Um patrimônio de US$ 3,2 milhões, equivalente a aproximadamente R$ 18 milhões, virou motivo de uma disputa judicial entre três irmãs nos Estados Unidos. Depois da morte do pai, aos 95 anos, duas filhas encontraram anotações manuscritas em farsi junto aos documentos da herança e passaram a questionar por que apenas a terceira irmã havia sido escolhida como beneficiária de toda a fortuna.
O caso ganhou um novo capítulo em 28 de outubro de 2026, quando o Tribunal de Apelações de Maryland anulou uma decisão favorável à filha que recebeu o patrimônio. A Justiça determinou que a disputa seja reavaliada porque o júri havia recebido orientações incorretas sobre o nível de provas necessário para julgar a acusação.
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A discussão envolve um fundo patrimonial milionário, documentos assinados em 2019 e suspeitas de que a filha beneficiada teria exercido influência indevida sobre o pai.
Pai deixou US$ 3,2 milhões para apenas uma das filhas
O caso envolve Seyedkazem Amini-Nejad, empresário que passou grande parte da vida no Irã e tinha três filhas residentes nos Estados Unidos.
Em março de 2019, quando estava no país para visitar a família e realizar tratamentos médicos, ele procurou um advogado para organizar seu patrimônio.
Na ocasião, assinou um testamento que destinava seus recursos financeiros, ações, contas bancárias, seguros e outros bens à filha mais velha, Ellahe Amini-Nejad.
Poucos dias depois, também formalizou a criação de um fundo irrevogável chamado S.K. Amini’s Trust of Maryland.
O documento estabelecia Ellahe como única administradora e beneficiária do patrimônio.
Segundo os registros judiciais, o pai transferiu US$ 3.199.794 para o fundo, valor que corresponde a aproximadamente R$ 18 milhões na conversão utilizada nesta reportagem.
As outras duas filhas, Elham e Eman, não foram incluídas como beneficiárias desse patrimônio.
Irmãs encontraram anotações em farsi depois da morte do pai
Seyedkazem morreu em 23 de maio de 2023, aos 95 anos.
Depois do funeral, realizado no Irã, as três irmãs procuraram documentos pessoais do pai e encontraram uma pasta com testamento, contratos do fundo patrimonial, procurações, registros bancários e correspondências.
Entre os papéis havia anotações manuscritas em farsi, idioma oficial do Irã.
Elham afirmou reconhecer a letra da irmã Ellahe em algumas dessas mensagens.
Uma das anotações, anexada ao testamento, mencionava que Ellahe seria responsável pelos assuntos relacionados aos herdeiros.
Outra estava associada a um documento de aceitação da função de administradora do fundo.
As irmãs interpretaram essas mensagens como possíveis indícios de que a beneficiária teria participado da preparação dos documentos e influenciado a forma como o patrimônio foi distribuído.
A suspeita ganhou importância porque, segundo Elham, o pai não tinha domínio suficiente do inglês para compreender sozinho todos os documentos jurídicos assinados nos Estados Unidos.
Filhas acusaram a irmã de influência indevida
Em janeiro de 2024, Elham e Eman entraram com uma ação judicial para contestar os documentos patrimoniais.
As duas alegaram que o pai não teria compreendido adequadamente o conteúdo dos papéis e que a irmã mais velha teria exercido influência indevida sobre suas decisões financeiras.
Também levantaram suspeitas de fraude e de utilização de recursos do fundo em benefício pessoal da beneficiária.
Outro ponto apresentado pelas contestantes envolvia o desejo que, segundo elas, o pai demonstrava de manter a união entre as três filhas.
As irmãs afirmaram que esperavam receber parte da herança e que os documentos encontrados não refletiam a vontade verdadeira do empresário.
Entretanto, essas alegações ainda não foram comprovadas judicialmente.
Advogado afirmou que o idoso estava lúcido ao assinar os documentos
A filha beneficiada apresentou uma versão diferente dos acontecimentos.
O advogado responsável pela elaboração do testamento e do fundo, Kooresh Sobhani, afirmou que conversou diversas vezes com o empresário durante o planejamento patrimonial.
Fluente em inglês e farsi, o profissional declarou que utilizou os dois idiomas nas conversas para garantir que o cliente compreendesse os documentos.
Segundo seu depoimento, Seyedkazem estava lúcido, consciente e demonstrava compreender as decisões que estava tomando.
O advogado também afirmou que o empresário manifestou expressamente a intenção de deixar os bens para a filha mais velha, porque confiava em seu julgamento.
Um médico ouvido no processo também declarou que não tinha preocupações sobre a capacidade mental do idoso no período em que os documentos foram assinados.
Assim, a disputa passou a envolver versões diferentes sobre a vontade do falecido e as circunstâncias em que o patrimônio foi transferido.
Justiça anulou decisão após identificar erro no julgamento
A primeira disputa foi analisada em um julgamento com duração de quatro dias, realizado em abril de 2025.
Na ocasião, o júri reconheceu que Elham e Eman tinham uma expectativa razoável de receber parte da herança, mas concluiu que não havia comprovação suficiente de que Ellahe tivesse interferido intencionalmente nesse direito por meio de uma conduta irregular.
As duas irmãs recorreram.
Em 28 de outubro de 2026, o Tribunal de Apelações de Maryland identificou um erro importante nas orientações fornecidas aos jurados.
O juiz responsável pelo primeiro julgamento havia determinado que as contestantes precisavam apresentar provas claras e convincentes para demonstrar a interferência indevida.
Entretanto, o tribunal superior concluiu que esse tipo de ação exige outro padrão: a preponderância das provas.
Na prática, isso significa que as irmãs precisam demonstrar que sua versão dos acontecimentos é mais provável do que a versão contrária.
A exigência de um padrão mais rigoroso poderia ter prejudicado a análise das acusações e influenciado o resultado do julgamento.
Por esse motivo, a corte anulou a sentença anterior.
Perícia nas anotações em farsi também pode entrar na discussão
Outro ponto importante envolve a tentativa das irmãs de apresentar um especialista em análise de caligrafia.
O profissional havia sido contratado para examinar os documentos manuscritos e verificar se as anotações poderiam ter sido escritas pela filha beneficiada ou pelo próprio empresário.
Entretanto, o juiz de primeira instância impediu seu depoimento porque o relatório técnico não havia sido apresentado dentro do prazo estabelecido pelo processo.
O tribunal de apelação também foi questionado sobre essa decisão, mas não chegou a determinar que a exclusão do especialista foi irregular.
Como a sentença foi anulada por causa do erro no padrão de provas exigido do júri, a corte decidiu não analisar os outros questionamentos naquele momento.
A possibilidade de apresentar novos argumentos e provas ficará a cargo do tribunal responsável pelo próximo julgamento.
Quem ficará com os R$ 18 milhões da herança?
Por enquanto, a disputa continua sem uma definição definitiva.
A decisão de outubro de 2026 não determinou que o patrimônio fosse dividido igualmente entre as três irmãs, nem reconheceu que a filha beneficiada tenha cometido fraude.
O que a Justiça decidiu foi anular o resultado anterior e permitir que o caso seja novamente analisado com os critérios jurídicos corretos.
A principal questão será determinar se o empresário realmente desejava deixar a fortuna exclusivamente para Ellahe ou se houve alguma interferência indevida na preparação dos documentos.
As anotações em farsi, os depoimentos das familiares, as informações bancárias e os documentos elaborados pelo advogado poderão ter importância nessa nova etapa.
Até que exista uma decisão definitiva, o destino do patrimônio de aproximadamente R$ 18 milhões permanece no centro da disputa familiar.

