O número de brasileiros inadimplentes chegou a 83,9 milhões em julho de 2026, segundo o Mapa da Inadimplência e Negociação de Dívidas da Serasa. O resultado representa alta de 0,23% em relação ao mês anterior e o maior nível já registrado pela série histórica do levantamento.
Ao todo, eram mais de 348,3 milhões de dívidas negativadas, que somavam aproximadamente R$ 586,4 bilhões.
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O tamanho do problema chama atenção porque ocorre mesmo em um cenário de melhora em alguns indicadores do mercado de trabalho.
Bancos e cartões concentram a maior parcela das dívidas
Entre os diferentes tipos de débitos, bancos e cartões de crédito respondem por aproximadamente 26% das dívidas em atraso, aparecendo como o principal segmento individual no levantamento da Serasa.
O resultado mostra o peso que o crédito tem no orçamento das famílias brasileiras.
Cartões, empréstimos e financiamentos podem ajudar consumidores a antecipar compras ou lidar com despesas inesperadas, mas os valores acumulados podem se tornar difíceis de pagar quando a renda disponível não acompanha os compromissos assumidos.
Juros altos também pesam no orçamento
O custo do crédito é outro fator importante para entender o avanço da inadimplência.
Nos últimos anos, o Brasil passou por períodos de juros elevados. A Selic, por exemplo, chegou a 13,75% ao ano em agosto de 2022, depois de ter permanecido em apenas 2% ao ano em outubro de 2020.
A elevação dos juros tornou empréstimos e financiamentos mais caros e dificultou a reorganização financeira de famílias que haviam ampliado o consumo utilizando crédito.
Mesmo com períodos posteriores de redução da taxa básica, o custo de várias modalidades de crédito continuou pressionando os consumidores.
Custo de vida aumenta a pressão sobre as famílias
Os juros não são o único fator relacionado ao problema.
O aumento do custo de vida também reduz a parcela da renda disponível para quitar dívidas. Quando despesas essenciais consomem uma parte maior do orçamento, sobra menos dinheiro para pagar cartões, empréstimos e financiamentos.
Esse cenário pode criar um ciclo difícil de interromper: o consumidor utiliza crédito para cobrir despesas, acumula novos compromissos e posteriormente enfrenta dificuldades para manter os pagamentos em dia.
Ter dívida não significa estar inadimplente
É importante diferenciar endividamento de inadimplência.
Uma pessoa pode ter um financiamento, uma compra parcelada ou uma fatura de cartão e continuar pagando tudo dentro do prazo.
A inadimplência acontece quando o consumidor deixa de cumprir o pagamento na data prevista.
Em abril, por exemplo, 80,9% das famílias brasileiras tinham algum tipo de dívida, segundo dados da CNC. O número inclui compromissos como financiamentos, empréstimos e compras realizadas no cartão de crédito.
Portanto, o fato de uma família possuir dívidas não significa necessariamente que ela esteja com o nome negativado.
Número de inadimplentes varia conforme a pesquisa
A Serasa registrou 83,9 milhões de inadimplentes em julho. Já o Indicador de Inadimplência da CNDL e do SPC Brasil apontou 75,08 milhões de brasileiros inadimplentes no mesmo mês.
A diferença ocorre porque as instituições utilizam metodologias e bases de dados diferentes.
Apesar disso, os dois levantamentos apontam para um cenário de inadimplência elevada no país.
Desenrola já renegociou bilhões em dívidas
A tentativa de reduzir o problema por meio da renegociação de débitos também ganhou força nos últimos anos.
O primeiro Desenrola Brasil, lançado em 2023, renegociou aproximadamente R$ 53,2 bilhões em dívidas de 15 milhões de brasileiros.
A iniciativa buscou permitir que consumidores quitassem ou reorganizassem débitos em condições mais acessíveis.
Mesmo com a renegociação, porém, o endividamento voltou a crescer e continua sendo um desafio para milhões de famílias.
Novo programa tenta reduzir a pressão
Uma nova edição do programa de renegociação foi lançada em 2026 com a proposta de alcançar até aproximadamente 20 milhões de pessoas e possibilitar a renegociação de até R$ 58 bilhões em dívidas.
A intenção é reduzir o peso das contas atrasadas e permitir que consumidores recuperem gradualmente o acesso ao crédito.
A existência de programas de renegociação, entretanto, não elimina as causas que levam ao acúmulo de dívidas.
O que explica o recorde de inadimplência?
O cenário é resultado de uma combinação de fatores.
O custo de vida elevado reduz a renda disponível, enquanto juros altos aumentam o custo dos empréstimos e financiamentos. Ao mesmo tempo, a utilização frequente de crédito pode fazer com que famílias acumulem compromissos acima da capacidade de pagamento.
Nesse contexto, bancos e cartões aparecem como o maior segmento individual das dívidas em atraso, mas não é possível atribuir o recorde de inadimplência a uma única causa.
Os dados mostram, na realidade, uma combinação de crédito caro, despesas elevadas e dificuldade de reorganização financeira que continua afetando milhões de brasileiros.

