Após comandar 1.100 lojas e faturar R$ 12 bilhões, fundador da Ricardo Eletro diz “varejo nunca mais” e aposta em novo negócio

Em entrevista à EXAME, Ricardo Nunes explica por que não pretende voltar ao varejo e revela os planos do Grupo R1, sua empresa de educação empresarial.

O empresário Ricardo Nunes, fundador da Ricardo Eletro, construiu uma das maiores redes varejistas do país, que chegou a reunir 1.100 lojas, 45 mil funcionários e faturamento anual de R$ 12 bilhões. Agora, aos 57 anos, ele afirma que não pretende voltar ao setor que marcou sua trajetória e aposta em um negócio voltado à formação de empresários.

“Varejo nunca mais. Mudou muito”, disse Nunes em entrevista concedida à EXAME, na qual relembrou a ascensão da antiga varejista, explicou sua saída da companhia e detalhou os planos para o Grupo R1, empresa de educação empresarial que lidera desde 2022.

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Segundo o empresário, os juros elevados e a concorrência dos marketplaces tornaram mais difícil manter grandes operações de lojas físicas. “Aquele varejo, como eu fiz, não é mais o varejo”, afirmou à revista.

(Foto: Grupo R1/Divulgação)

A mudança de setor, porém, não representa uma aposentadoria. Em vez de comercializar eletrodomésticos, Nunes passou a oferecer treinamentos, mentorias e consultorias para donos de negócios, utilizando a experiência que acumulou durante décadas no comércio.

Nova empresa de Ricardo Nunes projeta crescimento acima de 120%

O Grupo R1 conta com 130 funcionários e reúne, segundo Nunes, 560 empresas ativas em seu principal produto, o Clube R1. A companhia trabalha com educação empresarial e acompanhamento de empreendedores em áreas como gestão, vendas, marketing e finanças.

Em entrevista à EXAME, Nunes afirmou que o negócio registra crescimento anual entre 80% e 100% desde 2021. Para 2027, a projeção apresentada pelo empresário é de expansão superior a 120% em relação à receita estimada para 2026.

Apesar dos percentuais divulgados, o fundador da Ricardo Eletro não informou o faturamento bruto do Grupo R1 à reportagem. Ele argumentou que a empresa ainda é pequena em comparação com a antiga varejista, não possui números auditados e está começando a estruturar esse processo.

“É uma empresa pequena perto do que eu tinha”, afirmou.

A diferença de escala, segundo o relato apresentado à EXAME, não parece desanimá-lo. Nunes diz ter encontrado satisfação em ajudar outros empresários a administrar suas empresas e pretende continuar nessa atividade.

Como Ricardo Nunes saiu da venda de mexericas para uma rede bilionária

A trajetória empresarial de Nunes começou ainda na infância, em Divinópolis, no interior de Minas Gerais. Após a morte do pai, ele passou a vender mexericas na porta de uma faculdade de direito para ajudar a mãe.

Anos depois, começou a viajar de ônibus para São Paulo em busca de mercadorias na Rua 25 de Março. Comprava brinquedos e bichos de pelúcia, voltava para Minas Gerais e revendia os produtos de porta em porta. Segundo o relato feito à EXAME, repetiu essa rotina durante aproximadamente cinco anos.

Em 1989, aos 18 anos, abriu uma loja de apenas 20 metros quadrados. A operação cresceu e deu origem à Ricardo Eletro, marca que levou o nome do fundador e o transformou em garoto-propaganda.

“Eu já era o cara que aparecia na rádio, na TV. Sempre acreditei muito em comunicação e marketing”, contou.

A estratégia comercial combinava publicidade, negociação com fornecedores e preços competitivos. Para enfrentar concorrentes como Casas Bahia e Magazine Luiza, Nunes também investiu na importação de produtos da China.

Ele relatou à EXAME que chegou a vender uma sanduicheira por R$ 39,90, enquanto modelos semelhantes de marcas tradicionais custavam R$ 79 na época. Segundo o empresário, a diferença não dependia apenas de reduzir a margem de lucro, mas também de conseguir comprar mercadorias por valores menores.

Com a expansão, a empresa passou a lidar com milhares de entregas, dezenas de milhares de vendas diárias e equipes espalhadas pelo país.

“Ninguém constrói uma empresa de R$ 12 bilhões só sendo um bom vendedor e bom de marketing. Tive que aprender gestão”, afirmou.

Nunes também atribui parte de seu aprendizado à troca de experiências com outros empresários. Em uma viagem organizada por fornecedores, diz ter recebido orientações de Samuel Klein, fundador das Casas Bahia, sobre controle de estoques e relatórios de gestão.

Em 2010, a Ricardo Eletro se uniu à Insinuante, rede de origem baiana, dando origem à holding Máquina de Vendas. O grupo avançou por meio de aquisições de outras redes regionais e passou a disputar espaço entre os maiores varejistas brasileiros.

Por que o fundador da Ricardo Eletro deixou o varejo

Entre 2014 e 2018, a varejista enfrentou os efeitos da crise econômica brasileira, enquanto concorrentes digitais ganhavam espaço.

A empresa chegou a preparar uma abertura de capital, mas a operação não foi realizada. Sem avançar com o plano de entrar na bolsa, Nunes começou a buscar investidores para o negócio.

As negociações, que inicialmente envolviam a possibilidade de entrada de um novo sócio, terminaram com a venda de sua participação, concluída em 26 de dezembro de 2018.

“Eu não me arrependo. Mas o sofrimento foi muito grande”, disse à EXAME.

O empresário contou que precisou se adaptar à vida fora da administração diária da rede. Por um período, continuou atuando como garoto-propaganda, enquanto a companhia passou a ser conduzida por outros gestores.

A crise financeira da varejista, entretanto, já era um problema antes de sua saída. Em 2018, a empresa acumulava dívidas estimadas em R$ 2,6 bilhões. Em 2020, entrou em recuperação judicial.

Em julho de 2026, a Justiça de São Paulo voltou a decretar a falência de empresas do grupo, que acumulava um passivo informado de aproximadamente R$ 5,3 bilhões.

Nunes afirma que já não tinha participação na companhia quando ocorreram os desdobramentos posteriores à venda e atribui parte das dificuldades à mudança de administração e à pandemia.

A trajetória também foi marcada por controvérsias. Em 2020, o empresário foi preso temporariamente durante uma investigação do Ministério Público de Minas Gerais sobre suspeitas de irregularidades tributárias envolvendo o grupo. Ele foi solto no dia seguinte, após prestar depoimento.

Juros altos e marketplaces estão entre os motivos para não voltar

Ao explicar sua decisão de permanecer fora do varejo, Nunes aponta dificuldades que, em sua avaliação, afetam as grandes operações físicas.

Um dos principais problemas é o custo do crédito. O comércio precisa financiar estoques, compras e vendas parceladas, o que torna o fluxo de caixa especialmente importante.

Segundo o empresário, um varejista pode comprar mercadorias de fornecedores com prazo médio de 70 dias e vender os mesmos produtos em dez parcelas sem juros. Nesse cenário, precisa financiar parte da operação enquanto aguarda o recebimento das vendas.

Quando os juros aumentam ou os fornecedores reduzem os prazos de pagamento, a pressão financeira cresce.

A concorrência dos marketplaces é outro fator mencionado por Nunes. Para ele, as lojas físicas continuarão existindo, mas precisarão desempenhar funções diferentes, com mais atenção à experiência do consumidor e à confiança na marca.

Na avaliação do empresário, o caminho para permanecer competitivo envolve combinar lojas físicas, comércio digital e presença em marketplaces.

Como funciona o Grupo R1, novo negócio do empresário

Depois de deixar a varejista, Nunes começou a compartilhar experiências empresariais nas redes sociais. Atualmente, segundo os dados apresentados na entrevista à EXAME, ele reúne 3 milhões de seguidores no Instagram.

O conteúdo atraiu empreendedores interessados em conhecer suas estratégias de vendas. A partir dessa demanda, o empresário reuniu antigos executivos que haviam trabalhado com ele e desenvolveu o método RGV, sigla para “resultados, gestão e vendas”.

A metodologia é oferecida por meio de treinamentos presenciais e acompanhamento empresarial. A primeira etapa é uma imersão de três dias em São Paulo, que reúne cerca de 300 novos empresários por mês, conforme os números informados por Nunes.

Os participantes têm perfis variados: há desde donos de empresas com faturamento mensal de R$ 100 mil até empresários que comandam negócios com receitas de dezenas de milhões de reais.

Depois da imersão, os interessados podem aderir ao Clube R1, programa de acompanhamento de longo prazo.

A equipe analisa informações das empresas participantes, identifica problemas e elabora planos de ação. O acompanhamento envolve áreas como finanças, recursos humanos, marketing, vendas, logística, tecnologia, questões tributárias e planejamento.

O programa também promove quatro encontros presenciais por ano e viagens internacionais para os integrantes. De acordo com o material da própria empresa, mais de 12 missões já foram realizadas.

Atualmente, o Clube R1 reúne 560 empresas ativas, segundo o fundador. O grupo afirma que os negócios de seus associados somam mais de R$ 5 bilhões em faturamento e que a taxa anual de renovação do clube chega a 94%.

O modelo faz parte de um mercado que reúne empresários conhecidos em cursos, consultorias e comunidades de negócios. Entre os exemplos estão Flávio Augusto, fundador da Wise Up, e a G4 Educação, que oferece treinamentos e programas de relacionamento para empreendedores.

Quais são os planos de Ricardo Nunes para os próximos anos

O Grupo R1 afirma ter alcançado mais de 250 mil pessoas e realizado atividades nos 27 estados brasileiros. Para 2026, a empresa prevê 70 eventos ligados à metodologia Máquina de Vendas, nome que também remete à antiga holding varejista.

Segundo as informações apresentadas à EXAME, a companhia atende negócios de diferentes portes, incluindo empresas com faturamento anual entre R$ 500 mil e R$ 50 milhões.

Nunes diz dedicar todo o seu tempo à operação. Ele também afirma disponibilizar seu número pessoal de WhatsApp aos integrantes do clube e receber ligações frequentes para discutir problemas empresariais.

A rotina intensa, portanto, continua. A diferença está no tipo de trabalho: em vez de administrar estoques de televisores, geladeiras e outros eletrodomésticos, o empresário passou a acompanhar os desafios de outros empreendedores.

A nova aposta mantém Nunes ligado ao universo das vendas, mas em uma atividade diferente daquela que o tornou conhecido. Como afirmou na entrevista à EXAME, o varejo tradicional ficou para trás; agora, seu foco está em compartilhar a experiência acumulada ao longo da carreira.

Guilherme Galhardo
Guilherme Galhardo
Redator, apaixonado pela cultura POP, luta-livre, games, séries e filmes, escreve sobre economia, serviços e cotidiano de cidades. Entusiasta de meteorologia e punk rocker nas horas vagas.
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