Imagine dedicar 20 anos da sua vida aos cuidados da mãe, abrir mão de oportunidades profissionais e, como reconhecimento, receber dela um apartamento avaliado em R$ 500 mil. À primeira vista, muita gente acreditaria que o imóvel estaria garantido.
No entanto, foi exatamente o contrário que aconteceu. Após a morte da idosa, os demais herdeiros recorreram à Justiça e conseguiram incluir o apartamento na divisão da herança, mudando completamente o destino do patrimônio.
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O motivo está na chamada lei da colação, uma regra prevista no Código Civil que determina quando um bem doado em vida deve voltar ao inventário para ser dividido entre todos os herdeiros necessários.
O que é a lei da colação?
A lei da colação estabelece que, em regra, toda doação feita de pais para filhos é considerada uma antecipação da herança.
Na prática, isso significa que o imóvel ou qualquer outro patrimônio doado continua sendo levado em consideração quando ocorre a abertura do inventário. O objetivo é preservar a igualdade entre os herdeiros e impedir que um deles receba uma parcela maior sem autorização expressa do doador.
Foi exatamente o que aconteceu no caso apresentado. Mesmo tendo recebido o apartamento ainda durante a vida da mãe, o filho precisou devolver o imóvel ao monte partilhável para que o valor fosse considerado na divisão da herança.
Por que o imóvel voltou para a partilha?
A regra está prevista nos artigos 544 e 2.002 do Código Civil.
Segundo a legislação, quando um descendente recebe um bem em vida, essa doação é presumida como um adiantamento da legítima — parte da herança reservada obrigatoriamente aos herdeiros necessários.
Assim, durante o inventário, o valor do imóvel precisa ser conferido para que todos recebam parcelas equivalentes, salvo se existir uma exceção prevista em lei.
Existe alguma forma de evitar essa regra?
Sim.
O próprio Código Civil permite que o doador faça a chamada dispensa de colação.
Essa intenção precisa constar de forma expressa na escritura pública de doação ou em testamento. Sem essa cláusula, a legislação presume automaticamente que o bem representa apenas uma antecipação da herança.
Mesmo assim, existe um limite. A dispensa só pode alcançar a parte disponível do patrimônio. Caso ultrapasse esse percentual, o excesso poderá ser reduzido para preservar os direitos dos demais herdeiros.
Erros comuns podem gerar conflitos familiares
Especialistas em direito sucessório alertam que muitos conflitos surgem por falta de planejamento.
Entre os erros mais frequentes estão:
- doar um imóvel sem incluir cláusula de dispensa de colação;
- acreditar que um acordo verbal entre familiares possui validade jurídica;
- imaginar que reservar o usufruto resolve a questão da herança;
- deixar o inventário para depois do prazo legal.
Essas situações costumam resultar em disputas judiciais que poderiam ser evitadas com planejamento sucessório adequado.
Planejamento evita problemas futuros
Embora cada caso tenha suas particularidades, especialistas recomendam que famílias que pretendem realizar doações em vida procurem orientação jurídica antes da assinatura dos documentos.
Dessa forma, é possível estruturar a transmissão do patrimônio conforme a legislação vigente e reduzir significativamente o risco de conflitos entre os herdeiros durante o inventário.

