O debate sobre o futuro das bets ganhou um capítulo envolvendo diretamente os dois maiores clubes do Rio Grande do Sul. Enquanto o Grêmio aderiu a um manifesto de clubes brasileiros em defesa da manutenção do mercado regulado de apostas, o Internacional ficou fora da mobilização e divulgou uma manifestação própria sobre o assunto.
O documento assinado pelos clubes traz uma frase que rapidamente chamou atenção: “O futebol é quem acaba”. A declaração aparece no encerramento do manifesto, que alerta para possíveis impactos financeiros de mudanças no mercado de apostas.
LEIA TAMBÉM:
- Fort Atacadista compra redes de supermercados para ter mais lojas e funcionários
- Máquina de lavar trava por erro comum e técnico revela o que moradores mais fazem de errado
- Homem aproveita promoção e compra geladeira de R$ 4 mil na Black Friday, loja cancela compra alegando erro de sistema e Justiça obriga que a entrega seja realizada pelo valor da oferta
O Inter, por outro lado, reconheceu os impactos sociais relacionados às apostas, mas também demonstrou preocupação com possíveis efeitos de mudanças sobre o modelo de financiamento do futebol.
Grêmio entra no manifesto sobre as bets
O Grêmio está entre os clubes da Série A que aderiram ao manifesto divulgado na noite de quinta-feira (17). O documento defende a manutenção do mercado regulado e pede o fortalecimento da fiscalização e dos mecanismos de proteção aos apostadores.
Na avaliação apresentada pelos clubes, as empresas de apostas autorizadas se tornaram uma das principais fontes de receita do esporte e seus investimentos também chegam a equipes menores, divisões de acesso e competições com menor exposição comercial.
O manifesto também sustenta que uma mudança brusca nas regras poderia reduzir os investimentos no futebol e afirma que os apostadores poderiam migrar para plataformas clandestinas.
No encerramento, os clubes fazem o alerta que ganhou maior repercussão:
“O TORCEDOR NÃO PODE PAGAR ESSA CONTA.
SE ACABAR COM O MERCADO REGULADO, AS APOSTAS NÃO ACABAM.
O FUTEBOL É QUEM ACABA.”
A frase é uma posição dos clubes signatários, e não uma confirmação de que o futebol brasileiro acabaria caso houvesse mudanças na regulamentação.
E o que está sendo discutido sobre as bets?
A mobilização dos clubes ocorre em meio à possibilidade de uma Medida Provisória alterar as regras do mercado de apostas no Brasil.
Segundo a apuração publicada por GZH e pelo ge, a proposta em discussão teria como alvo os jogos de cassino online. O texto analisado revogaria o inciso II do artigo 3º da Lei nº 14.790/2023, dispositivo que incluiu os jogos virtuais entre as modalidades de apostas de quota fixa.
Isso significa que o debate não deve ser tratado simplesmente como uma decisão já tomada de “acabar com todas as bets”: as informações disponíveis indicam que as apostas esportivas não seriam proibidas pela medida em discussão.
O tema, porém, é relevante para as empresas do setor porque os jogos de cassino online representam uma parcela importante de suas receitas. Para os dirigentes do futebol, uma mudança desse tipo poderia reduzir os investimentos das operadoras no esporte.
Internacional ficou fora e divulgou outra posição
Do lado colorado, o cenário foi diferente.
O Internacional foi um dos cinco clubes da Série A que não participaram da manifestação conjunta divulgada na quinta-feira. Além do Inter, Athletico-PR, Bahia, Coritiba e Remo não aderiram ao documento, segundo GZH.
O clube não apresentou uma defesa da proibição das apostas. Em sua manifestação, o Inter reconheceu a necessidade de enfrentar os impactos sociais relacionados à atividade, mas afirmou estar preocupado com possíveis efeitos de mudanças sobre o financiamento do futebol.
A posição oficial foi:
“O Clube acompanha com atenção as discussões sobre o mercado de apostas no Brasil e reconhece a necessidade de enfrentar os impactos sociais associados à atividade. Ao mesmo tempo, manifesta preocupação com os efeitos de eventuais mudanças sobre o atual modelo de financiamento da indústria do futebol, reafirmando seu compromisso de contribuir para o aprimoramento e o desenvolvimento sustentável do futebol brasileiro.”
A declaração foi divulgada pelo clube em resposta à reportagem da GZH.
Grêmio e Inter adotam caminhos diferentes no debate
Assim, o contraste entre os dois principais clubes gaúchos está principalmente na forma de manifestação.
O Grêmio aderiu ao documento coletivo que defende o mercado regulado e alerta para os possíveis efeitos financeiros de uma mudança brusca. Já o Inter não assinou o manifesto e preferiu apresentar uma nota própria, reconhecendo os impactos sociais das apostas e, ao mesmo tempo, demonstrando preocupação com possíveis consequências para o financiamento do futebol.
O debate ainda está em andamento e pode sofrer alterações conforme o governo avance na proposta. Portanto, o chamado “fim das bets” usado nas discussões públicas não significa, neste momento, que todas as plataformas de apostas esportivas estejam prestes a ser proibidas.
Veja o manifesto na íntegra
O FIM DO FUTEBOL BRASILEIRO
O futebol acompanha com atenção as discussões sobre o mercado de apostas no Brasil e reconhece os desafios que sua expansão traz. Os impactos sociais, especialmente sobre as pessoas mais vulneráveis, exigem atenção permanente do Poder Público, das empresas e de todos os setores envolvidos.
Por isso, é fundamental aprimorar as medidas de proteção, fiscalização, educação e prevenção, para reduzir riscos e garantir um mercado responsável.
O Brasil escolheu enfrentar esse desafio pela regulamentação. A regulamentação estabeleceu regras rígidas para as empresas autorizadas a atuar no país, com regras claras que permitem ao Estado fiscalizar o mercado, responsabilizar quem descumpre a lei e combater a atuação de plataformas clandestinas.
Importante ressaltar que, nos últimos anos, o investimento das empresas de apostas autorizadas tornou-se uma das principais fontes de receita do esporte. Este investimento impulsionou o futebol brasileiro de tal forma a dominar o cenário sul-americano em competições como a CONMEBOL Libertadores e a CONMEBOL Sul-Americana e a colocar clubes brasileiros em posição de protagonismo.
Essa presença não se limita aos maiores clubes. Os recursos também alcançam equipes de menor expressão, divisões de acesso e competições com menor exposição comercial. Para muitas destas agremiações, especialmente aquelas localizadas no interior do país, não existe hoje outro segmento econômico capaz de substituir imediatamente esse investimento.
Essas receitas são fundamentais para manter estruturas administrativas, centros de treinamento, profissionais, projetos sociais e departamentos que não geram recursos suficientes para se sustentar de maneira independente, como parte do futebol feminino e a formação de futuros talentos, os primeiros investimentos ameaçados quando a receita cai de forma abrupta.
Assim, os rumores sobre mudanças abruptas na regulamentação do mercado de apostas têm gerado enorme preocupação em todos os clubes, federações e entidades de administração do esporte. Uma mudança abrupta nas regras reduziria a capacidade de investimento dos clubes e criaria desequilíbrios dentro e fora do país. Contratos regularmente firmados, planejamentos plurianuais e compromissos financeiros foram estabelecidos sob um marco regulatório construído pelo próprio Estado.
Para responder a um mercado que já existia e movimentava ilegalmente bilhões de reais, o país instituiu um ambiente regulado. Empresas foram autorizadas, passaram a recolher impostos e assumiram obrigações relacionadas à proteção do consumidor, ao bloqueio de menores, à prevenção de práticas abusivas e ao combate à lavagem de dinheiro e à manipulação de competições. Foi justamente a regulamentação do mercado que retirou o Brasil da liderança do ranking mundial de casos de manipulação.
Inviabilizar esse modelo não fará com que as apostas deixem de existir. Apenas abrirá o caminho para que os consumidores migrem integralmente para plataformas clandestinas, que não pagam impostos, não respeitam limites, não oferecem instrumentos de proteção e não colaboram com as autoridades.
A consequência não será apenas uma porta escancarada para as apostas clandestinas, mas um golpe fatal para o futebol brasileiro, levando muitos clubes à insolvência. Isso, sem falar na insegurança jurídica e profissional que a medida acarretaria, especialmente para contratos regularmente firmados e planejamentos construídos sob o marco regulatório aprovado pelo Congresso Nacional e estabelecido pelo próprio Estado.
O que o futebol entende que deve ser feito, com o máximo rigor, é combater a ilegalidade, fortalecer a fiscalização e aperfeiçoar os mecanismos de proteção, sem colocar em risco um mercado que foi regulamentado pelo próprio Estado.
O futebol se coloca à disposição do Governo Federal, do Congresso Nacional, das Autoridades Estaduais e Municipais para colaborar em mecanismos mais eficientes de educação e conscientização.
O futebol está mobilizado, reconhece suas responsabilidades e quer participar da solução, de uma forma racional e consciente.
O TORCEDOR NÃO PODE PAGAR ESSA CONTA.
SE ACABAR COM O MERCADO REGULADO, AS APOSTAS NÃO ACABAM.
O FUTEBOL É QUEM ACABA.

