Quem passeia pela orla do Guaíba, em Porto Alegre, encontra uma construção que guarda parte importante da história da capital gaúcha. A Usina do Gasômetro, conhecida pela enorme chaminé que se destaca na paisagem, nasceu para produzir eletricidade a partir da queima de carvão mineral. Décadas depois, tornou-se um dos espaços culturais mais conhecidos da cidade.
A transformação, no entanto, não aconteceu de uma hora para outra. Depois de encerrar as atividades industriais, o prédio ficou ameaçado pela deterioração e por projetos de demolição. A mobilização de moradores, artistas e defensores do patrimônio ajudou a mudar o destino da estrutura.
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Como surgiu a Usina do Gasômetro?
A história começou na década de 1920, quando Porto Alegre precisava ampliar sua capacidade de geração de energia elétrica. A nova usina termelétrica foi inaugurada em 15 de novembro de 1928, na região conhecida como Volta do Gasômetro, às margens do Guaíba.
O prédio foi projetado para abrigar equipamentos industriais que utilizavam carvão mineral como combustível. A energia produzida ajudou a atender à crescente demanda da capital em um período de expansão urbana e industrialização.
O nome Gasômetro, porém, tem uma origem anterior à própria termelétrica. A região já era associada a uma antiga usina de gás, responsável por fornecer combustível utilizado na iluminação pública e em residências.
Assim, mesmo depois da mudança na função do local, a denominação permaneceu e acabou incorporada à identidade de um dos principais marcos arquitetônicos de Porto Alegre.
Por que a chaminé tem mais de 100 metros de altura?
A grande chaminé é uma das características mais reconhecíveis do complexo. Com aproximadamente 117 metros, a estrutura foi construída em 1937, nove anos depois da inauguração da usina.
A altura não foi escolhida apenas por razões arquitetônicas. Nos primeiros anos de funcionamento, a fumaça e a fuligem da queima de carvão atingiam áreas residenciais próximas, provocando reclamações de moradores.
A construção de uma chaminé mais alta fez parte das medidas adotadas para lidar com o problema. A estrutura passou a lançar os resíduos da combustão a uma altura maior, embora a chaminé, isoladamente, não fosse suficiente para eliminar a poluição.
Com o tempo, a construção deixou de ser apenas um elemento industrial e passou a fazer parte da paisagem urbana, tornando-se um dos símbolos visuais da capital gaúcha.
Usina foi desativada e quase desapareceu
A atividade de geração de energia foi encerrada em 1974. Sem sua função original, o prédio entrou em um período de deterioração, e seu futuro passou a ser discutido pelo poder público.
Na época, chegou a ser considerada a demolição da estrutura para permitir intervenções viárias na região. A proposta provocou reação de setores da sociedade que defendiam a preservação da construção por sua importância histórica e arquitetônica.
A mobilização ajudou a impedir que o edifício fosse destruído. Em 1982, o imóvel passou à gestão municipal com destinação cultural, e o prédio foi tombado pelo município em 1983, após a proteção da chaminé pelo Estado no ano anterior.
A preservação abriu caminho para uma nova etapa. Em 1991, a antiga instalação industrial passou a funcionar como centro cultural, recebendo exposições, atividades artísticas e diferentes eventos.
Como a antiga termelétrica virou centro cultural?
A adaptação do espaço permitiu que um edifício criado para produzir eletricidade ganhasse uma nova função pública. Ao longo dos anos, a Usina do Gasômetro recebeu atividades ligadas às artes visuais, ao cinema, ao teatro e à produção cultural.
Sua localização também contribuiu para a popularidade. Situado junto à orla do Guaíba, o complexo se integrou aos passeios de moradores e turistas, que passaram a associar o local tanto à história de Porto Alegre quanto às paisagens do pôr do sol.
A mudança de finalidade representa um exemplo de reaproveitamento de patrimônio industrial: em vez de eliminar a construção, a cidade preservou parte de sua memória e adaptou o espaço a novas necessidades.
Reforma de milhões de reais e retomada das atividades
Depois de permanecer fechado por anos para obras, o centro cultural voltou a receber o público em agosto de 2025, após uma revitalização que recebeu investimento superior a R$ 25 milhões, segundo informações divulgadas pela Prefeitura de Porto Alegre.
A intervenção incluiu recuperação de estruturas, modernização de instalações e melhorias voltadas à segurança e à acessibilidade. O objetivo foi preparar o prédio histórico para retomar as atividades culturais sem abandonar suas características arquitetônicas.
Em fevereiro de 2026, a União formalizou a cessão do imóvel ao município por mais 21 anos, com possibilidade de prorrogação por igual período. O acordo deu continuidade à gestão municipal e às iniciativas de recuperação do complexo.
A preservação da chaminé também integra os cuidados com o patrimônio, que exige manutenção especializada por causa de sua dimensão e de sua exposição às condições ambientais.
Por que a Usina do Gasômetro continua importante para Porto Alegre?
A importância da Usina do Gasômetro vai além da arquitetura. O local reúne diferentes fases da história urbana: a expansão da geração de energia, os impactos ambientais da industrialização, a mobilização pela preservação histórica e a transformação de antigas instalações em espaços culturais.
A construção também mostra como a participação da sociedade pode influenciar o destino de um patrimônio ameaçado. O prédio que poderia ter sido demolido permaneceu na paisagem e ganhou uma função diferente daquela para a qual foi projetado.
Hoje, a antiga termelétrica continua sendo uma referência de Porto Alegre. Sua chaminé de mais de 100 metros, a proximidade com o Guaíba e a programação cultural fazem do complexo um dos pontos mais emblemáticos da capital gaúcha.
A história da Usina do Gasômetro mostra que um edifício industrial pode deixar de produzir energia e continuar tendo valor para a cidade — desta vez, preservando a memória e abrindo espaço para a cultura.

