Uma nova rodada de negociações pode decidir se agências bancárias de todo o Brasil funcionarão normalmente nesta quinta-feira (20). Trabalhadores e bancos ainda tentam chegar a um acordo sobre salários, benefícios e condições de trabalho, enquanto sindicatos já discutem a possibilidade de uma paralisação nacional.
O impasse aumentou depois que a última reunião entre o Comando Nacional dos Bancários e a Federação Nacional dos Bancos (Fenaban) terminou sem uma proposta geral de reajuste considerada satisfatória pela categoria.
LEIA TAMBÉM:
- Trabalhador se muda de cidade a pedido da empresa, assina contrato de aluguel e meses depois recebe aviso de que a filial da firma será fechada
- Garoto de 13 anos passa 20 horas por semana na reciclagem de latinhas, já reúne 1,5 milhão e transforma material em R$ 127 mil para caridade
- Casas Bahia coloca geladeiras, fogões e máquinas de lavar à venda com preços que chegam a R$ 305 e descontos acima de 50%
Nesta terça-feira (18), representantes dos trabalhadores e das instituições financeiras voltam a negociar. A oitava rodada da Campanha Nacional Unificada é considerada decisiva porque pode evitar ou confirmar as manifestações previstas para quinta-feira.
Segundo a Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf), sindicatos de diferentes regiões já estão organizando assembleias para definir os próximos passos.
Por que os bancários ameaçam entrar em greve?
O principal conflito está relacionado à negociação salarial.
De acordo com a Contraf, os bancos não apresentaram na rodada anterior uma proposta única de reajuste para todos os trabalhadores. A entidade afirma que a Fenaban sugeriu um modelo com percentuais diferentes conforme a faixa salarial.
Outro ponto criticado pelos bancários é o piso de entrada. Segundo a representação dos trabalhadores, a proposta manteria o valor congelado, sem apresentar os percentuais que seriam aplicados às demais faixas.
Os benefícios também entraram no centro da discussão.
A Contraf afirma que os bancos teriam apresentado valores diferentes para vale-alimentação e vale-refeição conforme a região, com reajustes concentrados principalmente nas grandes capitais.
Diante do impasse, o Comando Nacional decidiu levar as propostas aos sindicatos e trabalhadores.
Quando pode acontecer a greve dos bancários?
Uma eventual greve dos bancários está prevista para ser discutida nas assembleias e pode atingir agências na quinta-feira, dia 20 de agosto.
A paralisação, porém, não ocorre automaticamente em todas as instituições.
A adesão depende das decisões dos sindicatos e dos trabalhadores de cada região. Por isso, o tamanho do movimento poderá variar conforme a mobilização local.
A negociação desta terça-feira também pode alterar o cenário caso as partes cheguem a um acordo.
O que os bancários estão reivindicando?
A campanha salarial reúne pedidos relacionados não apenas aos salários, mas também às condições de trabalho.
Entre as principais reivindicações estão:
- aumento real dos salários;
- reajuste da Participação nos Lucros e Resultados (PLR);
- aumento do vale-alimentação;
- aumento do vale-refeição;
- valorização do piso salarial;
- criação de um piso específico para trabalhadores de tecnologia;
- contratação de novos funcionários;
- redução da sobrecarga nas agências;
- combate às metas consideradas abusivas;
- medidas contra assédio;
- redução do monitoramento excessivo;
- políticas de igualdade e diversidade;
- programas de qualificação profissional.
A categoria também quer discutir o impacto da inteligência artificial e de outras tecnologias sobre as funções exercidas pelos bancários.
Bancários dizem que bancos reduziram milhares de empregos
A defesa das reivindicações também envolve dados sobre a transformação do setor financeiro.
Segundo números apresentados pela Contraf, o patrimônio líquido dos bancos chegou a R$ 1,2 trilhão em 2025.
Ao mesmo tempo, a entidade afirma que aproximadamente 88 mil postos de trabalho foram eliminados entre 2015 e 2025.
No mesmo período, cerca de 9,5 mil agências teriam encerrado suas atividades.
A redução da estrutura física ocorreu paralelamente ao crescimento dos correspondentes bancários. De acordo com os dados apresentados pela representação sindical, os cinco maiores bancos aumentaram em 49% os contratos mantidos com esses correspondentes.
Para os trabalhadores, os números ajudam a explicar parte das cobranças feitas durante a campanha salarial.
Remuneração dos executivos também virou alvo das críticas
A diferença entre os salários dos funcionários e a remuneração dos principais executivos também aparece entre os argumentos utilizados pelos bancários.
A Contraf estima que a remuneração média anual dos executivos dos três maiores bancos privados poderá alcançar R$ 12,5 milhões em 2026.
Segundo a entidade, esse valor equivaleria a aproximadamente 120 vezes a remuneração anual de um bancário que ocupa o cargo de escriturário.
A produtividade do setor também é citada.
Em 2025, as agências bancárias teriam processado cerca de 7,2 bilhões de transações, o equivalente a aproximadamente 28,6 milhões de operações por dia útil.
Ainda conforme os dados apresentados pelos trabalhadores, o lucro calculado por empregado chegou a R$ 438 mil.
Vale-alimentação também está entre os pontos de conflito
Os benefícios são outro tema importante da negociação.
Segundo cálculo da Contraf, o vale-alimentação acumulou uma perda real de 13% entre 2019 e 2025.
No caso do vale-refeição, a entidade aponta perda de 3,7% do poder de compra entre 2023 e 2025.
Para recuperar o poder de compra que tinha em 2019, o vale-alimentação mensal precisaria passar de R$ 924,47 para aproximadamente R$ 1.293,73, segundo a estimativa apresentada pela confederação.
Isso representaria uma alta próxima de 40%.
Como começaram as negociações dos bancários?
A atual campanha salarial começou em 24 de junho, quando os trabalhadores entregaram à Fenaban a pauta de reivindicações.
A primeira rodada ocorreu em 2 de julho e tratou de temas como jornada de trabalho, teletrabalho, direito à desconexão e inclusão.
Em 7 de julho, a segunda reunião abordou empregos, fechamento de agências, demissões e os impactos da inteligência artificial.
A terceira rodada, em 16 de julho, teve como foco a igualdade de oportunidades.
Na quarta reunião, realizada em 21 de julho, os representantes dos trabalhadores discutiram saúde mental e metas de produtividade.
Em 30 de julho, os bancários apresentaram suas reivindicações relacionadas a salários, PLR e benefícios.
Já em 13 de agosto, na sétima rodada, surgiu o principal impasse. Segundo a Contraf, os bancos não apresentaram um percentual geral de reajuste e defenderam mudanças diferentes conforme as faixas salariais.
O que pode acontecer com as agências nesta quinta-feira?
O funcionamento das agências dependerá do resultado das negociações e das decisões tomadas pelos sindicatos.
Se houver acordo entre os representantes dos trabalhadores e dos bancos, a possibilidade de paralisação poderá ser afastada.
Caso o impasse continue, as assembleias poderão autorizar manifestações e paralisações a partir de quinta-feira (20).
Isso significa que não é possível afirmar que todas as agências bancárias do país estarão fechadas. A extensão do movimento dependerá da adesão dos trabalhadores em cada localidade.
O que dizem os bancos?
A Federação Brasileira de Bancos informou que recebeu a pauta de reivindicações dos trabalhadores em 24 de junho.
Segundo a entidade, as negociações seguem o calendário definido entre as partes.
A representação dos bancos afirmou ainda esperar que as conversas terminem com um entendimento que atenda aos interesses dos dois lados.
Até que uma decisão seja tomada, trabalhadores e clientes acompanham a negociação desta terça-feira, que poderá definir se a greve dos bancários realmente avançará para quinta-feira.

