Três tornados atingiram o Sul do Brasil em apenas 12 dias, dois deles no Rio Grande do Sul e outro no Paraná. Apesar da sequência recente, o período de maior atenção para o fenômeno ainda não teria chegado, segundo avaliação de um meteorologista da MetSul.
Para Luiz Nachtigall, os tornados registrados nas últimas semanas não devem ser vistos como uma sequência que chegou ao fim. A avaliação leva em consideração o cenário atmosférico previsto para os próximos meses, principalmente com a aproximação da primavera.
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Isso não significa que haverá necessariamente uma sequência contínua de tornados. Esses fenômenos são extremamente localizados e não podem ser previstos com precisão com muitos dias ou semanas de antecedência. O que pode ser analisado é o ambiente atmosférico e o potencial para a formação de tempestades severas.
Tornados no Sul do Brasil podem aumentar nos próximos meses
O primeiro dos três tornados recentes ocorreu em 28 de julho, no Noroeste do Rio Grande do Sul. O fenômeno atingiu três municípios e foi classificado pela MetSul como F3, com ventos estimados de até 300 km/h.
Poucos dias depois, em 6 de agosto, outro tornado atingiu Pedro Osório, no Sul gaúcho. O fenômeno foi classificado como F2, com ventos estimados de até 200 km/h.
A sequência teve ainda um terceiro registro. Em 9 de agosto, um tornado atingiu Piraí do Sul, no Paraná, ampliando para três o número de ocorrências no Sul do Brasil em apenas 12 dias.
Para Nachtigall, dois tornados em menos de dez dias no Rio Grande do Sul não são algo corriqueiro. Da mesma forma, três ocorrências no Sul do Brasil em um período tão curto chamam atenção.
Isso não significa, porém, que os tornados sejam um fenômeno novo na região. Eles fazem parte da climatologia do Sul do Brasil e já ocorreram diversas vezes ao longo dos anos.
Por que o Sul do Brasil é favorável a tornados
A região Sul está entre as áreas mais favoráveis do planeta à formação de tempestades severas.
Um dos motivos é a combinação frequente entre ar quente e úmido e massas de ar frio que avançam pelo continente a partir da Argentina.
Quando essas massas de características diferentes se encontram, a atmosfera pode apresentar condições de grande instabilidade.
A situação se torna ainda mais favorável à formação de tempestades organizadas quando existe forte cisalhamento do vento, especialmente associado a correntes de jato de baixos níveis.
Esse conjunto de fatores pode contribuir para o desenvolvimento de células de tempestade capazes de produzir fenômenos severos, incluindo granizo, vendavais e tornados.
Por isso, segundo a avaliação do meteorologista da MetSul, os três eventos recentes não devem ser analisados apenas como acontecimentos isolados.
El Niño pode aumentar a atenção para as tempestades
Outro fator importante para os próximos meses é o El Niño.
O fenômeno climático não produz tornados diretamente e não existe uma relação automática entre a ocorrência de El Niño e a formação de tornados. No entanto, ele pode modificar padrões de circulação atmosférica e favorecer determinadas combinações de calor, umidade, instabilidade e vento.
Segundo Nachtigall, o El Niño deste ano apresenta intensidade excepcional e pode contribuir para um cenário de maior atenção às tempestades no Sul do Brasil.
Cada sistema meteorológico terá suas próprias características. Algumas ondas de instabilidade podem provocar apenas chuva, enquanto outras podem produzir granizo e vendavais.
Em determinados casos, quando a atmosfera apresenta condições ainda mais favoráveis, podem se formar tempestades supercelulares capazes de gerar tornados.
Primavera aumenta o risco de tempestades severas
A aproximação da primavera também é um fator importante para entender a avaliação sobre os tornados no Sul do Brasil.
Embora o inverno seja capaz de produzir tempestades violentas, como demonstraram os eventos recentes, a chegada de setembro, outubro e novembro tende a aumentar a disponibilidade de calor e umidade na atmosfera.
Esses dois elementos funcionam como combustível para o desenvolvimento de tempestades.
Quando o calor e a umidade encontram frentes frias, áreas de baixa pressão, jatos de baixos níveis e forte cisalhamento do vento, a atmosfera pode apresentar condições para tempestades altamente organizadas.
É justamente essa combinação que faz da primavera um período de atenção especial para o tempo severo no Sul do Brasil.
Meteorologista alerta que não é possível prever tornados com semanas de antecedência
Apesar da preocupação com os próximos meses, Nachtigall ressalta que não é possível afirmar que o Rio Grande do Sul ou qualquer outra área do Sul do Brasil terá tornados constantes.
Uma previsão desse tipo não seria cientificamente correta.
Os tornados são fenômenos muito localizados e a Meteorologia não consegue determinar com semanas de antecedência exatamente onde e quando um deles irá tocar o solo.
O que os meteorologistas conseguem fazer é identificar períodos em que a atmosfera apresenta maior potencial para tempestades severas e, a partir disso, acompanhar individualmente cada sistema que se aproxima.
Assim, a afirmação de que a pior fase ainda está por vir não significa que haverá necessariamente um número recorde de tornados.
A avaliação é de que o ambiente atmosférico dos próximos meses pode ser mais favorável a tempestades severas e trazer mais ocorrências de tornados do que o habitual.
Tornados hoje são mais registrados do que no passado
Outro ponto destacado na análise é que atualmente os tornados são registrados com muito mais frequência do que décadas atrás.
A popularização dos celulares e das câmeras, além do aumento do interesse da população por fenômenos meteorológicos, permite que ocorrências sejam documentadas praticamente no momento em que acontecem.
No passado, um tornado que atingisse uma área rural ou pouco habitada poderia não deixar registros visuais e acabar sem uma documentação adequada.
Por isso, o aumento na quantidade de registros também precisa ser considerado ao comparar a ocorrência de tornados no Sul do Brasil atualmente com períodos anteriores.
O cenário atmosférico, entretanto, merece atenção especial nos próximos meses, principalmente com a aproximação da primavera e a continuidade de condições que podem favorecer episódios de tempo severo.

