Quando Allison Ruan de Morais Silva conseguiu uma vaga como professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), em janeiro de 2026, o concurso parecia ter chegado ao fim. Ele havia passado pelas etapas do processo seletivo, pela banca de heteroidentificação e finalmente tomou posse para atuar no Departamento de Engenharia Química.
Meses depois, porém, a situação mudou completamente.
LEIA TAMBÉM:
- Filha consegue cadastrar mãe idosa no Minha Casa Minha Vida para se livrar do aluguel de R$ 1.400, é aprovada em 7 meses, mas vistoria aponta que construtora entregou imóvel com 11 defeitos
- A psicologia explica por que pessoas que guardam caixas, sacolas e embalagens para usar depois podem estar buscando segurança
- Famosa marca de leite e laticínios do Rio Grande do Sul acumula dividas de R$ 200 milhões e suspende operação
Uma decisão judicial determinou a anulação da nomeação de Allison após uma disputa envolvendo a vaga e uma candidata da ampla concorrência. A universidade cumpriu a determinação e, desde 28 de julho, ele deixou de exercer o cargo.
O caso reacendeu o debate sobre as cotas raciais em concursos para professores de instituições federais e levantou uma discussão sobre a forma como essas vagas devem ser distribuídas.
Professor havia passado pelo concurso e já dava aulas
Allison é doutorando em Engenharia Química pela Universidade Federal do Ceará (UFC), tem mestrado em Engenharia Química pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e duas graduações pela Universidade Federal Rural do Semi-Árido.
Ele participou do concurso da UFPE para a área de Engenharia de Processos Químicos e Bioquímicos, com atuação em Processos Biotecnológicos.
A nomeação foi publicada no Diário Oficial da União em janeiro de 2026. A documentação oficial da UFPE confirma que Allison foi nomeado para o quadro permanente da universidade após aprovação no concurso.
Depois das etapas do processo seletivo, ele passou pela banca de heteroidentificação e assumiu o cargo.
Durante o primeiro semestre, chegou a ministrar aulas para estudantes da universidade.
Parecia, portanto, que a longa trajetória até conseguir uma vaga como professor de uma universidade federal finalmente havia terminado.
Mas ainda havia uma disputa judicial envolvendo aquele cargo.
Decisão judicial mudou a situação meses depois
A disputa chegou à Justiça Federal depois que uma candidata aprovada pela ampla concorrência questionou a ocupação da vaga.
Segundo o relato apresentado por Allison, as primeiras decisões do processo foram favoráveis à manutenção de sua nomeação. O cenário mudou posteriormente, quando outro magistrado passou a analisar o caso e adotou entendimento diferente.
Em 10 de julho, uma decisão determinou que a UFPE removesse Allison do cargo e nomeasse a candidata da ampla concorrência, Brígida Maria Villar da Gama.
A universidade acabou cumprindo a determinação judicial.
Em 28 de julho, o processo interno para cancelar e anular a nomeação foi aberto e Allison deixou de exercer a função.
A própria UFPE esclareceu que a anulação não partiu de uma decisão administrativa espontânea da universidade, mas do cumprimento de uma determinação do Poder Judiciário.
O que as cotas raciais têm a ver com a disputa?
A questão central está na forma como as vagas reservadas para candidatos negros são distribuídas dentro dos concursos públicos.
A legislação sobre ações afirmativas passou por mudanças recentes. A Lei nº 15.142/2025 substituiu a legislação anterior e ampliou a reserva de vagas para pessoas negras, indígenas e quilombolas nos concursos públicos federais.
O debate jurídico do caso envolve justamente a aplicação dessas regras ao concurso realizado pela UFPE.
Para a defesa de Allison, a legislação estabelece que o cálculo das vagas reservadas deve considerar o conjunto total de vagas oferecidas pelo concurso.
A interpretação defendida pela defesa é que uma aplicação diferente da regra poderia enfraquecer a própria política de ações afirmativas.
Professor diz que ficou sem saber o que aconteceria
A mudança aconteceu poucos meses depois de Allison assumir o cargo.
Em entrevista ao CORREIO, ele relatou que chegou a acompanhar o processo judicial desde o início porque tinha receio de que a vaga pudesse ser questionada.
Mesmo assim, após as primeiras decisões favoráveis, a situação parecia estabilizada.
A reviravolta veio posteriormente.
Com a anulação da nomeação, Allison voltou a morar com os pais e passou a enfrentar novamente a necessidade de buscar uma fonte de renda.
“Estou, agora, no limbo. Não sei se volto na próxima semana ou daqui a três anos”, afirmou o professor ao CORREIO.
A situação também ganhou repercussão nas redes sociais, onde ele passou a receber mensagens de apoio e críticas.
Outros concursos também tiveram disputas envolvendo cotas
O caso da UFPE não é isolado.
Nos últimos anos, outras universidades federais também enfrentaram disputas judiciais relacionadas à reserva de vagas para candidatos negros em concursos para docentes.
Casos registrados na Universidade Federal da Bahia (UFBA), por exemplo, também levaram candidatos à Justiça para questionar nomeações relacionadas à política de cotas.
Essas disputas colocam em discussão não apenas a classificação dos candidatos, mas também a maneira como as universidades aplicam a legislação de ações afirmativas em concursos com número reduzido de vagas.
O que diz a UFPE sobre o caso?
A universidade afirmou que mantém seu compromisso com a implementação das políticas de ações afirmativas e com o cumprimento da legislação vigente.
Em posicionamento enviado ao CORREIO, a UFPE explicou que a anulação da nomeação de Allison não foi uma decisão administrativa da instituição, mas consequência do cumprimento de uma determinação judicial.
A universidade também destacou que, por se tratar de um processo judicial em andamento, não comenta o mérito da decisão nem as medidas processuais que podem ser adotadas.
A Procuradoria Federal junto à UFPE acompanha a questão dentro do próprio processo.
Caso ainda pode gerar novos capítulos
A disputa envolvendo Allison mostra como a aplicação das cotas raciais em concursos públicos pode acabar sendo levada aos tribunais, especialmente quando existe divergência sobre a distribuição das vagas.
No caso da UFPE, o professor chegou a assumir o cargo, ministrou aulas e permaneceu na universidade durante parte do ano.
Meses depois, uma decisão judicial alterou completamente o cenário.
Agora, a disputa continua no campo judicial, enquanto o professor tenta entender quando — ou se — poderá voltar à sala de aula.
O caso também mantém aberta uma discussão maior sobre a aplicação das ações afirmativas nos concursos para docentes das universidades federais.

