Pesquisa encontra parasitas em 96% dos atuns usados para fazer comida japonesa no Brasil; saiba se você deve se preocupar

Estudo da UFSC encontrou parasitas em 96% de 53 atuns analisados. Veja o que o resultado significa para quem consome comida japonesa.

Um estudo realizado por pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) encontrou parasitas em 96% dos 53 exemplares de bonito-listado analisados. O resultado chama atenção especialmente por envolver um peixe consumido em diferentes preparações e por levantar dúvidas sobre a segurança de pratos com pescado cru.

Mas existe uma diferença importante entre o que a pesquisa realmente mostrou e a interpretação que pode surgir ao ler o número isoladamente.

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Os cientistas analisaram uma amostra específica de peixes capturados no Atlântico Sul. Portanto, o resultado não significa que 96% de todo atum vendido no Brasil esteja contaminado nem que a maioria dos pratos de comida japonesa apresente automaticamente risco ao consumidor.

A pesquisa, publicada na revista Ocean and Coastal Research, identificou cerca de 1.600 parasitas nos peixes examinados. Uma parte deles estava no intestino, mas também foram encontrados organismos no estômago e no tecido muscular, região que merece atenção por corresponder à parte normalmente consumida.

O que o estudo encontrou nos atuns?

Os pesquisadores analisaram 53 exemplares de bonito-listado, espécie conhecida cientificamente como Katsuwonus pelamis e também chamada de atum-gaiado ou atum-bonito.

Os peixes foram capturados entre 2019 e 2021, em áreas do Atlântico Sul que incluíram a região do Rio da Prata, a plataforma continental da Argentina e águas próximas às Ilhas Malvinas.

Depois da captura, os exemplares foram congelados e encaminhados ao Laboratório de Sanidade de Organismos Aquáticos da UFSC, em Florianópolis.

No laboratório, os pesquisadores examinaram diferentes partes dos animais, como intestino, estômago, fígado, brânquias, olhos, gônadas e tecido muscular.

O resultado foi expressivo: 96% dos 53 peixes apresentaram alguma forma de parasitismo.

Quantos parasitas foram encontrados?

Ao todo, os pesquisadores contabilizaram aproximadamente 1.600 organismos parasitários.

A maior concentração estava no intestino, onde foram registrados 596 parasitas. Outros 441 estavam no músculo e 408 no estômago.

O dado sobre o tecido muscular é especialmente importante porque essa é justamente uma das partes do peixe que pode chegar ao prato.

Segundo a pesquisa, 58,5% dos exemplares apresentaram parasitas no músculo, o que ajuda a explicar por que o processamento e o controle sanitário do pescado são tão importantes.

Os pesquisadores identificaram organismos dos gêneros Anisakis e Rhadinorhynchus, além de vermes da ordem Trypanorhyncha.

Todo parasita encontrado no atum faz mal para seres humanos?

Não.

Esse é um dos principais cuidados ao interpretar o estudo.

A presença de parasitas em um peixe não significa automaticamente que aquele organismo seja capaz de infectar seres humanos. Diferentes espécies possuem ciclos biológicos distintos e apresentam riscos diferentes.

O gênero Anisakis, por exemplo, merece atenção porque algumas espécies podem provocar anisakíase e também reações alérgicas.

Já o Rhadinorhynchus encontrado na pesquisa não é apresentado pelos autores como um parasita zoonótico.

Portanto, simplesmente somar todos os organismos encontrados e classificá-los como “vermes perigosos” seria uma interpretação incorreta.

O que o Anisakis pode causar?

O Anisakis é conhecido por estar associado à anisakíase, uma infecção provocada pela ingestão de larvas vivas presentes em pescado cru ou insuficientemente cozido.

Segundo os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC), os sintomas podem incluir dor abdominal, náusea, vômito e diarreia. Algumas pessoas também podem apresentar manifestações alérgicas.

O risco é particularmente relevante quando o pescado é consumido sem um tratamento capaz de eliminar as larvas.

Por isso, pratos de comida japonesa preparados com peixe cru exigem atenção especial à origem e ao processamento do produto.

Sushi e sashimi são automaticamente perigosos?

Não.

O estudo não permite concluir que sushi ou sashimi sejam automaticamente perigosos.

A segurança depende de vários fatores, como espécie do peixe, origem, inspeção, manipulação, conservação e processos utilizados para controlar parasitas.

Estabelecimentos que trabalham profissionalmente com pescado cru precisam seguir procedimentos adequados de segurança alimentar.

Portanto, o simples fato de um prato conter peixe cru não significa que ele esteja contaminado.

Congelar o peixe ajuda a eliminar parasitas?

Sim, o congelamento adequado é uma das estratégias utilizadas para controlar parasitas em pescado destinado ao consumo cru.

Mas existe uma diferença importante entre um processo profissional controlado e simplesmente colocar o peixe em um freezer doméstico.

A eficácia depende da temperatura, do tempo e das características do produto. Por isso, não se deve presumir que qualquer congelamento caseiro produza automaticamente o mesmo efeito de um protocolo profissional.

Em estabelecimentos especializados, esses procedimentos fazem parte do controle de segurança do alimento.

Limão mata os parasitas do peixe cru?

Não se deve tratar o limão como substituto de um processo adequado de segurança.

Preparações como ceviche utilizam ingredientes ácidos que alteram a textura e o sabor do peixe, mas a acidez de uma marinada não deve ser considerada equivalente aos tratamentos recomendados para controlar parasitas.

O mesmo vale para vinagre, sal ou outros ingredientes usados em preparações culinárias.

Quando o objetivo é reduzir o risco de parasitas em pescado destinado ao consumo cru, o controle deve ocorrer por métodos apropriados de processamento e conservação.

E o atum enlatado, oferece o mesmo risco?

Não é correto colocar o atum cru e o atum enlatado exatamente na mesma categoria.

A produção industrial de conservas envolve tratamento térmico capaz de inativar organismos vivos. Portanto, encontrar parasitas em peixes analisados antes do processamento não significa que existam larvas vivas na maioria das latas disponíveis nos supermercados.

Esse é um dos motivos pelos quais o número de 96% precisa ser interpretado dentro do contexto do estudo.

O resultado demonstra a frequência de parasitismo encontrada naquela amostra específica de peixes — não a presença de parasitas vivos em produtos industrializados prontos para consumo.

Parasitas podem chegar ao músculo do atum?

Podem.

Os parasitas fazem parte dos ecossistemas marinhos e participam de complexos ciclos alimentares.

Alguns organismos passam por diferentes hospedeiros ao longo da vida. No caso do Anisakis, mamíferos marinhos participam do ciclo, enquanto peixes e outros animais podem atuar como hospedeiros intermediários.

Depois que o peixe é capturado, determinadas larvas podem migrar das vísceras para outros tecidos.

É justamente por isso que os pesquisadores destacam a importância da evisceração rápida, da conservação correta e da cadeia de frio.

Por que retirar as vísceras rapidamente pode ajudar?

A retirada das vísceras reduz a possibilidade de alguns parasitas migrarem para outros tecidos depois que o peixe morre.

Esse cuidado começa ainda na cadeia de produção e não depende exclusivamente do consumidor final.

Pesca, armazenamento, transporte, processamento, inspeção e preparo fazem parte da segurança do pescado.

Quando essas etapas são realizadas corretamente, o risco de exposição do consumidor pode ser reduzido.

O número de 96% significa que quase todo atum brasileiro está contaminado?

Não.

Esse talvez seja o ponto mais importante para interpretar corretamente a pesquisa.

Os cientistas examinaram 53 peixes de uma espécie específica, capturados em determinadas áreas e durante um intervalo de tempo definido.

Portanto, não seria correto transformar esse resultado em uma estimativa de que 96% de todo o atum vendido no Brasil possui parasitas.

Estudos desse tipo servem para identificar padrões, espécies e potenciais riscos, mas a extrapolação para toda a produção brasileira exige pesquisas com amostras muito maiores e diferentes origens.

Por que o estudo chama atenção para a comida japonesa?

Porque parte das preparações populares de comida japonesa utiliza pescado cru ou pouco processado termicamente.

Sushi, sashimi e outros pratos podem depender de procedimentos específicos de conservação e controle de parasitas para garantir a segurança.

Isso não significa que o consumidor deva abandonar esses alimentos.

O resultado da pesquisa reforça, principalmente, a importância de escolher estabelecimentos confiáveis e de assegurar que o pescado tenha passado pelos procedimentos adequados antes de chegar ao prato.

Como consumir peixe cru com mais segurança?

A origem do pescado é um dos primeiros pontos a observar.

É recomendável comprar alimentos de estabelecimentos confiáveis, que mantenham os produtos refrigerados ou congelados adequadamente e adotem boas práticas de manipulação.

No caso de comida japonesa, também é importante verificar a reputação do restaurante e as condições de armazenamento e preparo observadas no estabelecimento.

Para quem prepara peixe cru em casa, é importante utilizar produtos apropriados para esse tipo de consumo e seguir as orientações sanitárias correspondentes.

Cozinhar o pescado reduz o risco?

Sim.

O cozimento adequado é uma das formas mais eficazes de eliminar parasitas vivos.

O CDC recomenda que peixes atinjam aproximadamente 63°C no centro para garantir um cozimento seguro. (cdc.gov)

Além disso, a temperatura precisa ser atingida na parte interna do alimento, e não apenas na superfície.

Por isso, uma preparação que fica parcialmente crua pode apresentar condições diferentes de uma peça completamente cozida.

Parasitas mortos ainda podem causar problemas?

Em algumas situações, sim.

O estudo destaca que determinadas proteínas relacionadas ao Anisakis podem permanecer mesmo depois da morte do parasita e do processamento.

Isso é particularmente relevante para pessoas que já apresentam sensibilização alérgica a componentes do organismo.

Nesse caso, eliminar o parasita vivo não significa necessariamente eliminar todo potencial de reação alérgica.

Essa possibilidade, porém, não significa que qualquer peixe contendo vestígios de Anisakis vá provocar uma reação.

Quais sintomas merecem atenção depois de comer peixe cru?

Dor abdominal forte, náusea, vômitos e diarreia podem aparecer em quadros de anisakíase, segundo o CDC. Reações alérgicas também podem ocorrer. (cdc.gov)

Sinais como dificuldade para respirar, inchaço ou uma reação alérgica intensa exigem atendimento médico imediato.

Também é importante informar ao profissional de saúde que houve consumo de pescado cru ou malcozido, já que essa informação pode ajudar na investigação da causa dos sintomas.

O estudo pede que as pessoas parem de comer atum?

Não.

A pesquisa não conclui que as pessoas devam deixar de consumir atum.

O que ela mostra é que parasitas são encontrados com frequência em determinada população de bonito-listado analisada e que alguns deles podem apresentar relevância para a saúde humana.

Essa informação reforça a necessidade de fiscalização, processamento adequado, controle da cadeia de frio e boas práticas de manipulação.

O caminho não é interpretar o resultado como motivo para pânico, mas entender como a segurança do pescado deve funcionar.

Por que novas pesquisas são importantes?

A pesquisa analisou apenas uma amostra específica de 53 peixes.

Novos estudos podem ajudar a entender como a frequência de parasitas varia de acordo com região, estação, tamanho dos animais, condições ambientais e outros fatores.

Também podem aprofundar a identificação dos organismos encontrados e sua importância para a saúde pública.

Quanto maior a quantidade de informações disponíveis, mais precisa tende a ser a avaliação dos riscos associados ao consumo de diferentes espécies de pescado.

Comida japonesa precisa de atenção, mas não de pânico

A descoberta de parasitas em 96% dos atuns analisados é um dado que naturalmente chama atenção, mas precisa ser colocado em contexto.

O estudo da UFSC foi realizado com 53 exemplares de bonito-listado, capturados em determinadas regiões do Atlântico Sul. Ele não representa automaticamente todo atum consumido no Brasil.

O resultado, porém, reforça uma questão importante para quem gosta de comida japonesa: o controle do pescado precisa começar muito antes de ele chegar ao prato.

A correta conservação, a cadeia de frio, a inspeção, a evisceração e os processos destinados ao consumo cru são fundamentais para reduzir riscos.

Assim, a principal mensagem da pesquisa não é que sushi, sashimi ou atum devam ser evitados indiscriminadamente. É que pescado cru exige controle rigoroso, e a qualidade do processamento pode ser tão importante quanto a qualidade do peixe escolhido.

Guilherme Galhardo
Guilherme Galhardo
Redator, apaixonado pela cultura POP, luta-livre, games, séries e filmes, escreve sobre economia, serviços e cotidiano de cidades. Entusiasta de meteorologia e punk rocker nas horas vagas.
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