Imagine passar por uma blitz de trânsito, apresentar sinais de desorientação e acabar sendo suspeito de dirigir sob efeito de álcool. Agora imagine que, na verdade, o problema seja uma queda grave da glicemia.
É justamente para situações desse tipo que um projeto de lei em análise na Câmara dos Deputados propõe criar o teste de glicemia em blitz de trânsito como uma ferramenta complementar durante as fiscalizações.
LEIA TAMBÉM:
- Justiça diz “SIM” e Nubank, Itaú, Caixa e Banco do Brasil estão autorizados a bloquear contas de clientes endividados
- Açougeira tentou “fazer a boa” para amigos, pesava carnes nobres com códigos de produtos mais baratos e acabou demitida por justa causa; Ela entrou na Justiça para tentar reverter a decisão, mas acabou se surpreendendo com “uma mão na frente e outra atrás”
- Nova Carteira de Identidade Nacional será obrigatória no INSS; veja o calendário e quem precisa se preparar
O PL 3266/2026, apresentado pelo deputado Josivaldo JP (União-MA), prevê a disponibilização de aparelhos para medir a glicose capilar durante abordagens de trânsito. A proposta ainda está em análise e não mudou as regras atuais das blitzes no Brasil.
Por que o teste de glicemia pode ser usado em uma blitz?
A hipoglicemia ocorre quando a quantidade de glicose no sangue cai para níveis abaixo do adequado. Em determinados casos, a alteração pode provocar sintomas que chamam a atenção durante uma abordagem de trânsito.
Segundo a Sociedade Brasileira de Diabetes, a hipoglicemia pode causar tremores, suor, tontura, confusão mental, sonolência, visão embaçada e dificuldade de concentração. Nos casos mais graves, pode haver convulsão e perda de consciência.
A diretriz da SBD também aponta que alterações glicêmicas podem afetar a capacidade de dirigir. Em um estudo citado pela entidade, 52% dos motoristas com diabetes tipo 1 avaliados relataram incidentes de trânsito associados a hipoglicemias moderadas ou graves.
Por isso, uma pessoa que apresenta sinais semelhantes aos de embriaguez durante uma fiscalização pode, em determinadas situações, estar enfrentando uma emergência relacionada à glicemia.
Como funcionaria o teste de glicemia em blitz de trânsito?
De acordo com o projeto, o exame seria feito por meio de uma pequena amostra de sangue retirada da ponta do dedo.
A proposta prevê que o teste possa ser oferecido em situações nas quais existam sinais de alteração da glicemia. A medida também poderá ser considerada quando o bafômetro indicar ingestão de álcool, mas o motorista negar o consumo.
O uso do aparelho dependeria do consentimento do motorista, segundo a própria Câmara dos Deputados.
O projeto deixa claro ainda que a medição de glicose seria uma ferramenta complementar. Ela não substituiria os procedimentos utilizados atualmente para verificar a presença de álcool ou outras substâncias.
O teste substituiria o bafômetro?
Não.
O projeto não propõe acabar com o bafômetro nem trocar a fiscalização de álcool por uma medição de glicose.
A ideia é acrescentar outra ferramenta à abordagem para situações nas quais os sinais apresentados pelo motorista possam ter relação com uma alteração glicêmica.
Segundo a Câmara, o autor do projeto afirma que o teste funcionaria como um recurso complementar aos procedimentos de fiscalização já existentes.
O motorista seria obrigado a furar o dedo?
Pelo texto divulgado pela Câmara, não.
A proposta estabelece que a utilização do dispositivo dependerá do consentimento do motorista. Portanto, o projeto não prevê simplesmente que todo condutor parado em uma blitz será obrigado a realizar o teste.
A medida seria direcionada a situações nas quais houvesse algum motivo para suspeitar de alteração da glicemia.
O que aconteceria se a glicemia estivesse muito baixa?
O projeto também prevê capacitação dos agentes para reconhecer sinais de alteração nos níveis de glicose e adotar procedimentos voltados ao atendimento médico.
Isso é importante porque uma hipoglicemia grave não é apenas uma questão relacionada à fiscalização. Segundo a SBD, episódios graves podem provocar alterações mentais ou físicas que exigem auxílio de outra pessoa e, em situações mais severas, atendimento de emergência.
Dessa forma, a proposta pretende que uma eventual alteração identificada durante a abordagem também possa servir de alerta para uma possível emergência médica.
Resultado do teste seria protegido?
Sim. O projeto estabelece tratamento específico para as informações obtidas durante a aferição.
De acordo com a Câmara dos Deputados, os dados coletados no teste seriam considerados dados pessoais sensíveis e deveriam seguir as regras de proteção de dados.
A proposta também prevê capacitação dos agentes para utilizar os aparelhos e reconhecer sinais relacionados a alterações da glicose.
Em que ponto está o projeto?
O PL 3266/2026 ainda não virou lei.
A proposta foi apresentada em junho de 2026 e atualmente aguarda a designação de relator na Comissão de Saúde. Depois, deverá passar pelas comissões de Saúde, de Viação e Transportes e de Constituição e Justiça e de Cidadania.
A Câmara informa que a proposta está sujeita à apreciação conclusiva das comissões. Para se transformar em lei, ainda precisará avançar no processo legislativo e ser aprovada conforme as etapas previstas.
Por enquanto, portanto, o teste de glicemia em blitz de trânsito não faz parte da rotina nacional de fiscalização.
A proposta apenas abre a discussão sobre a possibilidade de usar uma medição rápida da glicose para diferenciar, em determinadas situações, uma possível emergência médica de sinais que poderiam ser confundidos com embriaguez.

