Remédio usado por milhões de brasileiros é proibido em alguns países e especialista explica o que está por trás da diferença

Um dos medicamentos mais conhecidos pelos brasileiros chama atenção por uma diferença nas regras adotadas em outros países. A dipirona, também chamada de metamizol, é amplamente utilizada no Brasil para aliviar dores e reduzir a febre, mas foi retirada do mercado em países como Estados Unidos, Reino Unido, Japão, Suécia e Finlândia.

A principal preocupação está relacionada à agranulocitose, uma reação adversa rara que pode provocar uma queda acentuada de determinados glóbulos brancos e aumentar o risco de infecções graves.

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Apesar disso, a dipirona continua autorizada no Brasil e também é utilizada legalmente em diferentes países europeus. A diferença está nas avaliações de risco e nas decisões adotadas individualmente pelas autoridades sanitárias de cada país.

Dipirona está entre os medicamentos mais usados no Brasil

A popularidade da dipirona entre os brasileiros é grande. Segundo dados citados em reportagens sobre o medicamento, foram comercializadas mais de 200 milhões de doses no país em um ano.

A substância é utilizada principalmente como analgésico e antitérmico e está presente em medicamentos conhecidos pelos brasileiros, incluindo produtos que utilizam a dipirona como princípio ativo.

O medicamento começou a ser produzido comercialmente na Alemanha na década de 1920 e se espalhou por diferentes mercados ao longo do século passado.

Por que a dipirona foi proibida em alguns países?

A principal razão está relacionada à possibilidade de desenvolvimento da agranulocitose.

A condição provoca uma redução importante de determinados glóbulos brancos responsáveis pela defesa do organismo. Em casos graves, o paciente pode ficar mais vulnerável a infecções potencialmente perigosas.

Foi justamente essa possibilidade que levou alguns países a retirar o metamizol de circulação. Nos Estados Unidos, por exemplo, o medicamento deixou de ser comercializado na década de 1970. Outros países também adotaram restrições semelhantes posteriormente.

A frequência do efeito adverso, entretanto, varia bastante entre os estudos. As estimativas citadas na matéria original vão de aproximadamente um caso para cada 2 mil usuários a menos de 1,1 caso por milhão de pessoas, dependendo da população analisada e da metodologia utilizada.

Estudos ainda analisam os riscos do medicamento

Pesquisadores da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (FCF-USP) analisaram evidências genéticas relacionadas ao risco de agranulocitose associada à dipirona.

Segundo o estudo, não existem evidências genéticas suficientes para justificar uma proibição da substância com base exclusivamente nesse risco. Algumas pesquisas apontam possíveis relações entre determinadas variações genéticas e a reação adversa, mas essas variantes são consideradas extremamente raras.

O trabalho foi publicado na revista científica Frontiers in Pharmacology.

Quais sinais podem indicar uma reação grave?

A agranulocitose pode inicialmente não apresentar sintomas específicos. Conforme a quantidade de células de defesa diminui, porém, podem aparecer sinais relacionados a infecções.

Entre os sintomas de alerta estão febre, calafrios, dor de garganta e feridas dolorosas nas mucosas, incluindo boca, nariz e garganta. Também podem surgir lesões nas regiões genital ou anal.

A Agência Europeia de Medicamentos (EMA) recomenda atenção imediata a esses sinais durante o tratamento ou pouco depois da interrupção do medicamento, especialmente porque a reação pode ocorrer mesmo em pessoas que já utilizaram a substância anteriormente sem apresentar problemas.

Por que a dipirona continua liberada no Brasil?

No Brasil, a dipirona permanece regulamentada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

A manutenção do medicamento no mercado ocorre dentro de uma avaliação própria de riscos e benefícios. A existência de uma proibição em determinados países não significa, automaticamente, que a substância seja considerada insegura em todos os lugares onde é utilizada.

Na Europa, inclusive, medicamentos à base de metamizol continuam autorizados em diversos países para o tratamento de dor e febre, embora as indicações e as regras possam variar conforme a legislação de cada nação.

Por isso, a diferença entre as regulamentações envolve não apenas os possíveis efeitos adversos, mas também as evidências disponíveis, características das populações e critérios adotados por cada autoridade sanitária.

Vinicius Ficher
Vinicius Ficher
Redator, escrevediariamente sobre economia, serviços e cotidiano de cidades.
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