O começo do fim? Máquina inteligente chega aos canteiros e promete fazer em uma hora o trabalho de cinco pedreiros e um ajudante

Máquina inteligente WLTR automatiza o assentamento de blocos, alcança até 10 m² por hora e foi criada para enfrentar a falta de mão de obra.

Uma máquina inteligente capaz de levantar paredes inteiras começa a chamar atenção no setor da construção civil.

Batizado de WLTR, o equipamento automatiza uma das atividades mais repetitivas e fisicamente exigentes de uma obra: o assentamento de blocos. Durante uma demonstração no Reino Unido, o empresário Jan Telensky, um dos desenvolvedores do sistema, afirmou que a máquina consegue realizar em uma hora o equivalente ao trabalho de cinco pedreiros e um ajudante.

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A comparação, porém, precisa ser entendida corretamente. O equipamento não constrói uma casa inteira sozinho e também não elimina a necessidade de trabalhadores no canteiro. O WLTR foi desenvolvido para assumir uma etapa específica da alvenaria, enquanto pessoas continuam responsáveis por abastecimento, preparação, supervisão e tarefas que a máquina não consegue executar.

A própria documentação técnica informa produtividade média de 7,5 metros quadrados de alvenaria por hora, podendo chegar a 10 metros quadrados em condições adequadas.

Como funciona a máquina inteligente que levanta paredes?

O WLTR trabalha a partir de informações digitais da parede que será construída.

O sistema utiliza referências de posicionamento para identificar a área de trabalho e manter o alinhamento. Depois, seu braço mecânico pega os blocos, aplica o material de união e os coloca na posição determinada pelo projeto.

O ciclo é repetido sucessivamente.

Em vez de um trabalhador precisar transportar e posicionar cada bloco manualmente, a máquina executa essa sequência de maneira automatizada.

O equipamento também possui sensores para auxiliar no controle do posicionamento das peças.

Segundo a fabricante, o WLTR consegue trabalhar em paredes de até 3,5 metros de altura a partir da base da alvenaria.

Máquina consegue fazer até 10 metros quadrados de parede por hora

A ficha técnica do equipamento apresenta uma velocidade média de 7,5 m² por hora, com capacidade máxima anunciada de 10 m² por hora.

Esse número ajuda a entender de onde vem a comparação feita pelo desenvolvedor.

A proposta é concentrar em uma máquina uma sequência de movimentos repetitivos que normalmente exige vários trabalhadores atuando em conjunto.

Isso não significa, entretanto, que cinco pedreiros possam simplesmente ser retirados de uma obra sempre que o WLTR chegar.

A produtividade depende do tipo de parede, dos materiais utilizados, da preparação do local e das condições de operação.

A máquina inteligente ainda precisa de trabalhadores

Apesar da automação, o canteiro não fica vazio.

A especificação do WLTR prevê um operador e um trabalhador de apoio.

O operador acompanha o funcionamento do equipamento, enquanto o profissional de apoio fica responsável por atividades como abastecimento dos blocos e suporte ao processo.

Quando uma palete termina, por exemplo, alguém precisa retirar o material vazio e posicionar uma nova carga.

Existem ainda tarefas que continuam dependendo da atuação humana.

Cortes de blocos, preparação de determinadas aberturas, instalação de elementos de ancoragem e outras intervenções específicas não desaparecem simplesmente porque a parede está sendo assentada de forma automática.

Por que o equipamento chama tanta atenção?

A principal vantagem prometida pelo sistema está na combinação entre velocidade, repetibilidade e precisão.

Durante uma demonstração realizada em Londres, Jan Telensky afirmou à Reuters que o WLTR consegue manter uma tolerância de aproximadamente dois milímetros na parede.

O empresário também argumentou que manter esse nível de precisão manualmente seria difícil para a maioria dos trabalhadores.

A tecnologia é justamente direcionada para uma atividade em que pequenas diferenças de posicionamento precisam ser repetidas centenas ou milhares de vezes.

WLTR pode se movimentar durante o trabalho

A máquina não precisa permanecer completamente parada em um único ponto.

Quando chega ao limite da área de trabalho, o sistema pode se deslocar ao longo da parede utilizando seu mecanismo integrado.

Para outras movimentações dentro do pavimento, entretanto, é necessário contar com equipamentos adequados para deslocar a própria máquina e os materiais.

Esse detalhe mostra outra característica importante do WLTR: ele foi desenvolvido para ambientes de obra específicos, e não como uma máquina universal capaz de circular livremente por qualquer construção.

O robô usa cola no lugar do cimento?

Uma das características que mais chamam atenção é justamente o material utilizado para unir os blocos.

O WLTR pode trabalhar com a espuma adesiva Porotherm Dryfix, aplicada automaticamente sobre as peças durante o processo de assentamento.

Isso permite utilizar uma solução diferente da argamassa tradicional em determinadas configurações de alvenaria.

Mas existe uma ressalva importante.

A documentação do equipamento também prevê o uso de argamassa de camada fina Porotherm Profi. Portanto, dizer que a máquina simplesmente “troca cimento por cola” seria simplificar demais a tecnologia.

O sistema depende de blocos específicos e de métodos de união compatíveis com o projeto escolhido.

Blocos especiais foram desenvolvidos para a automação

A máquina também não funciona com qualquer bloco encontrado em uma loja de materiais de construção.

O WLTR utiliza peças preparadas para automação, chamadas pela fabricante de Robot Ready.

Esses blocos possuem características que permitem que o mecanismo da máquina os capture, transporte e posicione corretamente.

A tecnologia, portanto, envolve não apenas o robô, mas também os materiais utilizados na parede.

É uma combinação entre blocos específicos, projeto digital, sensores e automação mecânica.

O equipamento não precisa de andaimes em determinadas condições

Durante a demonstração acompanhada pela Reuters, Telensky afirmou que o equipamento pode trabalhar em diferentes condições climáticas e sem a necessidade de andaimes para essa operação.

A característica pode representar uma vantagem operacional, especialmente em tarefas que normalmente exigem esforço físico e trabalho repetitivo em altura.

Ainda assim, isso não significa que toda obra com o WLTR possa dispensar todos os sistemas de acesso e segurança.

As condições dependem do projeto, do local e das atividades que continuam sendo executadas por trabalhadores.

Por que o Reino Unido está interessado nesse tipo de tecnologia?

A máquina surgiu em um momento no qual a construção britânica enfrenta preocupação com a disponibilidade de profissionais qualificados.

Jan Telensky afirmou à Reuters que uma pesquisa conduzida por sua equipe apontou uma idade média de 46 anos entre pedreiros no Reino Unido, levantando a preocupação sobre quem realizará esse trabalho no futuro caso não haja renovação da mão de obra.

Nesse cenário, a automação aparece como uma tentativa de reduzir a dependência de determinadas tarefas manuais.

A proposta não é necessariamente retirar as pessoas da construção, mas deslocar parte do trabalho para funções de operação, supervisão e controle da tecnologia.

Máquina pode atrair trabalhadores mais jovens para a construção

O próprio desenvolvedor do WLTR afirma que a tecnologia pode ajudar a tornar o trabalho mais atrativo para as novas gerações.

Em entrevista à Reuters, Telensky contou que pesquisas conduzidas pela empresa mostraram maior interesse de jovens quando a atividade era apresentada como operação de um robô para construção, em vez do trabalho tradicional de pedreiro.

A ideia é transformar parte da função em uma atividade mais tecnológica, na qual o trabalhador controla e acompanha equipamentos automatizados.

Assim, a máquina pode acabar criando uma nova função dentro do próprio canteiro.

A máquina inteligente pode substituir cinco pedreiros?

Essa é a afirmação que mais chama atenção, mas precisa de contexto.

Segundo Jan Telensky, o WLTR consegue fazer em uma hora o trabalho equivalente a cinco pedreiros e um trabalhador de apoio na etapa de assentamento de alvenaria.

A própria demonstração deixa claro que a comparação está relacionada à produtividade do assentamento.

A máquina precisa de pessoas para operar, abastecer e complementar o trabalho.

Portanto, não é correto interpretar a informação como “uma máquina substitui cinco pedreiros na construção de uma casa inteira”.

Ela automatiza uma parcela específica da obra.

Tecnologia pode acelerar a construção de moradias

O interesse pelo WLTR também está relacionado à necessidade de aumentar a velocidade da construção de novas casas no Reino Unido.

O governo britânico estabeleceu uma meta de 1,5 milhão de novas moradias durante o atual Parlamento, criando pressão para ampliar a capacidade de construção.

Nesse contexto, máquinas capazes de automatizar determinadas etapas podem contribuir para aumentar a produtividade de obras que utilizem sistemas compatíveis.

Isso não significa que o WLTR tenha sido contratado para construir sozinho essas 1,5 milhão de casas.

A relação está no potencial da automação para ajudar o setor a produzir mais diante da escassez de mão de obra qualificada.

O WLTR pode ser usado em qualquer construção?

Não.

A tecnologia possui requisitos específicos.

O local precisa oferecer espaço adequado para a operação, os blocos precisam ser compatíveis com o sistema e o projeto precisa ser preparado de maneira apropriada para o processo automatizado.

A máquina também tem requisitos técnicos de energia, água e posicionamento dos paletes.

Segundo a ficha do fabricante, o equipamento pesa cerca de 2.500 quilos e possui dimensões de aproximadamente 3,7 metros de comprimento por 2,05 metros de largura na configuração de trabalho.

Isso significa que seu uso depende de planejamento logístico.

O trabalho manual não desaparece da obra

Mesmo com o avanço da automação, o canteiro continua dependendo de profissionais.

A máquina executa a sequência para a qual foi projetada, mas não toma todas as decisões necessárias para construir uma residência.

Há preparação do terreno, fundações, instalações, aberturas, acabamentos, movimentação de materiais e inúmeras outras etapas que permanecem fora do alcance do equipamento.

Por isso, o cenário mais realista apresentado pela tecnologia é de colaboração entre máquinas e trabalhadores, e não de canteiros completamente automatizados.

A máquina inteligente representa o futuro da construção?

O WLTR mostra como a robótica começa a ocupar tarefas que durante décadas foram feitas exclusivamente por pessoas.

O equipamento foi desenvolvido justamente para uma atividade repetitiva, pesada e que enfrenta problemas de disponibilidade de trabalhadores.

Com uma produtividade média anunciada de 7,5 m² por hora, capacidade máxima de 10 m² e operação baseada em projeto digital, ele representa uma aplicação concreta da automação diretamente no canteiro.

Ao mesmo tempo, a tecnologia ainda depende de operadores, trabalhadores de apoio, materiais específicos e condições adequadas de instalação.

A grande mudança pode estar menos no desaparecimento dos pedreiros e mais na transformação da profissão.

Em vez de passar o dia inteiro levantando cada bloco manualmente, parte dos trabalhadores pode assumir funções de operação, preparação, supervisão e controle de máquinas.

E é justamente essa combinação que explica por que uma máquina inteligente como o WLTR chama tanta atenção.

Ela não constrói uma casa inteira sozinha.

Mas já consegue assumir uma das etapas mais repetitivas da construção e executar, segundo seu desenvolvedor, em uma hora de trabalho aquilo que equivaleria à produção de uma equipe muito maior.

Isso pode não representar o fim dos pedreiros.

Mas mostra que o futuro dos canteiros de obras pode ser bem diferente do que conhecemos hoje.

Guilherme Galhardo
Guilherme Galhardo
Redator, apaixonado pela cultura POP, luta-livre, games, séries e filmes, escreve sobre economia, serviços e cotidiano de cidades. Entusiasta de meteorologia e punk rocker nas horas vagas.
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