Cosmonauta ficou preso no espaço após traje inchar e não passar pela nave; ele precisou esvaziar o ar para conseguir voltar

Alexei Leonov ficou preso fora da nave após seu traje inchar durante a primeira caminhada espacial. Veja como o cosmonauta soviético conseguiu voltar.

Mais de 500 quilômetros acima da Terra, em março de 1965, o cosmonauta soviético Alexei Leonov protagonizou uma das situações mais tensas da história da exploração espacial. Durante a primeira caminhada espacial realizada por um ser humano, o traje pressurizado inchou no vácuo e ficou rígido a ponto de dificultar a entrada de Leonov na pequena eclusa da nave.

O problema colocou o cosmonauta em uma situação extrema: para conseguir retornar à cápsula Voskhod 2, ele precisou reduzir deliberadamente a pressão do próprio traje, assumindo o risco de sofrer uma descompressão.

LEIA TAMBÉM:

A missão, realizada em plena corrida espacial entre União Soviética e Estados Unidos, deveria representar um grande triunfo tecnológico. Mas a caminhada de Leonov revelou que alguns dos limites da engenharia espacial ainda estavam sendo descobertos na prática.

Alexei Leonov saiu da nave e entrou para a história

A Voskhod 2 foi lançada em 18 de março de 1965, a partir do cosmódromo de Baikonur, então localizado na União Soviética e atualmente no território do Cazaquistão.

A bordo estavam dois cosmonautas: Alexei Leonov e Pavel Belyayev. O objetivo principal era realizar a primeira atividade extraveicular da história, antes que os Estados Unidos conseguissem executar o feito.

Como a cabine da nave era pequena demais para permitir uma saída convencional, os soviéticos desenvolveram uma solução inédita: uma eclusa inflável chamada Volga.

Leonov entrou no compartimento, aguardou a equalização da pressão e abriu a escotilha. Pouco depois, tornou-se o primeiro ser humano a sair de uma nave espacial e permanecer exposto diretamente ao vácuo.

O traje espacial inchou no espaço

O grande problema apareceu quando Leonov já estava do lado de fora.

O traje Berkut precisava manter uma pressão interna suficiente para proteger o corpo do cosmonauta. Porém, sem a pressão atmosférica terrestre atuando do lado externo, o material do traje se expandiu.

As articulações ficaram muito mais rígidas e os movimentos se tornaram difíceis. Leonov passou a ter problemas para controlar o próprio corpo e realizar tarefas que haviam sido planejadas durante os treinamentos.

O traje funcionava como um volume pressurizado exposto ao vácuo: sem a contrapressão da atmosfera, a pressão interna fazia a roupa se expandir.

O problema ficou ainda mais grave quando chegou o momento de retornar para a eclusa.

Leonov descobriu que não conseguia voltar para a nave

O traje havia ficado tão rígido e volumoso que Leonov percebeu que não conseguiria simplesmente entrar na eclusa na posição planejada.

A situação era especialmente perigosa porque o cosmonauta estava conectado à nave por um cabo de segurança, tinha uma quantidade limitada de oxigênio e precisava completar a operação antes que seus recursos se esgotassem.

Não havia uma segunda pessoa do lado de fora para ajudá-lo.

A solução encontrada por Leonov foi tão arriscada quanto necessária: ele decidiu reduzir a pressão dentro do próprio traje.

Cosmonauta esvaziou parte do traje para conseguir passar

Leonov começou a diminuir a pressão interna do escafandro para reduzir seu volume e recuperar parte da mobilidade.

A decisão aumentava o risco de problemas relacionados à descompressão, mas permitiria que o cosmonauta recuperasse o controle necessário para atravessar a eclusa.

Com enorme esforço físico, Leonov conseguiu se posicionar e retornar ao interior da Volga.

O episódio transformou os pouco mais de 12 minutos da primeira caminhada espacial em uma situação de sobrevivência. O cosmonauta terminou a atividade extremamente cansado e com o traje cheio de suor devido ao esforço e ao calor acumulado.

A primeira caminhada espacial ainda teve outros problemas

O problema com o traje não foi a única dificuldade enfrentada pela Voskhod 2.

Durante o retorno, a missão também apresentou falhas e situações inesperadas. O sistema automático de orientação apresentou problemas, obrigando os cosmonautas a assumir parte do controle da nave.

Além disso, a concentração de oxigênio dentro da cabine chegou a níveis perigosamente elevados, aumentando o risco de incêndio.

A reentrada também não ocorreu exatamente como planejado. A cápsula acabou pousando em uma região remota da taiga soviética, longe do ponto inicialmente previsto.

Leonov e Belyayev permaneceram na região até serem localizados e resgatados.

Por que o traje de Leonov inchou no espaço?

O comportamento do traje estava relacionado à diferença de pressão entre seu interior e o ambiente externo.

Na Terra, a atmosfera exerce pressão sobre todos os objetos. No espaço, praticamente não existe pressão atmosférica externa. Quando o traje é pressurizado para manter o corpo humano protegido, o material tende a se expandir.

Na missão da Voskhod 2, essa expansão foi maior do que o esperado e dificultou os movimentos do cosmonauta.

O episódio demonstrou que um traje espacial não precisa apenas impedir que o corpo seja exposto ao vácuo. Ele também precisa permitir que o astronauta continue movimentando braços, pernas e mãos enquanto permanece sob pressão.

A experiência ajudou a mudar os trajes espaciais

A caminhada de Leonov mostrou na prática alguns dos desafios que precisavam ser solucionados para tornar atividades extraveiculares mais seguras.

Projetos posteriores passaram a considerar com maior atenção a mobilidade, a pressão interna, a articulação das roupas e os procedimentos para situações de emergência.

Décadas depois, os trajes utilizados em atividades fora da Estação Espacial Internacional incorporam soluções muito mais avançadas para permitir que astronautas trabalhem durante horas no espaço.

A situação enfrentada por Leonov, entretanto, permanece como um dos episódios mais lembrados da evolução dessa tecnologia.

A missão soviética aconteceu antes da caminhada espacial americana

A União Soviética tinha uma vantagem importante na corrida espacial.

Em 1961, Yuri Gagarin havia se tornado o primeiro ser humano a viajar ao espaço. Quatro anos depois, Leonov realizou outro feito inédito.

Os Estados Unidos só realizariam sua primeira caminhada espacial alguns meses depois, quando Ed White deixou a cápsula Gemini 4, em junho de 1965.

A disputa tecnológica entre as duas potências ajudou a acelerar o desenvolvimento de foguetes, naves e trajes espaciais, mas também levou os dois países a assumirem riscos significativos.

Leonov ficou literalmente preso pelo próprio traje

A história da Voskhod 2 costuma ser lembrada pela imagem histórica do primeiro ser humano flutuando livremente no espaço.

Por trás da fotografia e do feito político, porém, existia uma situação muito mais perigosa.

Leonov estava sozinho no vácuo, preso à nave por um cabo de segurança e usando um traje que havia se tornado rígido demais para permitir seu retorno pela eclusa.

Ao reduzir a pressão do escafandro e conseguir entrar novamente na nave, o cosmonauta resolveu um problema que poderia ter terminado de maneira completamente diferente.

A primeira caminhada espacial, portanto, não foi apenas uma demonstração de avanço tecnológico. Ela também revelou, de forma dramática, como a exploração espacial ainda dependia da capacidade humana de reagir diante de problemas que os testes em solo não haviam previsto completamente.

Guilherme Galhardo
Guilherme Galhardo
Redator, apaixonado pela cultura POP, luta-livre, games, séries e filmes, escreve sobre economia, serviços e cotidiano de cidades. Entusiasta de meteorologia e punk rocker nas horas vagas.
MATÉRIAS RELACIONADAS

MAIS LIDAS