Vacina brasileira contra malária recebe aval da Anvisa para testes em humanos; veja o que já se sabe

Anvisa autorizou testes em humanos da Vivaxin, vacina brasileira contra a malária vivax. Estudo inicial terá 48 voluntários em Belo Horizonte.

Uma vacina brasileira desenvolvida para combater o tipo de malária mais comum no país recebeu autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para iniciar os testes em seres humanos. Batizado de Vivaxin, o imunizante foi criado por pesquisadores do Centro de Tecnologia de Vacinas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em parceria com a Universidade de São Paulo (USP) e o laboratório farmacêutico Cristália.

A autorização, concedida em 7 de outubro de 2026, permite que a candidata a vacina avance para a primeira fase dos estudos clínicos. O objetivo inicial é avaliar a segurança do produto, possíveis reações à aplicação e a capacidade de estimular uma resposta do sistema imunológico.

O avanço é considerado importante porque a Vivaxin tem como alvo o Plasmodium vivax, parasita responsável pela maior parte dos casos de malária registrados no Brasil. Até o momento, não existe vacina aprovada para uso da população que previna especificamente a infecção por essa espécie.

Como será o teste da vacina brasileira contra a malária?

O estudo clínico de fase 1 prevê a participação de 48 voluntários saudáveis, com idades entre 18 e 59 anos e sem histórico de infecção por malária.

Os participantes serão distribuídos em grupos que receberão diferentes dosagens da Vivaxin ou placebo. O protocolo prevê três aplicações, com intervalo de 28 dias entre as doses.

A pesquisa será realizada no Centro de Pesquisas Clínicas do Hospital das Clínicas da UFMG, em Belo Horizonte, Minas Gerais. O acompanhamento previsto é de aproximadamente 360 dias, com avaliações clínicas e monitoramento dos voluntários.

Nesta etapa, os pesquisadores vão observar principalmente a segurança do imunizante e a resposta imunológica provocada pelas aplicações. Os resultados ajudarão a decidir os próximos passos do desenvolvimento.

A autorização para testar a vacina em humanos não significa que ela já esteja aprovada para uso público. Ainda será necessário reunir evidências suficientes sobre segurança e eficácia antes de qualquer eventual liberação para a população.

Por que a Vivaxin é importante para o Brasil?

A malária é uma doença infecciosa causada por parasitas do gênero Plasmodium, transmitidos principalmente pela picada de fêmeas infectadas do mosquito Anopheles.

No Brasil, o Plasmodium vivax é responsável pela maior parte dos casos. A doença se concentra especialmente na região amazônica, que reúne mais de 99% das infecções contraídas dentro do território nacional.

Segundo dados do Ministério da Saúde, o país registrou 118.037 casos de malária em 2025. A doença pode provocar febre, calafrios, dor de cabeça e outros sintomas, além de causar complicações em situações mais graves.

O desenvolvimento de uma vacina direcionada ao P. vivax representa uma possibilidade adicional para as estratégias de prevenção e controle da doença, especialmente nas áreas onde a transmissão continua ocorrendo.

Vacinas contra malária já existem, mas combatem outra espécie

Atualmente, a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda duas vacinas contra a malária: RTS,S/AS01 e R21/Matrix-M. Ambas foram desenvolvidas para combater o Plasmodium falciparum, outra espécie do parasita.

O P. falciparum está associado à maior parte das mortes por malária no mundo, especialmente em regiões da África. Já o P. vivax tem presença expressiva nas Américas e na Ásia e é predominante em boa parte dos casos brasileiros.

Por isso, a Vivaxin busca preencher uma lacuna científica: desenvolver um imunizante específico contra uma espécie para a qual ainda não há vacina disponível para uso da população.

Parasita pode permanecer no fígado e provocar recaídas

Uma das dificuldades no combate à malária vivax é a capacidade do parasita de permanecer no fígado em formas dormentes. Mesmo depois de um episódio inicial, essas formas podem voltar a provocar a doença, inclusive sem uma nova picada infectante.

Essa característica torna o controle da infecção mais complexo e exige atenção ao diagnóstico e ao tratamento adequado.

Embora o P. falciparum esteja relacionado à maior parte dos quadros graves, a malária vivax também pode causar complicações, como anemia grave e problemas respiratórios, além de apresentar risco de morte.

Uma vacina que demonstre segurança e eficácia poderá contribuir para reduzir a carga da doença. No entanto, esse possível benefício ainda precisa ser confirmado por estudos clínicos.

Quais são as próximas etapas da pesquisa?

A fase 1 é o primeiro passo da avaliação clínica em seres humanos. Caso os resultados sejam satisfatórios, a pesquisa poderá avançar para etapas posteriores, com mais participantes e análises adicionais.

As fases seguintes deverão investigar com maior profundidade a resposta imunológica e a capacidade do imunizante de proteger contra a infecção, mantendo o acompanhamento de possíveis efeitos adversos.

Somente depois de reunir evidências suficientes e cumprir as exigências regulatórias a vacina poderá ser considerada para eventual uso na população.

O desenvolvimento da Vivaxin também integra os esforços brasileiros para ampliar a capacidade nacional de pesquisa e produção de tecnologias em saúde. O projeto recebe apoio de instituições públicas de fomento e do Ministério da Saúde.

O Brasil mantém a meta de interromper a transmissão local da malária até 2035. Se os estudos demonstrarem que a Vivaxin é segura e eficaz, o imunizante poderá se tornar uma ferramenta adicional nesse objetivo, junto às medidas de prevenção, diagnóstico e tratamento.

Por enquanto, o principal avanço é a autorização para iniciar os testes em humanos. A confirmação da proteção contra a malária ainda depende dos resultados das próximas etapas da pesquisa.

Vinicius Ficher
Vinicius Ficher
Redator, escrevediariamente sobre economia, serviços e cotidiano de cidades.
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