Todos os dias, trabalhadores combinam caronas para economizar com combustível e estacionamento. Um motorista que já faria o trajeto até a empresa, por exemplo, pode levar três colegas e dividir com eles as despesas do percurso.
A situação parece simples, mas existe uma diferença importante entre compartilhar os custos de uma viagem e oferecer transporte em troca de pagamento. Quando a atividade é caracterizada como transporte remunerado sem a licença exigida, o condutor pode ser autuado com base no Código de Trânsito Brasileiro (CTB).
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O ponto central é entender se o dinheiro recebido serve para repartir as despesas da carona ou se representa uma remuneração pelo serviço de levar passageiros.
Dividir a gasolina com colegas pode gerar multa?
A divisão dos gastos de uma carona não deve ser confundida automaticamente com uma atividade comercial. Quando o motorista já faria o percurso e os passageiros apenas contribuem para despesas reais, como combustível e pedágio, a situação é diferente daquela em que alguém recebe para transportar pessoas como forma de prestação de serviço.
A análise, porém, depende das circunstâncias concretas. Um pagamento fixo, por si só, não esclarece toda a situação: é importante verificar como o valor foi calculado, qual era o objetivo da viagem e se existe remuneração ou vantagem econômica para o condutor.
O cuidado é ainda mais importante quando o transporte é oferecido regularmente a diferentes passageiros, mediante cobrança. Nesses casos, a fiscalização pode avaliar se a atividade exige autorização específica.
Qual é a multa por transporte remunerado irregular?
O artigo 231, inciso VIII, do Código de Trânsito Brasileiro prevê punição para quem transporta pessoas ou bens mediante remuneração sem o licenciamento necessário, ressalvadas as exceções previstas na legislação.
Após a alteração promovida pela Lei 13.855/2019, a infração passou a ser classificada como gravíssima. A penalidade é multa de R$ 293,47, com sete pontos na Carteira Nacional de Habilitação (CNH), além da remoção do veículo como medida administrativa.
Isso não significa, entretanto, que qualquer motorista que divida a gasolina com um colega cometa automaticamente essa infração. É necessário considerar se a situação configura efetivamente transporte remunerado irregular.
Como saber se a carona é apenas uma divisão de despesas?
Uma maneira de reduzir dúvidas é calcular os gastos reais do percurso e estabelecer uma contribuição proporcional entre os ocupantes, incluindo o motorista.
Imagine que uma viagem de ida e volta ao trabalho custe R$ 60 em combustível e pedágio. Se quatro pessoas utilizarem o carro e decidirem repartir igualmente a despesa, cada uma contribuirá com R$ 15.
Esse exemplo ilustra o compartilhamento de custos, desde que os valores correspondam às despesas reais e não escondam uma remuneração pelo transporte.
A situação é diferente quando o condutor estabelece um preço pela viagem para obter renda, independentemente dos gastos efetivos. Nesse caso, a atividade pode ser enquadrada como transporte remunerado, sujeito às exigências legais aplicáveis.
O que fazer se o motorista receber uma multa?
Se um condutor for autuado enquanto acredita estar apenas dividindo as despesas de uma carona, é importante conferir o enquadramento indicado na notificação e os fatos registrados pela fiscalização.
Mensagens que demonstrem o acordo entre os ocupantes, comprovantes de combustível, recibos de pedágio e registros do trajeto podem ajudar a esclarecer como funcionava a divisão dos custos.
Caso discorde da autuação, o motorista pode apresentar defesa prévia e, conforme a etapa do processo, os recursos administrativos cabíveis, respeitando os prazos informados na notificação. A apresentação de documentos não garante o cancelamento da multa, mas permite que as circunstâncias sejam analisadas.
Projeto de lei discute regras para dividir custos de caronas
A Câmara dos Deputados analisa o Projeto de Lei 659/2021, que propõe alterar o Código Civil para dar maior segurança jurídica ao compartilhamento de despesas em caronas.
A proposta trata da divisão de custos de viagens sem vantagem econômica para o motorista. O texto passou por etapas de análise nas comissões, mas a consulta à tramitação oficial indica que ainda aguardava parecer na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania em 2026.
Enquanto não houver mudança legislativa em vigor, a existência do projeto não altera por si só as regras atuais.
Como evitar problemas ao oferecer carona para o trabalho?
Quem deseja dividir o carro com colegas deve deixar claro que a contribuição tem como finalidade repartir as despesas do trajeto. Manter uma conta transparente dos gastos e evitar cobranças que funcionem como remuneração pelo transporte ajuda a demonstrar a natureza do acordo.
Já quem pretende ganhar dinheiro transportando passageiros precisa verificar as exigências legais e as autorizações aplicáveis à atividade.
A principal diferença está na finalidade do pagamento: dividir despesas reais de uma viagem não é automaticamente o mesmo que cobrar por um serviço de transporte. A caracterização de uma infração depende dos fatos e das regras aplicáveis ao caso.

