Nissan corta 20 mil empregos e prepara fim de 7 fábricas durante uma das maiores crises de sua história

A Nissan avança com plano que prevê 20 mil demissões e fechamento de 7 fábricas para cortar custos e recuperar a rentabilidade.

A Nissan colocou em prática uma das maiores reestruturações de sua história recente. A montadora japonesa pretende eliminar cerca de 20 mil postos de trabalho no mundo e reduzir sua estrutura industrial de 17 para apenas 10 fábricas, em uma tentativa de cortar despesas e recuperar a rentabilidade.

O plano representa uma redução equivalente a aproximadamente 15% da força de trabalho global da companhia e também prevê o encerramento, consolidação ou transferência de operações industriais em diferentes países.

LEIA TAMBÉM:

Algumas mudanças já foram concluídas. A Nissan encerrou a produção em unidades na Argentina e no México, enquanto fábricas tradicionais no Japão também receberam datas para deixar de fabricar veículos.

A reorganização foi acelerada depois de uma sequência de resultados negativos, perda de participação em mercados importantes e dificuldades principalmente nos Estados Unidos e na China. Apesar da dimensão dos cortes, os resultados mais recentes começaram a mostrar sinais de recuperação.

Nissan vai demitir 20 mil funcionários

A primeira versão do plano previa a eliminação de aproximadamente 9 mil empregos. Em maio de 2025, entretanto, a Nissan ampliou a redução e anunciou mais 11 mil cortes.

Dessa forma, a previsão chegou a 20 mil postos de trabalho eliminados em diferentes regiões e áreas da empresa.

A redução acontece de maneira gradual. Os cortes atingem departamentos administrativos, operações comerciais, logística e atividades industriais, além de mudanças na estrutura de gestão.

Na Europa, por exemplo, a empresa anunciou em maio de 2026 uma nova redução de aproximadamente 900 trabalhadores, equivalente a cerca de 10% do quadro regional considerado naquele processo.

Com a reorganização, a Nissan pretende operar com uma estrutura menor e menos custosa, buscando aumentar a margem de lucro mesmo diante de um volume de vendas inferior ao registrado em períodos anteriores.

Nissan reduz fábricas de 17 para 10 unidades

A reorganização da produção é outro ponto central do plano.

A Nissan estabeleceu como objetivo reduzir sua rede mundial de fabricação de 17 para 10 plantas. Isso significa retirar sete unidades da estrutura industrial global da companhia.

A capacidade anual também deve cair de aproximadamente 3,5 milhões para 2,5 milhões de veículos.

As sete fábricas não terão necessariamente o mesmo destino. Algumas serão fechadas, enquanto outras poderão ter suas atividades transferidas para instalações mais eficientes ou passar por mudanças de controle.

Parte desse processo já foi concluída, com unidades que deixaram de fabricar veículos definitivamente.

Fábrica da Nissan na Argentina encerrou produção

Uma das primeiras mudanças ocorreu na América do Sul.

A Nissan encerrou em outubro de 2025 a fabricação de veículos na unidade de Santa Isabel, na Argentina. O fim da produção foi posteriormente registrado pela própria companhia em seus documentos corporativos.

A instalação fazia parte da estrutura industrial utilizada pela montadora na região e havia começado a operar para a Nissan em 2018.

Com a decisão, a empresa reorganizou sua produção latino-americana e deixou de fabricar automóveis naquele complexo.

O encerramento demonstra que a redução da estrutura industrial não está restrita ao Japão ou aos mercados considerados menos estratégicos.

Nissan fecha fábrica histórica no México

Outro encerramento ocorreu em uma unidade que tinha grande importância na trajetória internacional da empresa.

Em março de 2026, a Nissan encerrou a produção na fábrica CIVAC, no México. A informação consta no relatório da montadora referente ao último exercício fiscal.

A unidade começou a produzir para a Nissan em 1966, em uma época em que a fabricante japonesa iniciava sua expansão industrial para fora do Japão.

Durante aproximadamente seis décadas, a fábrica produziu mais de 6,5 milhões de veículos.

Agora, a produção foi concentrada no complexo de Aguascalientes, também localizado no México.

O caso de CIVAC mostra a dimensão da reestruturação: uma fábrica com décadas de história foi retirada da operação para simplificar a rede produtiva da companhia.

Duas fábricas tradicionais do Japão também serão fechadas

O plano chegou ainda a instalações localizadas no país de origem da montadora.

A Nissan determinou que a fábrica de Shonan, administrada pela Nissan Shatai, deixe de produzir veículos até março de 2027. A unidade é especializada principalmente em veículos comerciais e tinha aproximadamente 1.200 funcionários.

Outra instalação afetada é a fábrica de Oppama, cuja produção deverá terminar até março de 2028.

Oppama começou a fabricar automóveis em 1961 e se tornou uma das unidades mais conhecidas da Nissan. Em seu período de maior atividade, chegou a ter cerca de 3.900 trabalhadores e capacidade para produzir aproximadamente 240 mil veículos por ano.

A fábrica também teve papel importante na história dos carros elétricos da empresa. Foi ali que a Nissan começou a produzir o Leaf em 2010.

Os fechamentos, portanto, atingem não apenas instalações secundárias, mas também unidades históricas da fabricante japonesa.

Por que a Nissan está fechando fábricas e cortando empregos?

A reestruturação foi desencadeada por uma deterioração significativa dos resultados financeiros da companhia.

No exercício encerrado em março de 2025, a Nissan registrou prejuízo líquido de aproximadamente 671 bilhões de ienes, valor que correspondia a cerca de US$ 4,5 bilhões naquele período.

O lucro operacional também sofreu forte queda, recuando 88%.

A situação permaneceu complicada no exercício seguinte. Encerrado em março de 2026, o período terminou novamente com prejuízo líquido, de 533,1 bilhões de ienes atribuídos aos acionistas.

As vendas globais também diminuíram 5,8%, chegando a aproximadamente 3,15 milhões de veículos.

A montadora enfrenta uma combinação de fatores. A concorrência de fabricantes chinesas aumentou, especialmente no mercado de veículos elétricos, enquanto a Nissan perdeu força em mercados considerados estratégicos.

Os Estados Unidos também se tornaram um mercado mais difícil, com pressão de custos e impactos relacionados às tarifas comerciais.

Além disso, a empresa não conseguiu concretizar uma possível fusão com a Honda. As negociações chegaram a avançar, mas foram encerradas sem que um acordo fosse firmado.

Plano da Nissan prevê corte de bilhões em custos

A reestruturação ganhou ainda mais força depois que Ivan Espinosa assumiu o cargo de CEO da Nissan, em abril de 2025.

O chamado plano Re estabeleceu uma meta de redução de aproximadamente 500 bilhões de ienes em custos.

Para alcançar esse objetivo, a montadora passou a revisar diferentes áreas de sua operação, desde a estrutura das fábricas até o desenvolvimento dos veículos.

A empresa também trabalha para diminuir a quantidade de componentes diferentes utilizados em seus modelos. A intenção é reduzir em aproximadamente 70% a complexidade do portfólio de peças.

Com plataformas e componentes compartilhados, a Nissan espera gastar menos tanto no desenvolvimento quanto na fabricação dos veículos.

A lógica por trás da estratégia é fazer com que a companhia consiga voltar a lucrar mesmo vendendo menos automóveis.

Brasil também foi atingido pela reestruturação

O Brasil também entrou no processo de redução de estruturas da Nissan.

A montadora decidiu fechar seu centro de design em São Paulo, como parte da reorganização mundial das atividades relacionadas ao desenvolvimento e desenho de veículos.

A empresa também encerrou as atividades de um centro na Califórnia e reduziu operações em Londres e no Japão.

No caso brasileiro, a Nissan não divulgou quantos postos de trabalho foram eliminados com o fechamento da unidade paulista.

Apesar disso, a decisão não representa o encerramento da operação industrial da montadora no país.

Fábrica da Nissan em Resende continua funcionando

Enquanto algumas unidades internacionais estão sendo fechadas, o complexo da Nissan em Resende, no Rio de Janeiro, permanece na estratégia produtiva da empresa.

A própria lista mundial de instalações da Nissan, atualizada em 2026, continua incluindo Resende entre suas unidades de produção.

O complexo brasileiro fabrica atualmente os modelos Nissan Kicks e Nissan Kait e recebeu investimentos significativos nos últimos anos.

A empresa concluiu um ciclo de R$ 2,8 bilhões em investimentos no Brasil, voltado principalmente à modernização da fábrica e à preparação da estrutura para novos veículos.

O Kait produzido em Resende também passou a atender outros países da América Latina. Em maio de 2026, a Nissan informou que o SUV fabricado no Brasil já era exportado para oito mercados da região.

Assim, até o momento, não existe anúncio de fechamento da fábrica brasileira ou de uma demissão em massa na unidade de Resende.

Nissan começa a registrar melhora nos resultados

Mesmo diante dos cortes, a Nissan começou a apresentar alguns sinais positivos em 2026.

No trimestre encerrado em junho, a empresa registrou 77,9 bilhões de ienes em lucro operacional, aproximadamente US$ 497 milhões.

No mesmo trimestre do ano anterior, a companhia havia registrado prejuízo operacional de 79,1 bilhões de ienes.

Esse foi o quarto trimestre consecutivo em que a Nissan apresentou lucro operacional.

O resultado também ficou muito acima da projeção média de analistas consultados pela LSEG, que apontava para um lucro de aproximadamente 7,5 bilhões de ienes.

A empresa atribuiu parte da melhora às medidas adotadas para reduzir despesas e simplificar sua estrutura.

Ainda assim, a recuperação está longe de estar concluída. Em agosto, a Nissan diminuiu em 5% sua previsão de vendas globais para o atual exercício, chegando a aproximadamente 3,15 milhões de veículos.

A situação na China é especialmente complicada. A previsão de vendas no país foi reduzida em 18%, para cerca de 580 mil unidades.

Nissan tenta completar uma das maiores reestruturações de sua história

A montadora japonesa ainda está no meio de uma transformação profunda.

Os 20 mil empregos previstos no plano não significam que todas as pessoas serão desligadas simultaneamente. O número corresponde à redução global planejada pela empresa, executada progressivamente em diferentes países, departamentos e operações.

O mesmo acontece com as sete fábricas. A meta é diminuir a estrutura industrial de 17 para 10 unidades, mas o processo envolve diferentes situações, incluindo encerramentos, consolidações e transferências de produção.

Algumas instalações já pararam de fabricar veículos, enquanto outras possuem datas estabelecidas para encerrar suas atividades.

Os primeiros resultados financeiros de 2026 sugerem que o controle de custos começa a produzir efeitos. Agora, o desafio da Nissan é conseguir transformar essa redução de despesas em uma recuperação sustentável justamente em um momento de forte avanço das fabricantes chinesas nos mercados de carros elétricos e híbridos.

Guilherme Galhardo
Guilherme Galhardo
Redator, apaixonado pela cultura POP, luta-livre, games, séries e filmes, escreve sobre economia, serviços e cotidiano de cidades. Entusiasta de meteorologia e punk rocker nas horas vagas.
MATÉRIAS RELACIONADAS

MAIS LIDAS