Um filho de caminhoneiro conseguiu transformar montanhas de resíduos industriais, que antes representavam um problema ambiental, em uma oportunidade de negócios que ajudou a construir um grupo empresarial com atuação em diferentes regiões do Brasil. A história é a de Manoel Duarte Ferreira, fundador da SulGesso, empresa de Santa Catarina que começou com uma pequena transportadora e se tornou referência no aproveitamento de materiais utilizados pela indústria e pelo agronegócio.
O que chama a atenção nessa trajetória é a maneira como o empresário identificou valor em materiais que outras empresas precisavam destinar adequadamente. Em vez de enxergar os grandes depósitos de resíduos apenas como um problema, Manoel encontrou uma oportunidade para desenvolver produtos e ampliar suas atividades comerciais.
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A empresa está sediada em Imbituba, no Litoral Sul catarinense, e completou 50 anos de história em 2026. Durante esse período, expandiu suas operações, investiu em novas tecnologias e passou a atuar em setores como fertilizantes, produtos agrícolas, logística e serviços industriais.
A trajetória do empresário ganhou reconhecimento em agosto, quando a Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc) realizou uma sessão especial para homenagear o grupo e as pessoas que participaram de sua construção.
Entretanto, a transformação não aconteceu de uma hora para outra. Foi uma decisão tomada no início dos anos 2000 que abriu caminho para uma nova fase da companhia: aproveitar materiais industriais que, até então, eram considerados passivos ambientais.
Filho de caminhoneiro começou com pequena transportadora e construiu grupo de 50 anos
A história de Manoel Duarte Ferreira começou muito antes de sua empresa se tornar conhecida nacionalmente.
O empreendedor cresceu em uma família ligada ao transporte de cargas e decidiu seguir um caminho que, inicialmente, também estava relacionado ao setor.
O que começou como uma pequena transportadora passou por diferentes transformações ao longo das décadas.
Com o crescimento das atividades, a empresa encontrou oportunidades em operações industriais e na comercialização de matérias-primas.
Foi nesse processo que Manoel identificou um mercado que ainda oferecia espaço para novos investimentos: o aproveitamento de subprodutos gerados por grandes indústrias.
A decisão mudou os rumos do negócio.
Em vez de depender exclusivamente do transporte de cargas, o grupo passou a investir no beneficiamento de materiais que poderiam ser utilizados por outros setores produtivos.
A estratégia permitiu ampliar as atividades e construir novas fontes de receita.
Atualmente, Manoel continua como presidente do Grupo SulGesso, enquanto integrantes de sua família participam da administração da companhia.
Como montanhas de lixo industrial se transformaram em produtos de valor?
A principal transformação aconteceu a partir de 2000, quando a SulGesso passou a aproveitar grandes depósitos de subprodutos industriais.
Entre os materiais estavam o fosfogesso e os finos de ferro, relacionados a atividades da Petrobras e da Gaspetro.
Esses materiais eram considerados passivos ambientais e exigiam soluções adequadas de armazenamento e destinação.
O empresário identificou que, com processamento industrial e aplicações tecnicamente viáveis, parte dos produtos poderia ganhar valor econômico.
O fosfogesso, por exemplo, é um subproduto gerado principalmente durante a fabricação de ácido fosfórico.
Por possuir sulfato de cálcio, pode ser utilizado na produção de insumos destinados à agricultura, desde que atenda às exigências técnicas e ambientais.
Já os finos de ferro podem ser aproveitados em outras atividades industriais, incluindo a siderurgia.
A SulGesso desenvolveu operações para beneficiar e comercializar esses materiais, que passaram a integrar diferentes cadeias produtivas.
Assim, o que antes era visto principalmente como um problema de destinação industrial se transformou em matéria-prima para novos negócios.
A experiência ajudou a consolidar a expansão da empresa no mercado nacional.
Empresa criou fertilizante a partir de material antes considerado resíduo
Um dos momentos importantes da história da SulGesso aconteceu em 2012, quando a companhia lançou o SulfaCal.
O produto é um fertilizante mineral granulado desenvolvido à base de sulfato de cálcio, com concentração de cálcio e enxofre.
Esses nutrientes são utilizados pelas plantas em diferentes processos de crescimento e desenvolvimento.
A inovação permitiu à empresa oferecer produtos com maior valor agregado e ampliar a participação no mercado de insumos agrícolas.
O gesso agrícola também pode contribuir para melhorar determinadas condições químicas do solo, dependendo das características da área e da recomendação agronômica.
Entretanto, sua aplicação precisa seguir critérios técnicos e não substitui automaticamente outros fertilizantes ou corretivos.
O desenvolvimento desses produtos representou uma nova etapa da empresa, que deixou de concentrar suas operações apenas na comercialização de matérias-primas.
Com investimentos em tecnologia e processamento industrial, a companhia passou a atender produtores rurais e empresas de diferentes regiões brasileiras.
Negócio ultrapassou fronteiras e chegou até a China
A transformação dos resíduos industriais em produtos comercializáveis também abriu caminho para a entrada da empresa no mercado internacional.
Em 2011, a SulGesso começou a exportar finos de ferro para a indústria siderúrgica chinesa.
A atividade ampliou a movimentação de cargas no Porto de Imbituba e criou novas oportunidades no setor logístico.
De acordo com informações históricas divulgadas pela companhia, o volume acumulado de minério de ferro exportado para a China chegou a aproximadamente 1,1 milhão de toneladas, conforme dados apresentados em 2021.
A operação ajudou a colocar a SulGesso entre as empresas com maior movimentação de cargas no terminal portuário.
O negócio também contribuiu para a geração de empregos relacionados ao transporte, armazenamento e movimentação dos produtos.
A expansão internacional representou uma etapa importante na consolidação do grupo, que passou a atuar em diferentes segmentos da economia. ALESC
Grupo cresceu e passou a reunir diferentes empresas
Ao longo das últimas décadas, a SulGesso deixou de depender exclusivamente de uma atividade comercial.
O grupo passou a reunir diferentes empresas, cada uma voltada a segmentos específicos.
Entre elas está a MaxiSolo Nutrição Vegetal, especializada no desenvolvimento de fertilizantes.
Outra empresa é a SulGesso Agro, que atua na comercialização e distribuição de gesso agrícola, com presença comercial em estados como São Paulo e Minas Gerais.
O grupo também possui a Cavamaxi, voltada à locação de equipamentos, e a Ambimaxi, que fornece produtos destinados a melhorar as condições das instalações utilizadas na criação de animais.
A diversificação permitiu que a companhia ampliasse seus mercados e desenvolvesse novas atividades.
Segundo informações históricas divulgadas pela SulGesso, o grupo já atendeu aproximadamente 5 mil produtores rurais e alcançou centenas de pontos de venda.
A empresa também relata ter gerado milhares de oportunidades de trabalho ao longo de sua trajetória.
Esses indicadores representam resultados históricos informados pela companhia e não necessariamente correspondem ao número atual de funcionários ou clientes.
Filho de caminhoneiro recebe homenagem após construir grupo com 50 anos de história
A trajetória de Manoel Duarte Ferreira ganhou reconhecimento especial em agosto de 2026.
Na ocasião, a Assembleia Legislativa de Santa Catarina realizou uma sessão solene em homenagem aos 50 anos da SulGesso.
A cerimônia reuniu familiares, colaboradores, representantes empresariais e autoridades.
O empresário foi homenageado pela contribuição ao desenvolvimento econômico de Imbituba e pela expansão das atividades industriais do grupo.
Sua esposa e sócia, Célia Mara Rodrigues Ferreira, também recebeu reconhecimento pela participação na construção da empresa.
Durante a solenidade, Manoel se emocionou ao relembrar os desafios enfrentados.
O empresário destacou que o crescimento da SulGesso não aconteceu apenas por suas decisões, mas também pelo trabalho de funcionários, parceiros e familiares.
Ao comentar a trajetória da companhia, afirmou: “Sozinhos podemos muito pouco. Podemos ir mais rápido, mas para ir longe precisamos estar acompanhados.”
Filha do fundador participa da administração e prepara continuidade dos negócios
A história da SulGesso também envolve a participação de diferentes gerações da família.
Isabela Ferreira Rousseau, filha dos fundadores, ocupa a vice-presidência do grupo e integra o processo de sucessão empresarial.
Durante a homenagem na Assembleia Legislativa, ela destacou que a trajetória da companhia foi construída com decisões difíceis e pela participação de muitas pessoas.
A executiva afirmou que o desenvolvimento de uma empresa envolve riscos, oportunidades e a capacidade de continuar mesmo nos momentos mais desafiadores.
Segundo Isabela, preservar a história construída pelos fundadores é uma responsabilidade importante para a nova geração.
O grupo também mantém iniciativas sociais e ambientais em Imbituba.
Entre elas está um projeto de educação ambiental que já envolveu mais de 4 mil estudantes da rede escolar.
Outra iniciativa é a preservação do butiá catarinense, com um viveiro permanente que reúne mais de 3 mil mudas.
As ações foram destacadas durante a homenagem realizada pela Assembleia Legislativa.
Como transformar lixo industrial em dinheiro?
A história da SulGesso chama a atenção porque envolve uma mudança na maneira de enxergar materiais descartados por determinados processos produtivos.
Em vez de considerar os resíduos apenas como algo que precisava ser armazenado ou destinado, a empresa desenvolveu operações para identificar possíveis aplicações comerciais.
Essa estratégia faz parte de um conceito conhecido como economia circular.
A proposta consiste em aproveitar materiais que ainda possuem valor produtivo, reduzindo desperdícios e criando oportunidades para novos negócios.
Entretanto, nem todo resíduo industrial pode ser reutilizado diretamente.
Para que esse aproveitamento seja seguro, é necessário avaliar a composição dos materiais, realizar os tratamentos adequados e cumprir as exigências ambientais e técnicas.
No caso da SulGesso, o aproveitamento do fosfogesso e dos finos de ferro abriu caminho para atividades industriais, comerciais e agrícolas.
A companhia conseguiu utilizar esses materiais para ampliar seu portfólio e construir novas operações.
O modelo também demonstra como inovação e conhecimento técnico podem transformar um passivo industrial em matéria-prima com aplicação econômica.
De pequena transportadora a império nacional: o que explica a transformação?
A história de Manoel Duarte Ferreira é marcada pela capacidade de identificar oportunidades em mercados diferentes daqueles onde começou.
O empresário iniciou sua trajetória ligado ao transporte de cargas, mas encontrou na industrialização de subprodutos uma possibilidade de crescimento.
A estratégia permitiu à SulGesso ampliar sua presença no mercado brasileiro e desenvolver operações internacionais.
Com o passar dos anos, a empresa passou a investir também em tecnologias, pesquisa, produtos agrícolas e atividades ligadas à logística.
A diversificação contribuiu para que o grupo completasse cinco décadas de história e construísse uma estrutura empresarial com diferentes frentes de atuação.
Agora, a companhia passa por um processo de sucessão familiar, enquanto seu fundador permanece na presidência.
A trajetória demonstra como materiais antes considerados um problema podem ganhar valor econômico quando existe uma aplicação industrial viável.
Foi essa oportunidade que ajudou a transformar uma pequena transportadora catarinense em um grupo com atuação nacional, cuja história começou com um filho de caminhoneiro que encontrou possibilidades de negócio em montanhas de resíduos industriais.

