos impactos sobre o ambiente.
São Paulo, Rio de Janeiro e Rondônia
Em São Paulo, levantamentos apontam ocorrências em áreas como Jacupiranga e Itapirapuã. No Rio de Janeiro, há registros associados a depósitos de minerais pesados em São Francisco do Itabapoana. Já em Rondônia, a região de Bom Futuro aparece entre as áreas citadas em levantamentos de depósitos associados a outros minerais.
Esses exemplos mostram que o potencial brasileiro não está concentrado em uma única mina. Ao mesmo tempo, as condições geológicas, a quantidade de cada elemento e a possibilidade de processar o material variam de uma região para outra.
Quantas reservas de terras raras o Brasil possui?
O Brasil aparece entre os países com as maiores reservas declaradas de terras raras do mundo.
O Sumário Mineral Brasileiro 2025, da Agência Nacional de Mineração, apresentou uma estimativa de 11,4 milhões de toneladas de terras raras contidas nas reservas brasileiras, com base nos dados considerados para 2024. Já o levantamento Mineral Commodity Summaries 2026, do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), revisou as estimativas e apontou aproximadamente 21 milhões de toneladas para o Brasil. Os números não devem ser tratados como perfeitamente equivalentes, pois refletem bases e revisões diferentes.
Mas há uma diferença essencial entre possuir reservas e produzir em grande escala.
Uma reserva representa material cuja extração é considerada tecnicamente e economicamente viável segundo critérios específicos. Já um recurso mineral pode incluir ocorrências cuja viabilidade ainda precisa ser demonstrada. E mesmo quando existe uma reserva, colocar uma mina em operação pode exigir anos de estudos, investimento, licenciamento e construção.
Por isso, o tamanho das reservas brasileiras não significa que o país já tenha uma indústria de terras raras tão desenvolvida quanto a chinesa.
Por que os Estados Unidos se importam tanto com as terras raras?
O principal motivo é a dependência de uma cadeia produtiva concentrada na China.
A China tem uma posição dominante não apenas na mineração, mas principalmente no processamento e na fabricação de ímãs permanentes. Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), o país respondeu por cerca de 60% da produção mundial minerada de terras raras usadas em ímãs em 2024, aproximadamente 91% da produção refinada desses elementos e 94% da fabricação de ímãs permanentes sinterizados.
Essa concentração cria um risco para países que dependem desses materiais para fabricar veículos, equipamentos eletrônicos, máquinas industriais e sistemas de defesa.
Se o fornecimento for interrompido ou ficar mais caro, empresas americanas podem enfrentar dificuldades para manter a produção. A preocupação aumenta quando restrições comerciais ou tensões diplomáticas afetam o acesso a materiais estratégicos.
Foi o que ficou evidente em 2025, quando controles chineses sobre exportações de determinados elementos e produtos relacionados afetaram o fornecimento internacional e levaram empresas de diferentes países a buscar fontes alternativas.
As terras raras também são importantes para a defesa americana
O interesse dos Estados Unidos não se limita aos carros elétricos e à energia renovável.
Sistemas militares e aeroespaciais podem utilizar ímãs, sensores, motores e componentes que dependem de terras raras. Garantir acesso confiável a esses materiais é, portanto, uma questão de segurança nacional, além de uma preocupação industrial.
A estratégia americana busca ampliar a produção doméstica, desenvolver capacidade de processamento e diversificar os fornecedores internacionais. O objetivo é diminuir o risco de que uma única potência tenha influência decisiva sobre insumos necessários à economia e à defesa.
O que os Estados Unidos querem encontrar no Brasil?
O Brasil chama a atenção por combinar grandes reservas, depósitos com características variadas e oportunidades para desenvolver projetos de mineração e processamento.
A aproximação também já se materializou em negócios. Em 2026, a empresa americana USA Rare Earth concluiu a aquisição da Serra Verde, em Goiás, operação que colocou uma importante fonte brasileira de terras raras dentro de uma estratégia internacional voltada à cadeia de produção de ímãs.
Além disso, empresas de outros países têm investido em projetos brasileiros. Um levantamento publicado em outubro de 2026 identificou ao menos 18 grupos estrangeiros com processos minerários relacionados a terras raras no país, em estágios que vão da pesquisa à preparação de operações industriais.
O interesse não significa que os Estados Unidos sejam os únicos interessados nem que todos os projetos estejam sob controle americano. Empresas australianas e canadenses também têm presença importante no setor brasileiro.
Para os americanos, o Brasil pode ser uma fonte adicional de fornecimento e uma oportunidade de construir cadeias produtivas menos dependentes da China. Para o Brasil, a questão é como aproveitar esse interesse para desenvolver sua própria indústria.
O Brasil pode ganhar mais do que dinheiro com a mineração?
Sim, desde que consiga avançar para além da extração e da venda de produtos pouco processados.
A cadeia produtiva das terras raras possui várias etapas:
- Pesquisa e mineração: identificar depósitos e retirar o material do solo.
- Beneficiamento: concentrar os minerais de interesse.
- Separação química: separar os diferentes elementos e produzir óxidos específicos.
- Refino e metalurgia: transformar os óxidos em metais e ligas.
- Fabricação industrial: produzir ímãs permanentes e componentes utilizados em equipamentos.
Cada etapa exige conhecimentos, instalações e investimentos diferentes. A separação química é particularmente complexa porque os elementos têm propriedades muito semelhantes. A fabricação de ímãs também demanda tecnologia especializada.
Se o Brasil conseguir desenvolver mais dessas etapas em seu próprio território, poderá gerar empregos qualificados, ampliar a pesquisa tecnológica e capturar uma parcela maior do valor econômico dos recursos naturais.
Por outro lado, se a extração ocorrer no país, mas as etapas industriais de maior valor forem realizadas no exterior, parte importante dos benefícios econômicos poderá ficar fora do Brasil.
Esse é um dos pontos centrais do debate sobre a política mineral brasileira: atrair capital estrangeiro sem abrir mão de oportunidades de industrialização, transferência de tecnologia e desenvolvimento local.
Quais são os riscos ambientais da exploração de terras raras?
O potencial econômico não elimina os riscos ambientais e sociais.
A mineração pode exigir grandes volumes de água, movimentação de solo e uso de reagentes químicos. Dependendo da composição do depósito, também pode haver minerais associados a elementos radioativos, o que exige controles específicos para evitar contaminação.
Os impactos variam de acordo com a geologia, a tecnologia utilizada, o tamanho da operação e a qualidade do licenciamento e da fiscalização. Não é correto afirmar que toda mineração de terras raras provoca os mesmos danos, mas também não se deve tratar a atividade como isenta de riscos.
No Brasil, parte das áreas em pesquisa fica próxima de regiões ambientalmente sensíveis ou de territórios de comunidades tradicionais. Reportagens recentes apontaram preocupações com água, desmatamento, resíduos e impactos sobre moradores em projetos de exploração.
O desafio é avaliar cada empreendimento com transparência, exigir medidas de prevenção e monitoramento e garantir que comunidades potencialmente afetadas possam participar das decisões.
Terras raras podem transformar o Brasil em potência industrial?
O Brasil possui uma vantagem geológica importante, mas transformar essa riqueza em poder industrial depende de decisões que vão além da mineração.
Será necessário investir em pesquisa, formação de profissionais, infraestrutura, tecnologia de processamento e fabricação de componentes. Também será importante criar condições para que empresas instalem no país etapas produtivas que gerem mais valor, em vez de limitar a atividade à retirada do minério.
A disputa entre Estados Unidos e China abre oportunidades para países que possam fornecer terras raras de forma confiável. O Brasil está entre eles, mas a concorrência internacional também envolve outros produtores e projetos em desenvolvimento.
No fim, as terras raras representam uma oportunidade econômica e estratégica para o Brasil, mas o tamanho do benefício dependerá de quanto o país conseguir produzir, processar e industrializar por conta própria.
Ter grandes reservas é o começo. Transformar esses recursos em tecnologia, empregos e capacidade industrial é o desafio que vem depois.

