Na madrugada de sexta-feira, do dia 3 para 4 de maio de 2024, a vida do morador do bairro Mathias Velho, Alex Arlindo Abel, de 51 anos, e de toda a cidade de Canoas mudaria completamente. Motivado pelos alertas de enchente iminente, Alex retirou sua família do bairro Mathias Velho e enviou para a casa do irmão, no bairro Guajuviras. A evacuação foi feita na noite de sexta-feira.
Durante a madrugada, o impossível aconteceu. O bairro Mathias Velho, o maior da cidade, foi completamente tomado pela água. Junto de todo o lado oeste de Canoas — cerca de 60% do município.
Alex, que havia atuado como voluntário nas enchentes de Roca Sales e Muçum e na tragédia de Brumadinho, em Minas Gerais, retornou ao bairro e instalou-se no viaduto da Avenida Rio Grande do Sul, também conhecido como Viaduto do Mathias Velho.
Morando em um contêiner, o voluntário virou um dos organizadores dos resgates junto a autoridades e desabrigados que haviam ficado para ajudar.
Foi o começo de uma missão que durou 25 dias. Durante esse tempo, foram inúmeros os resgates de pessoas, animais, histórias de tragédia e superação do povo canoense em meio à água que demorou a baixar. Histórias não contadas que agora serão eternizadas no livro “Maio, dias sem fim: O povo pelo povo”.

No livro, Alex retrata em 32 capítulos os dias em que morou no viaduto. Cita a logística dos resgates, a atuação de voluntários vindos de todas as partes do Brasil e a coragem e solidariedade quase infinitas dos moradores de Canoas, que mesmo tendo perdido tudo, ajudaram durante todo o período em que a água esteve presente no bairro.
O texto também conta histórias que ocorreram em abrigos e foca na reconstrução do bairro no pós-enchente.
Em entrevista à Agência GBC, Alex destaca a importância da organização e do senso de coletividade dos moradores e autoridades de Canoas para com os resgates.
“Ali eu acabei agregando funções, agregando responsabilidades que foram vindo ao natural porque a gente foi assumindo a responsabilidade. Eu não fiz nada sozinho. A gente não faz nada sozinho. Aquilo ali foi um conjunto de muitas pessoas, cada um dentro de uma limitação e uma organização, a gente conseguiu fazer com que as coisas fossem fluindo”, afirma.
Do viaduto, Alex coordenava resgates, a entrada e saída de barcos no bairro, triagem de insumos, além do recebimento e encaminhamento de doações para abrigos locais.

“Isso me marcou muito. Até hoje eu me lembro da cena dele, um dia de muita chuva, ele escorado no barco já com o corpo do pai dele enrolado naquele cobertor térmico.“
Os resgates
Questionado, Alex diz não ter dimensão de quantos foram os resgates realizados durante o mês em que coordenou as ações. Mas lembra da urgência nos salvamentos nos primeiros dias da tragédia e da falta de noção do tamanho do acontecimento.
“Como a gente não tinha noção de tudo aquilo. Como que ia ser? A gente imagina que a água vem e vai embora na mesma proporção que ela veio”, disse Alex.
“Ela ficou (a água da enchente), permaneceu, teve o repique para depois ela ir embora. Então foram muitas etapas. Nas primeiras etapas a gente tentou tirar o máximo de pessoas que estavam ali dentro”.
Para Alex, a rápida organização da população foi essencial durante a primeira semana da enchente, pois evitou que a tragédia fosse ainda maior. No entanto, ele também destaca a ajuda das autoridades municipais, estaduais e federais na cooperação dos resgates.


De acordo com a Defesa Civil do Rio Grande do Sul, a enchente na cidade de Canoas foi a mais letal do estado. No total, foram 31 vítimas. Ao todo, 185 pessoas perderam a vida em decorrência das enchentes no RS e 23 estão desaparecidas.
Momento difícil
Em meio à tragédia, Alex fala de um momento marcante. O caso de um homem, também chamado Alex, que ao saber da enchente foi até o bairro Mathias Velho para resgatar o pai. Com o auxílio de um barco, ele entrou no bairro para realizar o salvamento.
No entanto, o pai já havia falecido. Alex trouxe apenas o corpo enrolado em um cobertor térmico. Alex Abel lembra, de forma vívida, o momento em que atestaram a morte da primeira e única vítima que passou pelo viaduto do Mathias Velho.
“Isso me marcou muito. Até hoje eu me lembro da cena dele, um dia de muita chuva, ele escorado no barco já com o corpo do pai dele enrolado naquele cobertor térmico. Esperando as autoridades buscarem. E como foi o único corpo que nós retiramos dali, o silêncio pairou, a gente só escutava o barulho da chuva caindo. Todo mundo num silêncio total. Aquilo ali marcou muito”, recorda Alex.
Apesar da morte, o homem que foi em busca do pai ficou no local para ajudar com os resgates. “O que a gente precisa fazer?”, questionou o homem a Alex. Ele permaneceu ajudando no viaduto até a água baixar.

Cada um ajuda à sua maneira
Em meio aos momentos difíceis, destacava-se a ajuda voluntária daqueles que não conseguiam resgatar, mas que ajudavam à sua maneira.
Alex cita seu Antônio, que aos 78 anos prestava apoio à equipe de resgate levando galões de água mineral retirada do poço que tinha na sua casa e que levava pessoalmente para os voluntários.
Seu Luiz, ajudava a limpar o viaduto. Todas as manhãs, às 6 horas, varria, limpava e tirava o lixo, deixando tudo pronto para as equipes iniciarem o trabalho.
Alex confirma e reafirma que em nenhum momento buscou destaque durante as enchentes com a intenção de se lançar na política. Para ele, a tragédia mostrou o melhor e o pior de cada pessoa. E que seu único intuito foi o de ajudar.
“Eu acredito que Deus não te coloca em um lugar onde tu não tenha que estar. Se a gente tava ali, se todos nós estávamos ali passando por tudo aquilo ali, era porque era para nós passarmos e era porque nós iríamos conseguir enfrentar tudo aquilo”, conclui Alex.

Homenagem
No dia 12 de setembro de 2024, Alex Abel recebeu o prêmio Martin Luther King Jr e o título de Diplomata Civil e Capelão Civil pela Jethro Internacional, pelo trabalho realizado durante a enchente.
A Jethro é uma organização que trabalha com diplomacia civil humanitária e atua no Brasil e no mundo, capacitando líderes para desenvolver projetos sociais e humanitários.

Nem lado “A” nem lado “B”
Segundo o voluntário, é difícil apontar culpados pela tragédia. Posição que ele defende no livro. Alex enfatiza que a obra é uma homenagem aos voluntários anônimos e às vítimas. Além de ser um registro histórico dos fatos ocorridos e da união, solidariedade e resiliência dos moradores de Canoas.
“O livro não fala de política, o livro não fala de culpados, ele não fala de lado A, lado B. O livro fala sobre a importância das pessoas que foram resgatadas e de muitas que continuaram ajudando”, afirma.
Expectativa
Segundo Alex, o livro é de fácil leitura, “Maio, dias sem fim: O povo pelo povo” foi escrito a partir de relatos e histórias do povo, para ser lido pelo povo. Para o morador que perdeu sua casa ao empresário que viu seu negócio afundar com a água. De acordo com o autor, a intenção é eternizar todas as pessoas que vivenciaram a enchente.
“Eu tenho certeza que as pessoas vão gostar de ler o livro, de leitura fácil, dividida entre capítulos, contando histórias. Desde o cidadão que perdeu ali a sua televisão, sua bicicleta, sua casa, perdeu família, até o grande empresário que perdeu uma rede de lojas.”
Lançamento do livro
“Maio, dias sem fim: O povo pelo povo” será lançado no dia 26 de junho, no restaurante Gran Armazém, localizado na Av. Dr. Sezefredo Azambuja Vieira, 851 no bairro Marechal Rondon, em Canoas.
O livro tem o apoio de empresas atingidas pela enchente em Canoas e todo o valor arrecadado será destinado a instituições que ajudam vítimas da tragédia a reconstruírem suas vidas.
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