O Ministério Público do Trabalho (MPT) abriu uma investigação para apurar uma possível ocorrência de assédio eleitoral envolvendo funcionários da Havan após a divulgação de uma gravação em que o empresário Luciano Hang fala sobre o fim da escala 6×1.
O vídeo mostra Hang reunido com trabalhadores da rede em Caldas Novas (GO). Durante o discurso, o empresário critica a proposta que pretende acabar com a escala 6×1 e afirma que a mudança poderia aumentar os custos das empresas e reduzir o poder de compra dos funcionários.
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A gravação chegou ao conhecimento do MPT nesta segunda-feira, e o órgão instaurou uma Notícia de Fato para verificar as circunstâncias do episódio.
Segundo o Ministério Público do Trabalho, o procedimento ainda está em fase inicial e, neste momento, não há outras informações que possam ser divulgadas.
O que Luciano Hang falou aos funcionários sobre a escala 6×1?
Durante a reunião, Luciano Hang afirmou que o fim da escala 6×1 aumentaria o custo da mão de obra da Havan.
“Vocês vão ter que trabalhar mais!”: Luciano Hang se revolta com proposta que acaba com escala 6×1.
— Agência GBC (@AgenciaGBC) August 31, 2026
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Segundo o empresário, caso a jornada fosse reduzida sem alteração nos salários, a empresa poderia ter um aumento de aproximadamente 15% no custo da mão de obra.
Hang também argumentou que o aumento dos custos poderia ser repassado aos preços dos produtos e, consequentemente, diminuir o poder de compra dos trabalhadores.
Em outro momento do discurso, o empresário afirmou que os funcionários poderiam precisar buscar uma segunda fonte de renda caso a proposta fosse aprovada.
Ele mencionou ainda a possibilidade de trabalhadores procurarem um “subemprego”, sem registro e sem benefícios trabalhistas.
Por que o MPT decidiu investigar o caso?
A investigação foi aberta porque o conteúdo da reunião levantou uma suspeita que precisa ser analisada pelo Ministério Público do Trabalho: a possibilidade de que o discurso tenha ultrapassado uma manifestação política e configurado assédio eleitoral.
O procedimento, chamado de Notícia de Fato, serve justamente para que o órgão reúna informações e avalie se existem elementos suficientes para uma investigação mais aprofundada.
Neste momento, portanto, a abertura do procedimento não significa que já exista uma conclusão de que houve assédio eleitoral.
O MPT ainda precisa analisar o conteúdo e as circunstâncias em que a fala ocorreu.
O que é assédio eleitoral no ambiente de trabalho?
O assédio eleitoral acontece quando o trabalhador sofre pressão, constrangimento ou alguma forma de influência relacionada às suas escolhas políticas ou eleitorais no ambiente profissional.
A legislação protege a liberdade de escolha do eleitor, e empregadores não podem utilizar sua posição para obrigar, ameaçar ou pressionar funcionários em relação ao voto.
Por isso, manifestações políticas feitas por empresários ou gestores precisam ser analisadas de acordo com o contexto e com a maneira como são apresentadas aos trabalhadores.
No caso envolvendo a Havan, o MPT deverá verificar se houve elementos capazes de caracterizar esse tipo de conduta.
Hang chamou o fim da escala 6×1 de “estelionato eleitoral”
Durante a reunião, Luciano Hang classificou a proposta de mudança na jornada como “estelionato eleitoral”.
O empresário afirmou que políticos estariam interessados nos votos dos trabalhadores durante as eleições e questionou quais seriam as consequências da alteração para empregados e empresas.
A fala ocorreu em um momento no qual o fim da escala 6×1 está no centro de uma discussão política no Congresso Nacional.
A proposta prevê mudanças na organização da jornada de trabalho e está sendo analisada pelos parlamentares.
O que a Havan pode enfrentar caso seja constatado assédio eleitoral?
A consequência dependerá do que for apurado pelo Ministério Público do Trabalho e, eventualmente, pela Justiça.
A investigação pode reunir documentos, depoimentos, vídeos e outras informações capazes de esclarecer o que aconteceu durante a reunião.
Somente depois da análise dos elementos disponíveis será possível determinar se houve alguma irregularidade e quais medidas poderão ser tomadas.
Por isso, a abertura da Notícia de Fato deve ser entendida como uma etapa inicial de apuração, e não como uma condenação antecipada da empresa ou do empresário.
Havan e Luciano Hang já enfrentaram processo por assédio eleitoral
O episódio atual chama atenção também pelo histórico envolvendo a Havan e Luciano Hang.
Em 2018, durante a eleição presidencial, o Ministério Público do Trabalho em Santa Catarina recebeu denúncias relacionadas à influência política sobre funcionários da empresa.
Na época, a 7ª Vara do Trabalho de Florianópolis determinou que a Havan e Hang não realizassem propaganda política entre os trabalhadores, não coagissem ou influenciassem o voto dos funcionários e não fizessem pesquisas de intenção de voto.
A empresa também foi obrigada a divulgar uma comunicação aos empregados sobre o direito de escolher livremente seus candidatos.
Segundo informações relacionadas ao processo, a ação havia sido motivada por 47 denúncias.
Justiça condenou Havan por episódio relacionado às eleições de 2018
Em janeiro de 2024, a Justiça do Trabalho de Santa Catarina condenou a Havan e Luciano Hang por assédio eleitoral relacionado aos acontecimentos de 2018.
A decisão determinou o pagamento de R$ 1 milhão por dano moral coletivo, além de R$ 1 mil por dano moral individual para cada empregado que mantinha vínculo com a empresa até 1º de outubro daquele ano, conforme os critérios definidos na decisão.
O caso envolvia reuniões realizadas com funcionários e alegações de pressão relacionada às escolhas eleitorais.
Na ocasião, o MPT informou ter recebido mais de 30 denúncias relacionadas ao episódio.
Havan também foi condenada em outro caso em 2025
O histórico não terminou em 2018.
Em fevereiro de 2025, o Tribunal Regional do Trabalho da 15ª Região condenou a Havan a pagar R$ 5.960 a uma funcionária de uma unidade em Jacareí (SP) por um caso de assédio eleitoral.
A trabalhadora relatou que havia restrições a manifestações contrárias ao então presidente Jair Bolsonaro e afirmou que uma pessoa teria sido demitida após fazer críticas ao político.
Também foram apresentadas alegações relacionadas à utilização do número 13 em elementos da loja e a declarações de que a unidade poderia fechar caso o PT vencesse a eleição presidencial de 2022.
A Havan recorreu da decisão.
Em manifestação sobre o processo, Luciano Hang classificou a sentença como “política e sem qualquer base na realidade” e afirmou que seu posicionamento político sempre foi público.
A empresa também alegou que possuía regras internas contra discussões políticas e apresentou justificativas próprias para a ausência do número 13 em determinados elementos da unidade.
Quantas denúncias de assédio eleitoral o MPT recebeu em 2026?
O novo caso surge em um cenário no qual o número de denúncias recebidas pelo MPT está abaixo do registrado na última eleição presidencial.
Até 18 de agosto de 2026, o órgão havia recebido 169 denúncias formais de assédio eleitoral naquele ano.
No mesmo período de 2022, eram 540 denúncias.
Ao longo de 2022, o MPT contabilizou 3.371 casos de pressão política sobre trabalhadores, o maior número registrado pelo órgão até então.
Em 2018, quando Havan e Luciano Hang também foram alvo de uma ação relacionada ao tema, foram registradas 219 reclamações em todo o país.
Por que o caso acontece em meio à discussão sobre o fim da escala 6×1?
A investigação ocorre justamente enquanto o Congresso discute uma possível mudança nas regras da jornada de trabalho.
O fim da escala 6×1 se tornou um dos principais temas do debate trabalhista e envolve discussões sobre quantidade de horas trabalhadas, dias de descanso, salários e custos para as empresas.
É nesse contexto que ocorreu a reunião registrada no vídeo envolvendo funcionários da Havan.
O MPT deverá avaliar se a manifestação de Hang representou apenas uma posição sobre uma proposta legislativa ou se houve elementos que possam caracterizar pressão política sobre os trabalhadores.
Investigação ainda está no começo
Apesar da repercussão do vídeo, a apuração do MPT ainda está em sua fase inicial.
A abertura da Notícia de Fato permite que o órgão examine os acontecimentos e reúna informações antes de decidir se existem elementos para adotar outras medidas.
Por enquanto, portanto, não há uma conclusão definitiva sobre a ocorrência de assédio eleitoral no episódio mais recente envolvendo a Havan.
O caso ganhou relevância justamente porque envolve uma empresa que já enfrentou processos relacionados ao mesmo tema e porque a declaração aconteceu durante uma discussão nacional sobre a escala 6×1.
Agora, caberá ao Ministério Público do Trabalho analisar o conteúdo da reunião e verificar se a fala dirigida aos funcionários ultrapassou os limites de uma manifestação sobre a proposta de mudança na jornada.

