Aos 14 anos, jovem criou uma favela em miniatura de 450 metros quadrados com tijolos reaproveitados e bonecos e transformou a obra em atração internacional

Uma favela em miniatura de 450 m² nasceu com tijolos reaproveitados e bonecos e chegou ao cinema, museus e exposições internacionais.

A construção de uma favela em miniatura feita com tijolos quebrados, tinta e bonecos começou como uma brincadeira entre crianças de uma comunidade do Rio de Janeiro e acabou chegando ao cinema, a museus e a importantes exposições de arte fora do Brasil.

Casas coloridas, ruas estreitas, escadarias e becos ocupam um terreno inclinado no alto da comunidade do Pereirão, em Laranjeiras, no Rio de Janeiro. O cenário reproduz espaços como escola, comércio, campo de futebol e quadra de samba, mas tudo foi construído em escala reduzida.

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Trata-se do Projeto Morrinho, uma grande favela em miniatura instalada ao ar livre e distribuída por aproximadamente 450 metros quadrados. A estrutura representa diferentes aspectos da vida urbana e reúne personagens e situações inspirados no cotidiano dos moradores.

A história começou em 1998, quando Cirlan Souza de Oliveira tinha apenas 14 anos. A trajetória do projeto foi relatada pela Contemporary And (C&), publicação internacional voltada à arte contemporânea.

Uma brincadeira que começou no quintal da família

Cirlan iniciou a construção ao lado do irmão Maycon, que tinha 8 anos na época. Os dois utilizaram tijolos quebrados, tinta e outros materiais disponíveis para criar pequenas construções semelhantes às que faziam parte do ambiente em que viviam.

A ideia rapidamente despertou o interesse de outras crianças do Pereirão. O vizinho Ranieri entrou na brincadeira e levou outros cinco jovens. O grupo chegou a reunir oito participantes, que passaram a desenvolver juntos a construção.

Com o tempo, as estruturas ocuparam diferentes partes do terreno. Casas, caminhos e espaços coletivos foram sendo acrescentados entre árvores e desníveis naturais, fazendo com que a maquete ganhasse uma dimensão cada vez maior.

A proposta também deixou de ser apenas uma reprodução física da comunidade. Os participantes passaram a criar personagens, acontecimentos e conflitos baseados nas experiências observadas no próprio cotidiano.

Bonecos ganharam profissões, histórias e regras

Os tijolos foram utilizados para erguer casas, paredes, escadarias e outras construções. A pintura ajudava a diferenciar áreas da maquete, enquanto bonecos de Lego passaram a representar os moradores daquele universo.

Entre os personagens estão estudantes, comerciantes, músicos e agentes públicos. A estrutura também inclui espaços como escola de samba, creche, pequenos estabelecimentos comerciais, campo de futebol e locais de convivência.

Cada elemento participa de uma narrativa. Os personagens possuem características próprias e seguem regras definidas pelos criadores. Eles não podem realizar movimentos impossíveis, como voar, saltar grandes alturas ou se deslocar mais rápido que um automóvel.

Um dos participantes acompanha as cenas e interfere quando alguma ação ultrapassa os limites estabelecidos. Dessa maneira, a brincadeira busca manter uma lógica semelhante à realidade.

A construção acabou funcionando não apenas como maquete, mas como uma representação das relações existentes na comunidade. Por meio dos bonecos, os jovens passaram a encenar situações envolvendo trabalho, estudo, convivência e conflitos.

A favela em miniatura virou cenário para vídeos

A experiência ganhou uma nova dimensão em 2001, durante a produção do documentário “Morrinho, Deus sabe tudo, mas não é X 9”, dirigido por Fábio Galvão e Markão Oliveira.

Durante o projeto, os participantes tiveram contato com uma oficina de vídeo e aprenderam técnicas para trabalhar com câmeras. A partir daí, começaram a registrar as histórias encenadas dentro da maquete.

Foi desse processo que surgiu a TV Morrinho, responsável por produções audiovisuais feitas pelos próprios participantes.

Os vídeos costumam ter cerca de cinco minutos e combinam situações inspiradas na realidade, humor e elementos de ficção. As gravações utilizam a maquete como cenário, enquanto os jovens movimentam os personagens e criam suas vozes.

Segundo o relato publicado pela Contemporary And, a linguagem audiovisual foi desenvolvida a partir da própria comunidade. Assim, os moradores passaram a produzir suas próprias representações em vez de depender exclusivamente de imagens feitas por pessoas externas.

Oficinas ajudaram a levar o projeto para outros espaços

Com o crescimento do projeto, os integrantes passaram a realizar oficinas e atividades relacionadas à construção de maquetes, criação de personagens, elaboração de histórias e produção de vídeos.

A experiência permitiu que os participantes compartilhassem técnicas e mantivessem o caráter coletivo da criação. A cidade em miniatura não dependia de uma única pessoa: diferentes integrantes contribuíam para construir espaços, personagens e narrativas.

Essa característica também mudou a forma como a comunidade era apresentada ao público. Em vez de aparecer somente como cenário de produções realizadas por visitantes, o Pereirão passou a ser representado pelos próprios jovens que viviam ali.

Por isso, os materiais reaproveitados são apenas uma parte da história. O principal elemento do projeto está na autoria coletiva e na possibilidade de os moradores criarem uma interpretação própria do lugar onde vivem.

Projeto ganhou espaço em museus e exposições internacionais

O trabalho começou a receber convites para ser reproduzido em outros locais. Uma versão foi apresentada no Rio Design Center, em 2002, enquanto outra chegou ao Museu de Arte do Rio, em 2013.

A criação também ultrapassou as fronteiras brasileiras. Os participantes realizaram exposições na Europa, nos Estados Unidos e em países da América do Sul.

Em 2007, uma versão do Morrinho foi instalada nos jardins da 52ª Bienal de Arte de Veneza, ampliando a projeção internacional do projeto.

No mesmo período, o grupo também recebeu reconhecimento por suas produções audiovisuais. “O Saci no Morrinho” venceu o prêmio de melhor filme no Festival Visões Periféricas, realizado no Rio de Janeiro. Já “Acadêmicos do Morrinho” recebeu premiação no Festival Internacional de Curtas de São Paulo.

A trajetória fez com que a construção passasse a ser observada por diferentes perspectivas: como expressão artística, registro social e instrumento de comunicação.

O que começou em 1998, no quintal de uma família do Pereirão, cresceu até ocupar cerca de 450 metros quadrados e reunir uma representação detalhada da comunidade. A favela em miniatura deixou de ser apenas uma brincadeira infantil e passou a carregar histórias, personagens e situações criadas por seus próprios participantes.

Ao chegar ao audiovisual, às oficinas, aos museus e às exposições internacionais, o Projeto Morrinho manteve uma característica central: permitir que os próprios moradores representassem sua cidade, suas relações e seu cotidiano por meio de uma criação coletiva.

Guilherme Galhardo
Guilherme Galhardo
Redator, apaixonado pela cultura POP, luta-livre, games, séries e filmes, escreve sobre economia, serviços e cotidiano de cidades. Entusiasta de meteorologia e punk rocker nas horas vagas.
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