“Sou movido a desafios”: conheça a história do morador de Canoas que é cego, mecânico e apaixonado por carros

Morador de Canoas compartilha rotina em um canal no YouTube

Guilherme Lubian, morador de Canoas, recebeu a reportagem da Agência GBC na oficina mecânica que montou na garagem de casa com a seguinte frase: “sou movido a desafios”. Em uma tarde, ele contou a sua história e sua paixão por carros e também pela organização.

“Sem organização não tem conversa. É um valor básico”, afirma.

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A história de Lubian, como é conhecido, começa na década de 90 em Passo Fundo, no Norte do Rio Grande do Sul.

“Eu comecei a engatinhar e aí meus pais começaram a reparar que eu esbarrava no canto dos móveis ou que, tipo, passava um palhaço colorido na minha frente e eu acompanhava com a cabeça e não com olho, como seria o natural. Aí, eles já entenderam: tem algo de errado”, comenta.

O diagnóstico de retinose pigmentar chegou quando ele tinha 9 anos.

“A minha criação sempre foi uma criação muito normal. Eu nunca fui criado com uma pessoa com deficiência. Isso que mudou a minha vida”, comenta.

Falando na infância, é que Guilherme chega onde começou a paixão por carros.

“Desde pequeno, quando andava na rua, eu analisava muito os carros, tocava nos carros, sentia que formato tinha, aquela coisa toda. Eu sempre tive aquela curiosidade de saber, tipo, dentro de um capô fechado: como é que é, como funciona”, recorda.

Com uma carreira sólida na Análise e Desenvolvimento de Sistemas, a compra do primeiro carro levou Guilherme a dar asas para o sonho de criança e, hoje, ele compartilha a rotina em um canal do YouTube, nas redes sociais e pontua a determinação e qualidade que norteiam o trabalho realizado.

“O cliente que vir aqui vai ter o melhor. A minha proposta não é quantidade, é qualidade. Quem trazer o carro aqui vai vir porque quer serviço bem feito e de qualidade”, ressalta.

Desafios e luta contra o capacitismo motivam morador de Canoas diariamente

“Desistir jamais. Se eu desistir, o capacitismo vence”, com essa afirmação, Lubian destacou os desafios que enfrenta diariamente.

“Mecânica é uma coisa que eu gosto e eu já vinha fazendo isso há muito tempo, mas eu ainda não botava para fora. E aí, existe uma palavra que se chama capacitismo e é uma palavra que eu tenho verdadeiro ódio. Eu pensei assim: eu preciso fazer algo a respeito. Então, eu tenho seguidores de vários lugares do Brasil e também de fora do Brasil. São pessoas que, por meio do meio trabalho, sabendo inclusive da minha deficiência, começam a ter um olhar diferente, além do capacitismo, além de imaginar “como assim o cara não enxerga e faz um motor””, relata.

Lubian destaca que, além de compartilhar o trabalho nas redes sociais como uma forma de combater o capacistimo, ele luta para que as pessoas com deficiência sejam vistas de outra maneira.

“As pessoas tem que olhar para as pessoas com deficiência de forma diferente. As pessoas tem que começar a enxergar as pessoas com deficiência por trás da deficiência. Além de tudo, eu estou mostrando que é possível uma pessoa com deficiência ser empreendedora, porque eu trabalho com diesel leve, e tem muito mecânico que corre de diesel. Eu já fui direto para o mais complicado. Eu trabalho com a linha flex? Trabalho, mas prefiro a linha diesel. É muito mais legal. É muito mais desafiador”.

“O que eu posso dizer para as pessoas que tem algum tipo de deficiência: não vai ser fácil, vai ser pelo menos o dobro mais difícil do que seria para qualquer pessoa sem nenhum tipo de deficiência. Mas, se tu tiver garra, força de vontade e vontade de aprender, fazer e de acontecer, provavelmente, tu vai conseguir. Mas, tu tem que querer muito”, complementa.

Rotina dentro da oficina mecânica

Com a ajuda de um aplicativo de diagnóstico automotivo e com óculos inteligentes, além do apoio da esposa, Lubian pontua como é a rotina dele.

“Não pensa que é sempre sucesso, as vezes da problema. E eu preciso resolver os problemas. A minha esposa é a pessoa que faz as gravações, edições e publicações nas minhas redes sociais. Eu roteirizo, eu faço todo conteúdo e ela filma. Eu vou mostrando para ela o que é importante e, em alguns cenários, eu peço ajuda. Por exemplo, quando vou fazer uma limpeza de arrefecimento, eu faço essa limpeza com o motor em funcionamento. O que acontece: diferente da maior parte dos mecânicos que, vai lá, coloca o produto espera esquentar, desliga o carro, espera esfriar, desconecta a mangueira, drena, fecha a mangueira e abastece de novo, eu não faço assim. Eu faço do jeito mais difícil, porém, do jeito mais eficiente. Eu vou passando aquela água toda no sistema e, enquanto sair uma bolha de espuma da água, eu não paro. Nesse ponto, eu preciso de ajuda dela. Preciso de um olho amigo”, comenta.

O trabalho de Lubian pode ser visto através de um canal no Youtube administrado por ele.

Jaime Zanatta
Jaime Zanatta
Jornalista formado pela Unisinos escreve sobre economia, cotidiano, polícia e o dia a dia das cidades.
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