Imagine abrir uma pesquisa sobre os efeitos do cigarro e encontrar um resultado que parece completamente fora do lugar: fumantes aparecem com menor risco de Parkinson em alguns estudos.
Como um hábito associado a câncer, doenças cardiovasculares e problemas pulmonares poderia estar relacionado a uma doença neurodegenerativa de maneira aparentemente positiva?
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A contradição chama a atenção dos cientistas há anos. Agora, uma nova pesquisa acrescentou uma peça importante a esse quebra-cabeça ao investigar o papel do monóxido de carbono, uma das substâncias presentes na fumaça do cigarro.
Mas calma: isso não significa que fumar faça bem ou que o cigarro possa prevenir o Parkinson.
A descoberta representa uma associação que pode ajudar pesquisadores a entender melhor os mecanismos envolvidos na doença e, futuramente, encontrar formas seguras de reproduzir algum eventual efeito biológico sem expor as pessoas aos inúmeros riscos do tabagismo.
Por que fumantes aparecem com menor risco de Parkinson?
A doença de Parkinson ocorre quando determinadas células nervosas do cérebro, incluindo aquelas responsáveis pela produção de dopamina, sofrem degeneração.
A redução dessa substância afeta circuitos envolvidos no controle dos movimentos e pode provocar sintomas como tremores, rigidez e lentidão. Alterações no sono, humor e funcionamento intestinal também podem aparecer.
É justamente por isso que a relação com o cigarro intriga a ciência.
Um estudo publicado na revista Neurology, em 2020, acompanhou aproximadamente 30 mil médicos britânicos do sexo masculino ao longo de décadas. Os pesquisadores encontraram uma associação entre o hábito de fumar e uma menor mortalidade por Parkinson.
Dependendo da análise realizada, a redução relativa ficou na faixa de 30% a 40%.
Mas existe um detalhe importante: o estudo analisou principalmente mortes atribuídas à doença, e não simplesmente a quantidade de pessoas que desenvolveram Parkinson.
Por isso, dizer que o trabalho comprovou que fumantes têm 30% ou 40% menos chance de desenvolver a doença seria ir além do que os dados permitem.
Uma associação inesperada pode abrir uma pergunta científica, mas não transforma o cigarro em estratégia de prevenção.
O que descobriu o novo estudo com mais de 500 mil pessoas?
Uma nova pesquisa, publicada na JAMA Neurology em 8 de setembro de 2026, analisou dados de 512.701 adultos na China.
O acompanhamento teve duração mediana de 12,1 anos. Nesse período, foram registrados 1.131 casos de Parkinson.
Além de investigar o histórico de tabagismo dos participantes, os pesquisadores também avaliaram a concentração de monóxido de carbono no ar expirado.
Foi aí que surgiu uma das descobertas mais curiosas.
Entre as pessoas que nunca haviam fumado, aquelas que apresentavam níveis de monóxido de carbono expirado iguais ou superiores a três partes por milhão tinham um risco relativo aproximadamente 30% menor de Parkinson em comparação com participantes que apresentavam níveis abaixo desse valor.
O resultado chamou atenção porque pode reforçar a hipótese de que o monóxido de carbono esteja envolvido em algum mecanismo biológico relacionado à doença.
Só que existe uma enorme diferença entre encontrar uma associação e provar que uma substância causa determinado efeito.
O estudo não demonstrou que respirar monóxido de carbono previne Parkinson e muito menos estabeleceu uma quantidade segura ou recomendada de exposição.
Mas o monóxido de carbono não é tóxico?
Sim — e esse é justamente um dos pontos mais importantes da descoberta.
O monóxido de carbono é um gás tóxico, invisível e sem cheiro. Em concentrações elevadas, pode causar intoxicação grave e até levar à morte.
O gás interfere no transporte e no aproveitamento de oxigênio pelo organismo, podendo afetar especialmente órgãos como o cérebro e o coração.
Ao mesmo tempo, o corpo humano produz pequenas quantidades de monóxido de carbono naturalmente durante determinados processos biológicos.
É essa diferença que interessa aos pesquisadores.
Em pequenas quantidades e dentro de determinados processos celulares, a molécula participa de mecanismos de sinalização. Os cientistas querem entender se algum desses mecanismos poderia estar relacionado à proteção dos neurônios envolvidos no Parkinson.
Entre as hipóteses estudadas estão possíveis efeitos sobre inflamação, estresse oxidativo e sobrevivência das células produtoras de dopamina.
Por enquanto, porém, tudo isso permanece no campo das hipóteses que precisam ser investigadas.
E a nicotina? Ela também pode ter relação?
A nicotina é outra substância que aparece frequentemente nas pesquisas sobre a relação entre cigarro e Parkinson.
Isso acontece porque ela atua sobre receptores presentes no sistema nervoso e pode influenciar circuitos relacionados à dopamina.
O problema é que uma associação observada em estudos populacionais não significa automaticamente que administrar nicotina a pacientes produzirá algum benefício.
Um ensaio clínico publicado na NEJM Evidence, em 2023, avaliou justamente essa possibilidade.
Pesquisadores testaram adesivos de nicotina em pessoas que tinham Parkinson em estágio inicial. Depois de um ano, o tratamento não demonstrou retardar a progressão da doença.
O resultado é importante porque mostra como a história é mais complicada do que parece.
Encontrar uma menor ocorrência de uma doença entre pessoas expostas a determinada substância é uma coisa. Usar essa substância para tentar impedir ou tratar a doença é outra completamente diferente.
Então fumar pode prevenir Parkinson?
Não.
Os estudos citados não permitem concluir que fumar seja uma forma de prevenir Parkinson.
Na realidade, os riscos associados ao tabagismo são amplamente conhecidos e incluem diferentes tipos de câncer, doenças cardiovasculares, problemas pulmonares e dependência de nicotina.
O que a ciência está tentando descobrir é por que existe essa associação aparentemente contraditória.
Se pesquisadores conseguirem identificar algum mecanismo biológico que proteja os neurônios responsáveis pela produção de dopamina, talvez seja possível desenvolver tratamentos que reproduzam esse efeito de maneira controlada e segura.
Ou seja: a ideia não é transformar o cigarro em remédio.
É descobrir se existe alguma “pista escondida” no funcionamento do organismo de fumantes que possa ajudar a combater o Parkinson sem reproduzir os danos provocados pelo tabaco.
O que os cientistas ainda precisam descobrir?
Existem várias perguntas em aberto.
Uma delas é descobrir se o possível efeito está relacionado ao monóxido de carbono, à nicotina ou a outra substância presente no cigarro.
Também é necessário entender melhor por que determinados níveis de monóxido de carbono apareceram associados a menor risco em alguns grupos.
Outro ponto importante é que uma medição feita em determinado momento não necessariamente representa a exposição de uma pessoa ao longo de muitos anos.
Fatores ambientais, hábitos individuais e condições de saúde também podem interferir nos níveis registrados.
Por isso, novos estudos serão necessários para determinar se existe realmente um mecanismo de proteção e, principalmente, se ele pode ser reproduzido de forma segura.
A descoberta é curiosa, mas não muda os riscos do cigarro
A aparente contradição entre cigarro e Parkinson é justamente o que torna o assunto interessante para a ciência.
De um lado, o tabagismo está associado a uma série de problemas graves de saúde. De outro, pesquisas realizadas ao longo dos anos encontraram uma relação estatística inesperada com o Parkinson.
A nova investigação sobre o monóxido de carbono oferece mais uma pista para tentar explicar esse fenômeno.
Mas ainda existe uma longa distância entre encontrar uma associação e descobrir um tratamento.
Por enquanto, portanto, não há motivo para alguém começar a fumar, continuar fumando ou buscar exposição ao monóxido de carbono para tentar evitar Parkinson.
O verdadeiro potencial da descoberta está em outro lugar: descobrir se existe algum mecanismo capaz de proteger os neurônios e, no futuro, transformá-lo em uma estratégia médica segura.
O vilão continua sendo vilão para a saúde, mas talvez esconda uma pista que ajude a ciência a entender melhor o Parkinson.

