Pais que guardam desenhos da infância dos filhos podem estar preservando muito mais do que uma lembrança

Guardar desenhos da infância dos filhos pode ter relação com memória, nostalgia e identidade dos pais. Entenda por que esses papéis ganham tanto valor emocional.

Existe uma caixa esquecida no fundo do armário que pode ter muito mais valor emocional do que parece. Dentro dela estão boletins antigos, desenhos feitos com giz de cera, trabalhos escolares e outros papéis produzidos pelos filhos durante a infância.

Para quem olha de fora, são apenas lembranças guardadas. Para muitos pais, porém, esses objetos podem funcionar como gatilhos de memórias de uma fase inteira da vida. Estudos sobre nostalgia e memória autobiográfica mostram que objetos associados a experiências significativas podem ajudar a conectar a pessoa com diferentes momentos de sua própria trajetória.

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É por isso que aquele desenho torto, que hoje parece não ter nenhuma utilidade, pode ser tão difícil de jogar fora.

Por que é tão difícil jogar esses papéis fora?

Descartar um boletim antigo ou um desenho feito há décadas parece simples até o momento em que o papel está nas mãos. O motivo é que o objeto deixa de representar apenas aquilo que está desenhado ou escrito nele.

Um trabalho escolar pode fazer alguém lembrar da casa onde morava, da rotina da família, da idade que o filho tinha e até de acontecimentos que estavam acontecendo naquela época.

A pesquisa sobre nostalgia mostra justamente que objetos e outros estímulos concretos podem funcionar como caminhos para memórias autobiográficas, conectando experiências do passado com a percepção que a pessoa tem de si mesma no presente.

O que os desenhos da infância realmente representam?

Um desenho antigo não registra apenas uma etapa da criança. Ele também pode marcar uma fase da família.

Aquele papel pode representar:

  • uma época em que o filho ainda era pequeno;
  • uma rotina familiar que mudou completamente;
  • a casa onde a família morava naquele período;
  • uma conquista ou acontecimento importante;
  • o próprio papel dos pais durante aquela fase.

Pesquisas sobre objetos de infância guardados por pais apontam que conservar essas coisas pode estar relacionado à nostalgia e às mudanças provocadas pelo crescimento dos filhos. Os objetos passam a funcionar como uma espécie de ligação material com uma fase que ficou para trás.

E o que isso tem a ver com a identidade dos pais?

Criar um filho também faz parte da história de quem o cria. Por isso, lembrar da infância de uma criança pode significar, ao mesmo tempo, lembrar de quem os próprios pais eram naquela época.

A psicologia da memória autobiográfica trabalha com a ideia de que as pessoas constroem uma narrativa sobre a própria vida a partir de experiências importantes. A nostalgia, por sua vez, pode reforçar a sensação de continuidade entre quem a pessoa foi e quem ela é atualmente.

Assim, ao encontrar um desenho antigo, um pai ou uma mãe pode não estar simplesmente pensando “meu filho fez isso”. Pode também estar reencontrando uma versão de si mesmo que existia naquele período.

Por que a nostalgia pode ser tão forte?

A nostalgia não precisa ser apenas uma sensação de tristeza pelo tempo que passou. Pesquisas experimentais associam experiências nostálgicas a sentimentos de continuidade pessoal, conexão social, significado e outros efeitos emocionais positivos.

Isso ajuda a explicar por que determinados objetos aparentemente banais ganham um valor enorme com o passar dos anos.

Uma folha amarelada pode não valer nada financeiramente. Mas, se ela conseguir trazer de volta uma lembrança importante, seu valor emocional pode ser muito maior.

Guardar tudo também é necessário?

Não. O significado emocional de um objeto não significa que seja preciso conservar absolutamente todos os papéis produzidos durante a infância.

A própria ideia de preservar memórias pode coexistir com a seleção dos itens mais importantes. Em vez de guardar dezenas de folhas semelhantes, algumas famílias podem escolher desenhos, boletins ou trabalhos que representem momentos especialmente marcantes.

O objetivo não precisa ser transformar um armário em arquivo. Pode ser simplesmente manter alguns objetos capazes de recuperar capítulos importantes da história familiar.

Pequenos papéis podem carregar histórias enormes

Aquela caixa de desenhos e boletins antigos pode parecer apenas um monte de papel guardado. Mas, para quem viveu aquela fase, cada item pode funcionar como uma porta para uma memória específica.

Os desenhos da infância não contam somente a história de quem os produziu. Eles também podem lembrar quem os pais eram, onde a família estava e como era a vida enquanto aquela criança crescia.

No fim, talvez seja justamente por isso que seja tão difícil jogar alguns desses papéis fora: não é necessariamente o desenho que está sendo preservado, mas a lembrança de uma época inteira da vida.

Guilherme Galhardo
Guilherme Galhardo
Redator, apaixonado pela cultura POP, luta-livre, games, séries e filmes, escreve sobre economia, serviços e cotidiano de cidades. Entusiasta de meteorologia e punk rocker nas horas vagas.
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