O jeito como uma pessoa anda pode parecer um detalhe sem importância no cotidiano, mas pesquisadores encontraram uma relação interessante entre a velocidade da caminhada e alguns traços de personalidade.
Um estudo publicado no periódico Social Psychological and Personality Science analisou dados de mais de 15 mil adultos, com idades entre 25 e 100 anos, e encontrou associação entre uma marcha mais rápida e características como maior extroversão e conscienciosidade, além de abertura à experiência em diferentes amostras.
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Isso não significa que toda pessoa que anda depressa seja automaticamente determinada, organizada ou produtiva. A pesquisa identificou uma associação estatística, e a velocidade da caminhada também sofre influência de fatores físicos, ambientais e relacionados à saúde.
O que a velocidade da caminhada tem a ver com a personalidade?
Caminhar é uma atividade cotidiana e, em grande parte, automática. Ainda assim, pesquisadores observaram que o ritmo habitual de deslocamento pode apresentar alguma relação com características individuais.
No estudo, pessoas que apresentavam determinados traços de personalidade tendiam a ter uma velocidade de caminhada maior.
A associação apareceu especialmente com a extroversão e a conscienciosidade, características relacionadas, respectivamente, à maior sociabilidade e a tendências como organização, persistência e orientação para responsabilidades.
Isso ajuda a explicar por que o jeito de andar pode funcionar como mais uma pequena pista sobre diferenças individuais.
Quem caminha rápido tende a ser mais organizado?
É preciso fazer uma distinção importante.
A pesquisa encontrou uma relação entre maior velocidade da marcha e conscienciosidade, um traço que costuma envolver características como organização, persistência, responsabilidade e orientação para objetivos.
Mas isso não significa que seja possível observar uma pessoa andando depressa e concluir que ela é organizada.
A personalidade é formada por um conjunto muito amplo de características, e a velocidade da caminhada é apenas um comportamento.
Por isso, a descoberta deve ser interpretada como uma tendência observada em grupos, e não como um teste capaz de identificar a personalidade de alguém.
Extroversão também apareceu entre os traços relacionados
Outro resultado consistente do estudo foi a associação entre velocidade mais alta da caminhada e extroversão.
Os pesquisadores analisaram cinco grandes conjuntos de dados e encontraram relações entre maior extroversão e uma marcha mais rápida em diferentes amostras.
A extroversão está relacionada a características como maior envolvimento social e busca por estímulos.
Isso não quer dizer, porém, que uma pessoa mais reservada necessariamente caminhe devagar.
Mais uma vez, trata-se de uma associação estatística encontrada entre características de grupos.
O estudo analisou mais de 15 mil adultos
Uma das partes mais interessantes da pesquisa é o tamanho da amostra.
Foram analisados mais de 15 mil adultos, com participantes entre 25 e 100 anos, reunidos a partir de cinco grandes estudos norte-americanos.
Os pesquisadores compararam informações sobre personalidade com dados relacionados à velocidade habitual de caminhada.
A análise permitiu observar que determinados traços estavam associados a diferenças no ritmo da marcha ao longo da vida adulta.
Os resultados foram considerados robustos pelos autores porque a associação apareceu em diferentes conjuntos de dados e também em uma metanálise.
Caminhar rápido significa estar sempre com pressa?
Não.
Esse talvez seja um dos pontos mais importantes para entender a descoberta.
Uma pessoa pode naturalmente ter uma velocidade de caminhada mais alta sem estar atrasada para algum compromisso.
Da mesma maneira, alguém pode andar lentamente porque está cansado, porque o ambiente exige um ritmo menor ou simplesmente porque esse é seu padrão habitual.
O estudo avaliou a velocidade da marcha e sua relação com características de personalidade. Ele não demonstrou que a pessoa estava com pressa ou tentando chegar mais rápido a algum lugar.
Idade também influencia o ritmo da caminhada
A relação entre personalidade e velocidade da marcha não acontece isoladamente.
A própria idade é um fator importante.
Em geral, a velocidade da caminhada tende a diminuir ao longo do envelhecimento. O estudo analisou justamente essa relação ao acompanhar diferentes grupos etários.
Os pesquisadores observaram que participantes com determinados traços apresentavam velocidades maiores e, em alguns dados, menor redução da velocidade ao longo do tempo.
Isso mostra por que não seria correto comparar simplesmente duas pessoas de idades diferentes e atribuir toda a diferença na caminhada à personalidade.
Outros fatores podem mudar completamente o jeito de andar
A personalidade é apenas uma parte da explicação.
Condições físicas, nível de atividade, idade, estado de saúde, características do ambiente e até o tipo de trajeto podem alterar a velocidade com que alguém caminha.
Uma pessoa saudável atravessando uma calçada livre, por exemplo, pode naturalmente andar mais depressa do que alguém caminhando em uma rua movimentada ou em uma superfície irregular.
Por isso, o estudo não propõe que a personalidade determine sozinha a velocidade da marcha.
O que é conscienciosidade?
A conscienciosidade é um dos grandes traços utilizados nos modelos científicos de personalidade.
Ela está associada a características como organização, persistência, responsabilidade e capacidade de manter o foco em tarefas e objetivos.
Foi justamente esse traço que chamou atenção em pesquisas sobre caminhada.
Um estudo anterior com adultos mais velhos também encontrou associação entre maior conscienciosidade e maior velocidade inicial da caminhada, além de menor perda dessa capacidade ao longo do tempo.
Isso não transforma o ritmo dos passos em um indicador definitivo de personalidade, mas acrescenta evidências de que comportamento e características individuais podem estar relacionados.
E a abertura para novas experiências?
A pesquisa com mais de 15 mil participantes também encontrou associação entre abertura à experiência e maior velocidade de caminhada em boa parte das amostras.
Esse traço costuma estar ligado a curiosidade, imaginação e interesse por novas experiências.
No entanto, a associação foi menos consistente do que aquelas observadas para extroversão e conscienciosidade.
Por isso, o estudo dá mais destaque justamente aos dois primeiros traços quando analisa a relação com a velocidade da marcha.
Quem caminha rápido é mais eficiente?
Não dá para afirmar isso apenas com base no estudo.
A ideia de que andar depressa significa ser mais eficiente, produtivo ou determinado é uma interpretação popular do comportamento.
O que a pesquisa realmente encontrou foi uma relação entre velocidade habitual da caminhada e determinados traços de personalidade.
Características como organização e persistência fazem parte da descrição da conscienciosidade, mas isso não significa que a velocidade dos passos possa ser usada para medir produtividade.
Uma pessoa pode andar devagar e ser extremamente eficiente, assim como alguém que atravessa a rua correndo pode estar apenas atrasado.
O jeito de andar pode dar uma pequena pista sobre a pessoa
A descoberta fica mais interessante quando entendida dessa maneira.
O caminhar rápido não funciona como um “teste de personalidade”, mas pode estar associado a determinados padrões individuais.
Quem apresenta maior extroversão ou conscienciosidade, por exemplo, mostrou maior tendência a uma velocidade de marcha mais alta nas pesquisas analisadas.
Isso significa que o corpo pode refletir, em alguma medida, características que também aparecem no comportamento cotidiano.
Ainda assim, uma única característica nunca é suficiente para definir uma pessoa.
Não é possível descobrir a personalidade apenas observando os passos
Ver alguém atravessar uma rua rapidamente não permite concluir que aquela pessoa é organizada, extrovertida ou determinada.
A velocidade da caminhada muda conforme o contexto e pode ser afetada por fatores que nada têm a ver com personalidade.
Por isso, o resultado deve ser entendido como uma relação observada em estudos populacionais.
A psicologia trabalha com probabilidades e tendências, e não com regras absolutas para classificar cada indivíduo.
Por que essa descoberta chama atenção?
Talvez justamente porque caminhar pareça um comportamento completamente automático.
As pessoas normalmente não pensam muito sobre a velocidade com que colocam um pé na frente do outro.
Mesmo assim, pesquisadores encontraram uma relação entre esse comportamento cotidiano e características psicológicas mensuradas por testes de personalidade.
O resultado reforça a ideia de que pequenos padrões do dia a dia podem estar relacionados a diferenças individuais mais amplas.
Mas também serve como lembrete de que comportamento humano dificilmente pode ser explicado por uma única característica.
Afinal, o que significa caminhar rápido?
No fim, caminhar rápido não significa simplesmente ser apressado.
Pesquisas indicam que pessoas com maior extroversão e conscienciosidade tendem a apresentar velocidades de caminhada maiores, enquanto outros fatores, como idade e condições físicas, também desempenham papel importante.
A descoberta é interessante justamente porque mostra uma possível conexão entre algo tão simples quanto o ritmo dos passos e características psicológicas mais amplas.
Mas existe uma diferença enorme entre dizer que uma característica está associada a outra e afirmar que uma causa a outra.
Portanto, da próxima vez que perceber alguém andando rapidamente pela rua, não significa que seja possível descobrir sua personalidade só pela velocidade.
O passo pode revelar uma pequena pista.
Quem essa pessoa realmente é, porém, continua sendo muito mais complexo do que o ritmo com que ela caminha.

