Deixar os dois filhos no Brasil para tentar construir uma nova vida no Reino Unido significou, para Sheyla, enfrentar uma rotina que começa cedo e pode se estender por até 14 horas por dia sobre uma motocicleta.
A brasileira trabalha com delivery pelas ruas de Londres e depende das entregas para pagar as próprias despesas no país e, ao mesmo tempo, enviar dinheiro para os dois filhos que continuam vivendo no Brasil.
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A história foi acompanhada pelo Profissão Repórter e mostra uma realidade marcada por longas jornadas, trânsito, custos de trabalho e uma responsabilidade financeira que atravessa o oceano.
Sheyla trabalha até 14 horas por dia com delivery em Londres

A rotina de Sheyla é baseada no trabalho por aplicativo. Durante boa parte do dia, ela permanece circulando pelas ruas de Londres para realizar entregas.
A jornada pode chegar a 14 horas, período em que a motocicleta se transforma praticamente em seu local de trabalho.
O dinheiro obtido com as entregas precisa cumprir mais de uma função. A brasileira precisa arcar com os custos de sua vida no Reino Unido e ainda reservar parte dos recursos para ajudar financeiramente os filhos que ficaram no Brasil.
É uma rotina que transforma cada hora disponível para trabalhar em uma oportunidade de gerar renda, mas também aumenta o tempo passado sobre a moto e exposto ao trânsito da capital britânica.
Quanto sobra do dinheiro recebido pelas entregas?
O valor recebido pelos aplicativos não representa necessariamente quanto o trabalhador consegue levar para casa.
Para uma motogirl, existem despesas diretamente relacionadas à atividade. Combustível, manutenção, pneus, seguro e outros custos ligados à motocicleta precisam ser considerados antes de calcular o resultado efetivo do trabalho.
A própria vida em Londres também exige recursos para despesas como moradia e alimentação.
No caso de Sheyla, existe ainda uma segunda frente financeira: os filhos permanecem no Brasil e recebem parte do dinheiro enviado pela mãe.
Assim, a renda obtida nas ruas de Londres precisa ser dividida entre as despesas da própria trabalhadora no Reino Unido e a manutenção da família que ficou a milhares de quilômetros de distância.
A motocicleta é o principal instrumento de trabalho
Para quem trabalha com delivery, a motocicleta não funciona apenas como meio de transporte.
Ela é uma ferramenta de trabalho utilizada durante praticamente todo o expediente. Quanto mais tempo a entregadora permanece disponível para receber pedidos, maior é a possibilidade de realizar novas corridas.
Existe, porém, uma consequência direta para a própria estrutura de trabalho.
Mais horas rodando significam também mais combustível consumido, maior desgaste do veículo e mais tempo enfrentando o trânsito.
Por isso, observar apenas quanto um entregador recebe pelos aplicativos não mostra toda a realidade financeira da profissão. É necessário considerar também quanto custa permanecer trabalhando.
Mais de 500 brasileiras fazem parte de uma rede de motogirls no Reino Unido
A história de Sheyla não acontece de forma isolada.
Segundo informações apresentadas pela Rede Globo, a paranaense Natasha Mendes, que trabalha com delivery em Londres há vários anos, criou em 2020 a página Motogirls UK.
A iniciativa acabou formando um grupo privado com mais de 500 brasileiras.
O espaço funciona como uma rede de troca de informações entre mulheres que trabalham ou pretendem trabalhar com entregas no Reino Unido.
Para quem chega ao país, esse tipo de contato pode ser especialmente relevante porque a atividade envolve questões que vão além da pilotagem, como funcionamento dos aplicativos, trânsito, documentação, regiões de atendimento e custos relacionados à motocicleta.
A existência de uma comunidade com centenas de brasileiras mostra que o delivery se tornou uma alternativa de trabalho para mulheres que vivem no Reino Unido.
Longas jornadas significam mais tempo exposta ao trânsito de Londres
Passar até 14 horas trabalhando sobre uma motocicleta também significa permanecer durante muitas horas em um ambiente de risco.
O trânsito de Londres reúne carros, ônibus, bicicletas e motocicletas em uma mesma rede viária. Para quem trabalha diariamente sobre duas rodas, a exposição é ainda maior justamente porque a circulação pelas ruas faz parte da própria atividade profissional.
Dados da Transport for London mostram que motociclistas representam uma parcela relativamente pequena do tráfego da cidade, mas aparecem de maneira desproporcional entre as vítimas de acidentes graves.
O órgão também desenvolveu iniciativas de segurança em parceria com empresas de delivery, incluindo plataformas como Uber Eats, Deliveroo e Just Eat.
A questão ganha ainda mais peso quando se considera a duração da jornada.
Uma pessoa que passa 12 ou 14 horas trabalhando nas ruas acumula muito mais tempo de exposição ao trânsito durante um único dia do que alguém que utiliza a motocicleta apenas para se deslocar.
A distância dos filhos aumenta o peso da rotina
O aspecto financeiro é apenas uma parte da história de Sheyla.
Os dois filhos continuam no Brasil enquanto ela trabalha em Londres. A decisão de tentar a vida no exterior, portanto, não significou apenas mudar de país, mas também manter uma responsabilidade familiar à distância.
Parte do dinheiro conquistado com as entregas precisa ser enviada para casa.
Isso cria uma dinâmica particular: a trabalhadora precisa gerar renda em libras para pagar suas próprias despesas no Reino Unido, enquanto também transforma parte desse dinheiro em apoio financeiro para a família que permanece no Brasil.
A distância geográfica não elimina a responsabilidade com os filhos. Pelo contrário, faz com que a renda produzida em Londres precise atender necessidades em dois países diferentes.
O que a história revela sobre brasileiras que trabalham com delivery em Londres?
A experiência de Sheyla permite observar diferentes aspectos do trabalho por aplicativo no Reino Unido ao mesmo tempo.
Existe a possibilidade de gerar renda, mas também estão presentes os custos da atividade, as longas jornadas, a exposição ao trânsito e a necessidade de manter uma estrutura de vida em um país onde as despesas são feitas em libras.
A criação da Motogirls UK também mostra outro lado dessa realidade: a formação de uma rede entre brasileiras que compartilham informações e experiências sobre o trabalho.
Não se trata apenas de uma história sobre entregas.
É também uma história sobre migração, trabalho, distância familiar e adaptação a um novo mercado profissional.
Deixar os filhos no Brasil e passar 14 horas sobre uma moto
A rotina de Sheyla chama atenção justamente pela combinação de fatores.
Ela deixou os dois filhos no Brasil para tentar a vida em Londres e encontrou no delivery uma forma de construir sua renda. Para isso, pode passar até 14 horas por dia trabalhando sobre uma motocicleta.
O dinheiro precisa cobrir sua vida no Reino Unido e ainda chegar aos filhos que ficaram no Brasil.
Ao mesmo tempo, cada dia de trabalho envolve combustível, manutenção, trânsito e horas de exposição nas ruas.
A história acompanhada pelo Profissão Repórter mostra, portanto, o que existe por trás de uma entrega que chega à porta de um cliente: para algumas trabalhadoras, aquela corrida faz parte de uma jornada muito maior, que envolve a tentativa de construir uma vida em outro país enquanto se mantém o compromisso com a família que ficou no Brasil.

