Eleições 2026: quem venceria já no primeiro turno entre Lula e Flávio Bolsonaro se usássemos no Brasil o mesmo sistema eleitoral dos Estados Unidos?

E se as eleições 2026 usassem um sistema parecido com o dos EUA? Simulação com os votos mostra Flávio Bolsonaro à frente de Lula.

Imagine acompanhar a apuração presidencial até o último voto. Um candidato termina com mais votos em todo o país, seus apoiadores começam a comemorar, mas o resultado aponta outra pessoa como vencedora.

Parece um erro de contagem? Não necessariamente.

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Em um sistema baseado em um Colégio Eleitoral, como o utilizado nos Estados Unidos, é possível que o candidato com mais votos populares nacionalmente não seja o vencedor da eleição.

Agora, imagine aplicar uma lógica semelhante ao Brasil.

São Paulo, Bahia, Minas Gerais e os demais estados passariam a representar blocos de votos eleitorais. Uma vitória por uma diferença mínima poderia entregar ao candidato exatamente o mesmo número de votos eleitorais que uma vitória por uma margem muito maior naquele estado.

Uma simulação matemática usando resultados já registrados mostra como isso poderia alterar o resultado brasileiro.

Aplicando a fórmula escolhida aos votos do segundo turno de 2022, Jair Bolsonaro ficaria à frente de Lula. No primeiro turno das eleições 2026, usando os resultados apresentados no exercício, Flávio Bolsonaro também ultrapassaria a maioria necessária no colégio eleitoral hipotético.

É importante destacar: trata-se de uma simulação matemática. Os eleitores votaram sob as regras brasileiras, e não sob um sistema de Colégio Eleitoral. Portanto, o exercício mostra o efeito de mudar a fórmula de contagem depois que os votos foram registrados, e não como seria uma eleição realmente disputada sob regras diferentes.

Como funcionaria o sistema eleitoral dos EUA se fosse aplicado ao Brasil?

Nos Estados Unidos, os cidadãos votam em uma eleição presidencial que determina quais representantes participarão do chamado Colégio Eleitoral. O sistema possui 538 votos eleitorais, e são necessários 270 para alcançar a maioria.

A quantidade de votos eleitorais de cada estado corresponde ao número de representantes que ele possui no Congresso americano: o total de deputados, somado a dois votos correspondentes aos senadores.

O Distrito de Columbia recebe três votos eleitorais por uma regra constitucional própria.

Na maior parte dos estados, o candidato que vence a votação popular estadual fica com todos os votos eleitorais daquele território. As exceções são Maine e Nebraska, que distribuem parte dos votos de maneira diferente.

É justamente essa característica que permite uma situação aparentemente estranha: o candidato pode receber mais votos populares em todo o país e, ainda assim, perder a eleição.

Isso já aconteceu nos Estados Unidos. Em 2000, por exemplo, George W. Bush recebeu menos votos populares do que Al Gore, mas venceu a maioria do Colégio Eleitoral.

Como seria o Colégio Eleitoral brasileiro?

Para fazer a simulação, é necessário criar uma fórmula própria para o Brasil.

O exercício utiliza a distribuição de 513 deputados federais entre as unidades da Federação e acrescenta dois votos para cada uma delas, seguindo a lógica usada nos Estados Unidos para os senadores.

A conta resulta em:

513 deputados + 54 votos adicionais = 567 votos eleitorais.

Nesse modelo hipotético, seriam necessários 284 votos para alcançar a maioria.

Os maiores blocos ficariam com:

  • São Paulo: 72 votos eleitorais;
  • Minas Gerais: 55;
  • Rio de Janeiro: 48;
  • Bahia: 41.

A regra escolhida determina que o candidato mais votado em cada unidade da Federação ficaria com todo o bloco eleitoral daquele território.

Há, porém, uma diferença importante em relação aos Estados Unidos: o Brasil possui três senadores por unidade da Federação, enquanto o modelo americano acrescenta dois. Por isso, a simulação não reproduz exatamente o sistema dos EUA. Ela apenas adapta sua lógica ao desenho institucional brasileiro.

O Distrito Federal também recebe o mesmo tratamento das demais unidades nesta simulação.

Por que vencer por pouco poderia valer tanto?

Imagine uma disputa presidencial em São Paulo.

Um candidato recebe 50,1% dos votos válidos e o adversário fica com 49,9%.

Pela regra hipotética, o primeiro candidato conquista os 72 votos eleitorais de São Paulo.

Agora imagine que o resultado fosse muito mais desigual: 70% contra 30%.

O vencedor continuaria recebendo os mesmos 72 votos.

Ou seja, a diferença entre uma vitória apertada e uma vitória esmagadora aumentaria a vantagem no voto popular, mas não mudaria a quantidade de votos eleitorais conquistados naquele estado.

Nesse modelo, importa tanto onde o candidato vence quanto quantas pessoas votam nele.

É essa característica que mudaria completamente a leitura do mapa eleitoral brasileiro.

No sistema atual, cada voto válido contribui diretamente para o total nacional do candidato. No modelo de blocos, entretanto, a importância de um voto também dependeria de sua capacidade de ajudar o candidato a terminar em primeiro lugar em determinada unidade da Federação.

Uma disputa muito apertada em um estado poderia, portanto, receber atenção especial das campanhas.

Quem venceria na simulação das eleições de 2022?

Para testar a fórmula, o exercício aplica os pesos aos resultados do segundo turno de 2022.

Na eleição real, Lula venceu Jair Bolsonaro. O TSE registrou a vitória do petista, que terminou com 50,90% dos votos válidos contra 49,10% de Bolsonaro na totalização final.

Mas o resultado muda quando o mapa dos estados é transformado em votos eleitorais.

Votação utilizadaCandidatoVotos eleitorais simuladosParcela do colégio
Segundo turno de 2022Jair Bolsonaro30453,62%
Segundo turno de 2022Lula26346,38%

Nesse cenário hipotético, Bolsonaro ultrapassaria os 284 votos necessários e venceria o Colégio Eleitoral por 304 a 263.

Isso não altera o resultado oficial de 2022.

Lula foi eleito presidente porque a eleição brasileira foi realizada segundo as regras previstas para o sistema eleitoral do país. O exercício apenas pega aquele mesmo mapa de votação e aplica uma forma diferente de transformar votos em resultado.

E quem venceria nas eleições 2026?

O mesmo cálculo pode ser aplicado ao primeiro turno das eleições 2026 apresentado na simulação.

Nesse recorte, Lula liderou nos nove estados do Nordeste, além de Amazonas, Pará e Amapá.

Flávio Bolsonaro terminou à frente nas outras unidades, incluindo o Distrito Federal.

Quando os resultados são convertidos para os blocos eleitorais definidos pelo exercício, a diferença aumenta:

Votação utilizadaCandidatoVotos eleitorais simuladosParcela do colégio
Primeiro turno de 2026Flávio Bolsonaro35963,32%
Primeiro turno de 2026Lula20836,68%

Nesse modelo, Flávio Bolsonaro alcançaria 359 dos 567 votos eleitorais, muito acima dos 284 necessários para vencer.

Lula ficaria com 208.

Mas há uma ressalva fundamental: esses percentuais não representam a quantidade de brasileiros que votou em cada candidato. Eles representam apenas a parcela dos votos do Colégio Eleitoral hipotético criada para a simulação.

O que aconteceria com estados decisivos?

Minas Gerais ajuda a visualizar como a mudança de regra pode alterar o resultado.

No segundo turno de 2022, Lula venceu no estado. Como Minas Gerais teria 55 votos eleitorais no modelo, todo esse bloco iria para o petista.

No recorte do primeiro turno de 2026 utilizado na simulação, Flávio aparece à frente em Minas Gerais. Dessa maneira, os mesmos 55 votos eleitorais passam para o outro lado.

Amapá e Tocantins também mudam de lado entre os mapas utilizados no exercício, embora seus efeitos sobre o resultado final sejam diferentes porque cada unidade recebe um peso específico.

É justamente esse mecanismo que torna o sistema por blocos tão diferente da simples soma nacional dos votos.

A simulação prova que o sistema dos EUA seria melhor?

Não.

Ela demonstra apenas que regras eleitorais diferentes podem transformar os mesmos votos em resultados diferentes.

Definir qual sistema é melhor envolve uma discussão muito mais ampla sobre representação, peso territorial e a relação entre o voto individual e a distribuição geográfica do eleitorado.

Também seria incorreto concluir, a partir de uma única simulação, que um sistema de Colégio Eleitoral sempre favoreceria determinado candidato ou campo político no Brasil.

O resultado dependeria da distribuição dos votos em cada eleição, dos pesos atribuídos aos estados e, principalmente, das próprias campanhas.

Isso porque os candidatos e partidos provavelmente mudariam suas estratégias se soubessem desde o início que a eleição seria decidida dessa maneira.

Estados onde a disputa fosse muito equilibrada poderiam receber mais recursos, viagens, publicidade e atenção dos candidatos. Alianças também poderiam ser diferentes.

Até o comportamento dos eleitores poderia mudar.

Por que o resultado não representa como seria uma eleição americana no Brasil?

Existe uma diferença fundamental entre mudar a regra depois da votação e realizar uma eleição inteira sob aquela regra.

Na simulação, os votos já foram dados sob o sistema eleitoral brasileiro. Depois disso, os resultados de cada estado são convertidos em blocos eleitorais.

Se o Brasil adotasse um sistema semelhante ao americano antes de uma eleição, candidatos e partidos poderiam fazer campanhas diferentes, concentrar esforços em outros estados e mudar suas alianças.

Os próprios eleitores poderiam tomar decisões diferentes.

Por isso, o exercício não permite afirmar que Jair Bolsonaro teria vencido a eleição de 2022 caso o Brasil tivesse o sistema americano, nem que Flávio Bolsonaro necessariamente venceria uma eleição de 2026 disputada desde o início sob esse modelo.

O que a matemática permite afirmar é algo mais específico: ao aplicar essa fórmula aos resultados já registrados, o vencedor do exercício muda.

Os mesmos votos podem produzir resultados diferentes

A experiência mostra como a regra de conversão dos votos pode ser tão importante quanto a própria votação.

No sistema brasileiro, o resultado presidencial é definido pela maioria dos votos válidos, conforme as regras eleitorais nacionais.

No modelo hipotético inspirado no Colégio Eleitoral americano, o mapa dos estados passa a ter outro peso: conquistar uma unidade da Federação significa levar todo o bloco de votos eleitorais atribuído a ela.

Assim, uma diferença de poucos votos pode decidir dezenas de votos eleitorais, enquanto uma vitória muito ampla no mesmo território não necessariamente aumenta o tamanho do bloco conquistado.

É por isso que a pergunta sobre quem venceria as eleições 2026 com o sistema dos EUA não tem apenas uma resposta curiosa.

Ela também mostra como uma mudança aparentemente técnica na maneira de contar votos pode alterar completamente a disputa pelo poder.

Guilherme Galhardo
Guilherme Galhardo
Redator, apaixonado pela cultura POP, luta-livre, games, séries e filmes, escreve sobre economia, serviços e cotidiano de cidades. Entusiasta de meteorologia e punk rocker nas horas vagas.
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