“Os tempos mudaram”: Supermercados estão abrindo menos lojas e o motivo vai muito além da falta de clientes

Supermercados estão reduzindo o ritmo de expansão e fechando unidades. Entenda por que abrir mais lojas deixou de ser tão vantajoso.

Quem costuma passar pelos mesmos supermercados toda semana talvez tenha percebido uma mudança silenciosa acontecendo no varejo brasileiro. Algumas lojas que antes apareciam em praticamente todos os bairros desapareceram, trocaram de bandeira ou deram lugar a formatos menores.

Isso não significa que os brasileiros deixaram de comprar comida.

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Na verdade, o varejo alimentar continua movimentando valores enormes no país. O que mudou foi a conta que as empresas fazem antes de decidir se vale a pena abrir mais uma unidade.

Durante anos, crescer significava colocar novas lojas nas ruas, ocupar espaços estratégicos e aumentar rapidamente a presença de uma rede. Agora, essa estratégia passou a ser analisada com muito mais cuidado.

O motivo envolve juros elevados, custos operacionais, consumidores mais preocupados com preços e uma mudança importante na maneira como as pessoas fazem compras.

Por que os supermercados estão abrindo menos lojas?

A lógica parecia simples: quanto mais unidades uma rede tivesse, maior seria sua presença no mercado e maior poderia ser seu faturamento.

O problema é que cada nova loja também cria uma conta.

Aluguel, funcionários, estoque, energia elétrica, manutenção, logística, tecnologia e despesas administrativas aumentam junto com a expansão. Em um setor de margens apertadas, uma unidade que não vende o suficiente pode consumir recursos em vez de contribuir para o crescimento.

Por isso, diversas redes passaram a priorizar a rentabilidade das lojas que já existem.

Em vez de simplesmente abrir dezenas de novos estabelecimentos, as empresas passaram a avaliar quais unidades realmente entregam retorno, quais formatos funcionam melhor em cada região e onde ainda existe espaço para crescer.

O resultado é uma mudança gradual no mapa dos supermercados brasileiros.

O caso do GPA mostra como essa mudança aconteceu

Um dos exemplos mais conhecidos é o Grupo Pão de Açúcar (GPA), responsável por marcas como Pão de Açúcar, Minuto Pão de Açúcar, Pão de Açúcar Fresh e Extra Mercado.

A companhia chegou a ter cerca de 800 lojas em 2020, mas passou por uma grande transformação nos anos seguintes.

A venda de unidades do Extra Hiper para o Assaí, em 2021, reduziu significativamente a presença física do grupo. A empresa passou então a concentrar esforços em formatos considerados menores e mais adequados à estratégia atual.

Ao final de 2025, o GPA tinha cerca de 700 lojas no país.

A mudança ocorreu em um período de forte pressão financeira.

Em março de 2026, o grupo colocou em prática um plano de recuperação extrajudicial para renegociar aproximadamente R$ 4,5 bilhões em dívidas.

O problema, portanto, não era simplesmente vender ou não vender.

Era manter uma estrutura grande o suficiente para atender os consumidores sem fazer com que os custos de toda essa operação consumissem o resultado.

Abrir uma loja pode aumentar o faturamento e mesmo assim virar um problema

Durante muito tempo, a expansão física foi considerada uma das principais maneiras de ganhar mercado.

Uma nova unidade significava mais clientes, maior volume de compras e maior poder de negociação com fornecedores.

Mas o crescimento também exige uma estrutura maior.

O especialista em varejo Ulysses Reis, da Strong Business School, explica que o varejo físico continua funcionando, mas a expansão precisa estar acompanhada de eficiência.

Segundo ele, uma nova unidade faz mais sentido quando existe conveniência elevada, custo operacional controlado e giro rápido de estoque.

Na prática, isso significa que uma rede não pode olhar apenas para quanto uma loja vende.

É necessário descobrir quanto sobra depois de pagar toda a estrutura necessária para mantê-la funcionando.

Juros altos também mudaram a conta

Outro fator importante apareceu longe das prateleiras.

Durante o período de juros muito baixos, as empresas conseguiam acessar crédito mais barato para financiar expansão, estoques e novas operações.

Em agosto de 2020, a Selic chegou a 2% ao ano.

Depois da reabertura da economia e da pressão inflacionária, os juros começaram a subir novamente. Em julho de 2025, a taxa chegou a 15% ao ano.

Para empresas endividadas, a diferença é enorme.

Uma expansão financiada por empréstimos deixa de ser tão atraente quando o custo do dinheiro aumenta.

O advogado Thomas Felsberg, especializado em reestruturação empresarial, explica que o endividamento elevado pode pressionar a operação justamente quando a empresa mais precisa de recursos para investir.

Uma companhia pode vender mais e, ainda assim, enfrentar dificuldades se os custos e os juros consumirem uma parcela cada vez maior do resultado.

É por isso que abrir novas lojas deixou de ser uma decisão tão automática.

Consumidor mudou (e os supermercados perceberam)

Enquanto as empresas recalculavam os custos, os consumidores também mudaram seus hábitos.

Com o orçamento mais apertado, muitos brasileiros passaram a pesquisar mais antes de comprar, comparar preços e trocar marcas tradicionais por alternativas mais baratas.

Um levantamento da NielsenIQ publicado em junho mostrou que 66% dos consumidores afirmam buscar opções de menor preço.

Além disso, 45% dizem escolher produtos mais baratos independentemente da marca.

O planejamento também ganhou espaço: 80% dos entrevistados afirmaram planejar as compras com antecedência.

Isso muda completamente a importância de uma loja simplesmente estar perto da casa do consumidor.

Se a diferença de preço for grande, muita gente está disposta a mudar de estabelecimento.

As marcas próprias ganharam espaço

A procura por preços menores também ajudou a fortalecer as marcas próprias dos supermercados.

Segundo os dados apresentados na reportagem, 47% dos consumidores brasileiros pretendiam comprar mais produtos desse tipo.

A lógica é simples: em muitos casos, o consumidor consegue encontrar uma alternativa mais barata sem necessariamente abrir mão do produto que precisa levar para casa.

Essa mudança também favoreceu os atacarejos.

Em 2025, o varejo alimentar brasileiro movimentou R$ 1,145 trilhão, segundo dados da Associação Brasileira de Supermercados (Abras).

Os atacarejos responderam por 29% das vendas, com R$ 327,7 bilhões.

O modelo ganhou força justamente por oferecer preços mais competitivos, especialmente para compras de maior volume.

O consumidor também começou a comprar de outro jeito

A transformação não aconteceu apenas dentro das lojas.

Aplicativos, marketplaces e serviços de entrega passaram a fazer parte da disputa pelo consumidor.

Em 2025, o marketplace movimentou R$ 7,3 bilhões no varejo alimentar.

Ainda representa uma parcela pequena do setor, mas mostra que o consumidor ganhou novas formas de pesquisar e comprar alimentos e bebidas.

Mercado Livre, Amazon, iFood e outras plataformas passaram a disputar parte desse mercado com os supermercados tradicionais.

Isso não significa que as lojas físicas estejam desaparecendo.

Significa que elas deixaram de ser o único caminho para chegar ao consumidor.

Dia e St Marche também passaram por dificuldades

O movimento não ficou restrito ao GPA.

A rede St Marche entrou com pedido de recuperação judicial para renegociar uma dívida de aproximadamente R$ 574,3 milhões e anunciou a venda da operação para o grupo chileno Cencosud.

A rede Dia também enfrentou uma situação complicada.

Em 2024, entrou em recuperação judicial depois de acumular mais de R$ 1 bilhão em dívidas.

Na época, a empresa anunciou o fechamento de 343 lojas e três centros de distribuição no Brasil.

A estratégia foi concentrar a operação em São Paulo e manter as unidades consideradas mais rentáveis.

O Dia anunciou posteriormente sua saída da recuperação judicial.

Os casos mostram uma tendência que vem ganhando força: em vez de manter uma presença física enorme a qualquer custo, as redes estão escolhendo onde faz sentido permanecer.

Grupo Mateus também desacelerou o ritmo

O Grupo Mateus representa outro exemplo interessante.

A companhia cresceu rapidamente no Nordeste, principalmente com supermercados e atacarejos.

Entre 2017 e 2020, o número de lojas passou de 75 para 159.

Nos últimos anos, porém, o ritmo de expansão diminuiu e a empresa passou a dar mais atenção à eficiência operacional.

No primeiro trimestre de 2026, foram inauguradas quatro lojas, enquanto a companhia encerrou o período com 228 unidades de varejo alimentar.

O desempenho mostra justamente por que as empresas passaram a olhar com mais cuidado para cada nova abertura.

A receita pode crescer, mas isso não significa automaticamente que todas as unidades estejam apresentando o mesmo desempenho.

Então os supermercados vão parar de abrir lojas?

Não.

A mudança não representa o fim das lojas físicas.

O que está ficando para trás é a ideia de que uma rede precisa abrir o maior número possível de unidades para continuar crescendo.

Os formatos menores ganharam importância justamente porque podem exigir menos investimento e atender necessidades específicas do consumidor.

Lojas de proximidade, unidades compactas, atacarejos e modelos integrados a canais digitais passaram a fazer parte dessa nova estratégia.

A própria expansão física também passou a ser muito mais seletiva.

Antes de abrir uma unidade, as redes precisam responder a uma pergunta simples:

Essa loja vai realmente dar dinheiro?

Se a resposta não for clara, o investimento pode acabar sendo adiado.

Mais lojas já não significa necessariamente mais lucro

Essa talvez seja a principal mudança no setor.

Durante anos, a quantidade de lojas funcionou como um dos principais símbolos do tamanho de uma rede.

Agora, o número de unidades importa menos do que a capacidade de cada uma delas gerar resultado.

Uma loja pode vender milhões de reais e ainda ser ruim para a empresa se aluguel, funcionários, logística, estoque, manutenção e juros consumirem praticamente toda a margem.

Por isso, fechar uma unidade pouco rentável pode ser mais interessante do que insistir em mantê-la aberta.

O problema é que até essa decisão custa dinheiro.

Segundo Thomas Felsberg, o fechamento de uma loja envolve despesas trabalhistas e outros compromissos, de modo que o alívio no caixa não aparece necessariamente de imediato.

O futuro dos supermercados pode ser menor (e mais eficiente)

Para os especialistas, o cenário não aponta para o desaparecimento dos supermercados, mas para uma transformação no modelo de expansão.

As grandes redes devem continuar abrindo lojas, porém de maneira mais seletiva.

Formatos menores, estoques mais eficientes, canais digitais, marcas próprias e integração entre loja física e entrega podem ganhar ainda mais espaço.

No fim das contas, a grande mudança é simples de entender.

O varejo deixou de perguntar apenas “onde podemos abrir outra loja?”

Agora precisa descobrir “onde uma nova loja realmente vale a pena?”

E essa diferença ajuda a explicar por que algumas das maiores redes do país estão reduzindo o ritmo de expansão, fechando unidades pouco rentáveis e apostando em formatos diferentes para continuar crescendo.

Nota na íntegra

“O varejo alimentar continua operando em um cenário desafiador. A combinação de juros elevados, pressão sobre o orçamento das famílias e um consumidor cada vez mais criterioso exige das empresas uma gestão disciplinada, eficiência operacional e capacidade de adaptação constante.

Ao mesmo tempo, esse contexto cria oportunidades para as empresas que conseguem compreender rapidamente as mudanças no comportamento do consumidor e responder com uma proposta de valor consistente. Hoje, o cliente está mais racional, pesquisa mais, compara preços e faz escolhas cada vez mais conscientes, buscando equilibrar economia, qualidade e praticidade.

No Dia, esse movimento reforça nosso posicionamento como o Atacadinho de Bairro, oferecendo economia, praticidade e uma experiência de compra próxima da realidade de cada comunidade onde atuamos.

Nosso principal desafio é manter o equilíbrio entre competitividade, eficiência operacional e rentabilidade, sem perder de vista a experiência do cliente. Por isso, seguimos trabalhando na simplificação de processos, no ganho contínuo de produtividade, na gestão rigorosa dos custos e na evolução permanente da nossa operação.”

Guilherme Galhardo
Guilherme Galhardo
Redator, apaixonado pela cultura POP, luta-livre, games, séries e filmes, escreve sobre economia, serviços e cotidiano de cidades. Entusiasta de meteorologia e punk rocker nas horas vagas.
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