Um casal comprou uma casa com um quintal amplo e decidiu aproveitar parte do espaço para construir uma edícula. O problema apareceu quando o projeto avançou e um levantamento topográfico mostrou que parte do terreno utilizado pela família estava, segundo a documentação, dentro dos limites do imóvel vizinho.
Felipe e Marina haviam se orientado pelo muro existente no local para identificar a divisa. No entanto, a medição técnica revelou uma possível diferença entre o limite físico utilizado há anos e aquele registrado oficialmente.
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A descoberta interrompeu os planos da obra e abriu uma discussão que pode envolver matrícula, documentos de compra, posse prolongada e até eventual responsabilidade de quem vendeu o imóvel.
O casal perde automaticamente a parte do terreno?
Não necessariamente.
O levantamento topográfico é uma prova técnica importante, mas precisa ser analisado em conjunto com as matrículas dos imóveis, plantas, memoriais e demais documentos relacionados à propriedade.
Se a faixa questionada estiver oficialmente descrita na matrícula do vizinho, o simples fato de o casal utilizar aquele espaço como quintal não significa que a propriedade tenha sido transferida.
Por isso, a medida mais prudente é interromper a construção da edícula na área discutida até que os limites sejam esclarecidos.
Continuar uma obra depois de identificada a possível invasão de uma propriedade vizinha pode aumentar os prejuízos e tornar uma eventual disputa ainda mais complexa.
Por que o muro antigo não determina sozinho a divisa?
O muro pode indicar como os imóveis foram utilizados fisicamente durante anos, mas não funciona, por si só, como documento de propriedade.
Ele pode ter sido construído alguns centímetros fora do limite original, deslocado ao longo do tempo ou simplesmente mantido em determinada posição por acordo, tolerância ou desconhecimento dos antigos proprietários.
Por isso, é necessário comparar a estrutura existente com a documentação oficial.
A matrícula do imóvel apresenta informações jurídicas sobre a propriedade, enquanto o levantamento topográfico ajuda a identificar como as medidas e estruturas estão posicionadas fisicamente.
Quando os dois não coincidem, é necessário investigar a origem da diferença antes de alterar cercas ou muros.
Quais documentos devem ser analisados?
A primeira providência é obter as certidões atualizadas das duas matrículas. Elas permitem verificar a área registrada, confrontações e histórico dos imóveis.
Também devem ser comparados documentos como:
- escritura e contrato de compra e venda;
- planta do loteamento;
- memorial descritivo;
- cadastro municipal;
- levantamentos topográficos anteriores;
- documentos relacionados às construções existentes.
O cadastro da prefeitura pode ajudar na análise das dimensões e localização, mas não substitui o registro imobiliário.
Se houver erro ou imprecisão na descrição do imóvel, a legislação permite procedimentos de retificação do registro, que podem ocorrer pela via administrativa ou judicial, dependendo da situação.
Em determinados casos, pode ser necessária uma nova planta, memorial elaborado por profissional habilitado e participação dos proprietários dos imóveis confrontantes.
A posse antiga pode fazer o casal ficar com a área?
Existe essa possibilidade em determinadas situações, mas o uso prolongado da faixa não transforma automaticamente o ocupante em proprietário.
A usucapião depende do cumprimento de requisitos específicos, incluindo o período de posse exigido pela modalidade aplicável e características como continuidade e ausência de oposição.
O muro antigo pode servir como uma das provas da ocupação, mas não é suficiente sozinho para comprovar o direito.
Fotografias antigas, documentos, registros de obras e manutenção, depoimentos de moradores e plantas antigas podem ajudar a reconstruir a história da ocupação.
Também é importante verificar se o espaço era utilizado com autorização ou simples tolerância do proprietário vizinho, pois essas circunstâncias podem interferir na análise da posse.
E se o casal comprou o imóvel acreditando que o quintal era maior?
A situação pode envolver também a responsabilidade de quem vendeu a propriedade.
Se o contrato ou a negociação indicava uma área maior do que aquela efetivamente pertencente ao imóvel, os compradores podem discutir medidas como abatimento proporcional do preço, indenização ou até resolução do negócio, dependendo das circunstâncias e dos prazos aplicáveis.
Por isso, é importante preservar toda a documentação relacionada à compra.
Contrato, escritura, anúncio imobiliário, mensagens trocadas com o vendedor, comprovantes de pagamento e levantamentos realizados antes ou depois da aquisição podem ser relevantes para determinar como ocorreu o erro.
O vendedor também pode ser formalmente comunicado antes que qualquer acordo definitivo seja feito sobre a área.
O que fazer antes de construir uma edícula?
Antes de iniciar uma obra que fique próxima às divisas, o proprietário deve conferir os documentos do imóvel e verificar se as medidas registradas correspondem à situação encontrada no terreno.
Em imóveis antigos, essa precaução pode ser ainda mais importante, já que muros e cercas podem permanecer na mesma posição durante décadas sem que os proprietários saibam se estão exatamente sobre a linha divisória.
Um levantamento topográfico antes da construção pode identificar possíveis diferenças antes que dinheiro seja investido na obra.
Se houver divergência, o ideal é esclarecer a situação antes de construir.
No caso de Felipe e Marina, a descoberta ocorreu justamente quando o casal pretendia ampliar o imóvel. Agora, antes de transformar o quintal em uma nova área da casa, será necessário descobrir se o espaço realmente pertence ao imóvel comprado ou se a documentação do vizinho prevalece sobre o muro que marcou a divisa durante tantos anos.

