Foram oito anos de cuidados até uma cerca-viva plantada na divisa entre dois terrenos se transformar em uma verdadeira parede verde. A intenção era simples: ganhar privacidade e impedir que a área da piscina ficasse exposta para a rua.
O problema apareceu quando os galhos e as raízes começaram a avançar para o terreno vizinho.
Ao voltar para casa, o casal encontrou a lateral da cerca-viva completamente cortada. O vizinho alegou que vinha enfrentando problemas provocados pelas raízes e pelos ramos que ultrapassavam a divisa.
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A situação parece apenas uma discussão entre vizinhos, mas existe uma regra específica no Código Civil para esse tipo de problema.
O que aconteceu com a cerca-viva depois de oito anos?
A história envolve Tadeu e Renata, personagens fictícios usados para representar uma situação que pode acontecer em diferentes imóveis.
O casal comprou pequenas mudas e plantou a cerca-viva na divisa do terreno. Durante anos, os dois cuidaram das plantas, fizeram podas e replantaram alguns trechos até conseguir formar uma barreira verde.
Com o crescimento da vegetação, a cerca passou a cumprir exatamente a função esperada: garantir mais privacidade para a área da piscina.
O problema é que uma planta próxima da divisa não cresce necessariamente respeitando os limites imaginários do terreno.
Galhos podem avançar para o outro lado, enquanto raízes podem se espalhar pelo solo vizinho.
O vizinho pode cortar os galhos que invadem seu terreno?
Em determinadas circunstâncias, sim.
O artigo 1.283 do Código Civil estabelece que o proprietário de um imóvel pode cortar as raízes e os ramos de árvores que ultrapassarem a divisa e avançarem para o seu terreno, até o plano vertical que corresponde à linha divisória entre os imóveis.
Isso significa que existe uma autorização legal para resolver o problema causado pela vegetação que ultrapassa o limite da propriedade.
Mas existe uma diferença importante entre cortar a parte que avançou para o próprio terreno e destruir a vegetação que permanece no imóvel vizinho.
O direito previsto no Código Civil está relacionado justamente àquilo que ultrapassou a divisa.
E se a cerca-viva estiver exatamente na divisa?
A situação pode ficar ainda mais delicada.
O próprio Código Civil estabelece uma presunção específica para as sebes vivas utilizadas para dividir propriedades: em determinadas circunstâncias, elas são consideradas pertencentes aos dois confinantes.
Isso significa que uma cerca-viva utilizada como elemento divisório pode não ser tratada simplesmente como uma planta pertencente exclusivamente a um dos lados.
Por isso, antes de partir para uma poda agressiva, é importante verificar exatamente onde a vegetação está localizada e qual é a situação da divisa entre os terrenos.
O vizinho pode cortar toda a lateral da cerca-viva?
Não é possível concluir que ele tenha autorização para simplesmente destruir qualquer parte da planta.
O ponto principal é até onde a vegetação avançou para o terreno vizinho.
Se determinados galhos ou raízes ultrapassaram a divisa, a legislação permite que sejam cortados pelo proprietário prejudicado, observando o limite estabelecido pela própria norma.
Isso é diferente de avançar sobre a parte da cerca-viva que permanece no imóvel vizinho ou destruir uma planta que possa ser considerada comum por estar servindo como divisória.
Em uma situação real, a localização exata da planta e da divisa pode fazer toda a diferença.
O que acontece quando a poda causa prejuízo?
Se alguém ultrapassa os limites do que poderia fazer e provoca um dano, pode surgir uma discussão sobre responsabilidade e indenização.
Imagine, por exemplo, que uma pessoa corte uma parte da vegetação que estava localizada no terreno vizinho e a planta morra em razão da intervenção.
Nesse caso, o proprietário prejudicado pode buscar reparação pelos danos que conseguir demonstrar.
Por isso, uma reclamação relacionada a raízes, galhos ou calhas não significa automaticamente que o vizinho possa eliminar toda a vegetação existente na divisa.
O problema precisa ser resolvido respeitando os limites de cada propriedade.
Por que as raízes podem virar motivo de briga entre vizinhos?
As raízes costumam ser ainda mais difíceis de acompanhar do que os galhos.
Enquanto um ramo avançando sobre um muro pode ser facilmente percebido, as raízes ficam escondidas no solo e podem alcançar áreas próximas de pisos, muros, tubulações e outras estruturas.
No caso da história, o vizinho alegava que as raízes estavam levantando o piso do canil.
Também havia reclamações relacionadas aos ramos que alcançavam a calha e provocavam entupimentos.
São problemas que podem gerar custos e transtornos para quem mora ao lado da vegetação.
O que fazer antes de cortar a cerca-viva do vizinho?
A melhor alternativa costuma ser tentar resolver o problema antes que a situação vire uma disputa.
Algumas medidas podem ajudar:
- Registrar por mensagem a reclamação sobre os galhos ou raízes;
- Fotografar os pontos em que a vegetação ultrapassou a divisa;
- Conversar com o proprietário sobre uma poda;
- Combinar quem fará a manutenção de cada lado;
- Conferir a localização exata da divisa entre os terrenos;
- Procurar orientação profissional quando houver dúvida sobre os limites do corte.
Manter registros também pode ser importante caso a conversa não resolva o problema e seja necessário demonstrar posteriormente o que aconteceu.
Como evitar uma briga por causa da cerca-viva?
A manutenção preventiva pode evitar boa parte desses conflitos.
Quando a cerca-viva está próxima da divisa, o ideal é acompanhar seu crescimento e realizar podas regularmente, evitando que os galhos avancem cada vez mais para o terreno vizinho.
Também é interessante combinar previamente com o vizinho como será feita a manutenção.
Uma simples conversa pode evitar que uma planta que levou anos para crescer termine destruída em poucas horas.
Afinal, quem está certo em uma situação como essa?
Depende das circunstâncias.
O proprietário prejudicado pela invasão de raízes ou ramos possui uma proteção prevista no Código Civil e pode cortar aquilo que ultrapassa a divisa, dentro dos limites estabelecidos pela legislação.
Por outro lado, isso não significa que exista uma autorização geral para destruir a vegetação localizada no imóvel vizinho.
Quando a cerca-viva funciona como divisória, a situação pode ser ainda mais específica, já que a legislação prevê uma presunção de propriedade comum para sebes vivas que servem a essa finalidade.
Por isso, em um conflito real, é necessário analisar a posição da vegetação, a linha divisória, a extensão dos galhos e raízes e o eventual dano provocado pela poda.
O que a história ensina para quem tem uma cerca-viva na divisa?
A principal lição é que privacidade e direito de propriedade precisam conviver com os direitos do vizinho.
Plantar uma cerca-viva pode ser uma excelente maneira de criar uma barreira verde, mas a proximidade da divisa exige manutenção constante.
O proprietário deve evitar que a vegetação avance descontroladamente para o terreno ao lado. Da mesma forma, quem sofre com galhos ou raízes invasores deve observar os limites legais antes de realizar um corte.
No fim, oito anos de poda, adubo e cuidados podem resultar em uma bela parede verde — mas uma única intervenção feita sem atenção aos limites da propriedade pode transformar a tranquilidade entre vizinhos em uma disputa.
E quando a motosserra entra em cena, o que parecia apenas uma questão de jardinagem pode rapidamente se transformar em um problema jurídico.

