Casas abandonadas, prédios deteriorados e terrenos sem utilização podem ganhar uma nova função em Vitória, no Espírito Santo. A prefeitura criou regras para identificar imóveis que permanecem durante longos períodos sem conservação ou ocupação e, em determinadas situações, incorporá-los ao patrimônio municipal.
Entre os possíveis destinos estão projetos de moradia popular, equipamentos públicos e ações de revitalização urbana. Mas isso não significa que qualquer casa vazia possa ser simplesmente tomada pelo poder público.
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Antes de uma eventual transferência, existe um processo administrativo que precisa seguir etapas específicas. A prefeitura deve reunir elementos que indiquem o abandono, tentar localizar o proprietário e garantir oportunidade de defesa.
As medidas fazem parte do Programa de Reabilitação da Área Central (ReAC), regulamentado em Vitória pelo Decreto nº 27.034. O objetivo é recuperar imóveis sem utilização e contribuir para a revitalização da região central da cidade.
Prefeitura pode assumir casas abandonadas?
Pode, desde que sejam cumpridas as condições previstas na regulamentação.
Durante as fiscalizações, o município poderá verificar o estado de conservação das propriedades e reunir elementos que indiquem uma situação efetiva de abandono.
Entre os sinais que podem ser considerados estão:
- Mato alto e falta de manutenção;
- Acúmulo de lixo ou entulho;
- Portas e janelas danificadas;
- Pichações;
- Deterioração avançada;
- Riscos para vizinhos e pedestres;
- Ausência prolongada de ocupação;
- Descumprimento reiterado de determinações de limpeza ou segurança.
O histórico de comportamento do proprietário também pode ser relevante.
Se a prefeitura já tiver determinado providências para conservar ou proteger o imóvel e o responsável ignorar repetidamente as notificações, esse conjunto de informações poderá reforçar a caracterização do abandono.
Ainda assim, nenhum desses fatores, isoladamente, significa perda automática da propriedade.
Cinco anos sem pagar IPTU podem reforçar os indícios de abandono
A situação tributária do imóvel também poderá entrar na análise.
Quando o proprietário deixa de exercer a posse e acumula cinco anos sem pagar os tributos relacionados à propriedade, esse comportamento pode ser considerado um dos elementos utilizados para avaliar a existência de intenção de abandono.
Isso não significa, porém, que uma dívida de IPTU permita à prefeitura simplesmente tomar uma casa.
O imposto atrasado precisa ser analisado em conjunto com os demais elementos previstos no procedimento.
Portanto, quem possui uma propriedade com débitos tributários não perde automaticamente o imóvel por causa dessa dívida.
Dono terá 30 dias para contestar a medida
Se a prefeitura reunir elementos suficientes para iniciar o procedimento, o proprietário registrado deverá ser notificado.
A partir da comunicação, ele terá 30 dias para apresentar defesa e demonstrar que não abandonou a propriedade ou contestar os elementos apresentados pelo município.
As notificações poderão ocorrer pelos meios previstos na regulamentação, incluindo correspondência e comunicações eletrônicas.
Quando o proprietário não for localizado após as tentativas exigidas, a administração poderá utilizar edital publicado no Diário Oficial e em canais oficiais.
Somente depois da análise da defesa ou do encerramento do prazo sem manifestação é que o procedimento poderá avançar.
Caso os requisitos permaneçam comprovados, o município poderá publicar um decreto de arrecadação e assumir provisoriamente a posse do imóvel.
Proprietário ainda pode recuperar o imóvel
Mesmo depois da arrecadação provisória, a propriedade não passa imediatamente e de forma definitiva para a prefeitura.
O antigo proprietário terá três anos para demonstrar interesse em recuperar o bem e assumir novamente sua conservação.
Para isso, entretanto, poderá precisar regularizar pendências e ressarcir despesas realizadas pelo município durante o período em que administrou o imóvel.
Essa possibilidade é importante porque mostra que existe uma diferença entre a arrecadação provisória e a incorporação definitiva ao patrimônio municipal.
Se o prazo terminar sem que o proprietário tome as providências necessárias, o imóvel poderá ser incorporado definitivamente ao patrimônio do município.
Casas abandonadas podem virar moradias populares
Depois de uma eventual incorporação definitiva, o imóvel poderá receber uma nova finalidade.
Uma das possibilidades previstas pelo programa é a utilização em projetos de Habitação de Interesse Social (HIS).
Na prática, uma construção que permaneceu fechada e deteriorada durante anos poderá ser reformada e utilizada em iniciativas destinadas à habitação de famílias de baixa renda.
Isso não significa, entretanto, que todas as casas arrecadadas obrigatoriamente se transformarão em moradias populares.
A prefeitura deverá analisar as características de cada imóvel, como localização, tamanho, condições estruturais, custo de recuperação e necessidades da região.
Algumas propriedades também poderão ser destinadas a serviços municipais, equipamentos públicos ou outros projetos de revitalização urbana.
Terrenos vazios também podem ser atingidos pelas medidas
As novas regras também envolvem terrenos sem construção e imóveis considerados subutilizados, mas o procedimento pode ser diferente daquele utilizado para propriedades caracterizadas como abandonadas.
Um dos instrumentos disponíveis é o Parcelamento, Edificação ou Utilização Compulsórios (PEUC).
Por meio dele, o município pode determinar que o proprietário dê uma utilização adequada ao terreno ou imóvel.
Caso nenhuma providência seja tomada, outras medidas podem ser aplicadas.
Entre elas está o IPTU progressivo no tempo, que aumenta gradualmente a cobrança enquanto a propriedade permanece sem cumprir sua função social.
Depois de observadas as etapas previstas na legislação, o processo pode chegar à desapropriação.
Prefeitura estima até 11 mil novas moradias
O combate aos imóveis abandonados faz parte de um projeto mais amplo de revitalização da região central de Vitória.
A prefeitura estima que as medidas do ReAC possam viabilizar entre 8 mil e 11 mil novas moradias e projeta a chegada de até 27,5 mil novos moradores à área ao longo do processo de revitalização.
A administração municipal também pretende atrair investimentos privados, com expectativa superior a R$ 6 bilhões.
A estratégia considera que o Centro já possui infraestrutura importante, como transporte, comércio, escolas, serviços públicos, prédios históricos e equipamentos culturais.
A recuperação de imóveis sem utilização é vista como uma das formas de aproveitar melhor essa estrutura existente e trazer novamente moradores para a região.
Prédios antigos também podem receber incentivos para reforma
O programa não trata apenas da situação de propriedades abandonadas.
Proprietários interessados em recuperar construções antigas também poderão encontrar mecanismos de incentivo e procedimentos específicos para reformas, restaurações, retrofit e novas edificações.
Em determinadas situações, o município prevê processos simplificados de licenciamento e até emissão eletrônica e automática do Alvará de Execução de Obras, desde que sejam cumpridas as exigências aplicáveis.
As facilidades não eliminam a necessidade de respeitar regras de segurança, planejamento urbano e preservação do patrimônio histórico.
Donos de imóveis históricos podem transferir potencial construtivo
Outra medida prevista envolve propriedades protegidas pelo patrimônio histórico.
Por meio da Transferência do Potencial Construtivo, o proprietário pode transferir, dentro das regras municipais, parte do direito de construir que não consegue utilizar no próprio imóvel.
Em determinadas situações no Centro Histórico, a transferência poderá alcançar até 100% desse potencial.
A ideia é criar uma alternativa econômica para ajudar proprietários a financiar reformas e restaurações de construções históricas.
Dessa forma, o programa combina fiscalização de imóveis abandonados com incentivos para quem deseja recuperar propriedades antigas.
Qualquer casa vazia pode ser tomada pela prefeitura?
Não.
Uma casa simplesmente desocupada não se transforma automaticamente em propriedade do município.
O mesmo vale para um imóvel fechado temporariamente, uma propriedade que esteja sendo vendida ou um terreno vazio.
A prefeitura precisa analisar cada caso e seguir o procedimento administrativo previsto nas regras.
Além disso, a aplicação inicial das medidas está concentrada na Zona Especial de Interesse Urbanístico 1 (ZEIU 1), que inclui o Centro Histórico e outros trechos da região central de Vitória.
O foco está principalmente em propriedades que apresentam sinais prolongados de abandono, deterioração, ausência de posse e falta de providências por parte do proprietário.
O que o dono deve fazer para não perder uma propriedade abandonada?
O primeiro passo é não ignorar notificações e determinações do município.
Quem possui um imóvel sem utilização deve manter a propriedade conservada, cumprir as obrigações tributárias e responder às comunicações oficiais.
Também é importante guardar documentos que demonstrem a utilização, conservação ou intenção de recuperar o imóvel.
Se a prefeitura iniciar um procedimento de arrecadação, o proprietário deve apresentar defesa dentro do prazo e procurar orientação jurídica para avaliar a situação concreta.
O ponto principal é que casas abandonadas não são tomadas automaticamente. Existe uma sequência de fiscalização, notificação, defesa, eventual arrecadação provisória e possibilidade de recuperação antes de uma incorporação definitiva.
A nova regulamentação de Vitória busca justamente transformar imóveis que permaneceram sem utilização em espaços capazes de cumprir uma função urbana.
Em alguns casos, isso poderá significar reformas e criação de moradias populares. Em outros, o imóvel poderá receber serviços públicos ou integrar projetos de revitalização.
Para o proprietário, porém, a mensagem é clara: deixar uma casa abandonada por longos períodos pode gerar consequências que vão muito além de uma simples deterioração do patrimônio.

